Individualmente, os seres humanos possuem sentimentos e aspirações naturais e poderosas. Porém, esses sentimentos e aspirações muitas vezes precisam ser reprimidos quando vão contra as normas políticas, econômicas e comportamentais do grupo maior, a sociedade. Poucos cineastas compreendem tão bem esse conflito quanto o taiwanês Ang Lee. O belo e devastador O Segredo de Brokeback Mountain, provavelmente o seu melhor filme, é uma história de amor natural entre dois homens, mas que não deveria ter acontecido devido ao contexto histórico e social no qual ambos viviam. Mas aconteceu assim mesmo porque a natureza humana não pode ser negada. Esses dois homens ganhavam a vida como cowboys, e o caso de amor entre eles desafia o arquétipo da masculinidade americana por excelência.

A história do filme começa em 1963, quando um rancheiro (vivido por Randy Quaid) coloca um anúncio convocando alguns cowboys para um serviço especial: tomar conta do seu rebanho de ovelhas durante o verão no Estado do Wyoming. Dois rapazes aparecem para o serviço: o taciturno Ennis Del Mar (Heath Ledger) e o mais expansivo Jack Twist (Jake Gyllenhaal). Ennis está noivo e seu único objetivo na vida é ter seu próprio rancho um dia. Já Jack é peão de rodeio e quer ser famoso.

Assim, lá vão os dois para o alto da Montanha Brokeback para cuidar das ovelhas. Um sempre dorme com os animais, o outro no acampamento. O rancheiro de vez em quando sobe a montanha para lhes deixar mantimentos. Não há ninguém à vista. Numa noite fria, após uma bebedeira, ambos concordam em dividir uma tenda e acontece algo que surpreende a ambos: eles se tocam, se beijam e passam a noite juntos. Ennis reage com raiva inicialmente, mas acaba aceitando. São duas pessoas que não parecem ter experimentado muito carinho em suas vidas – Ennis só aceita esse carinho depois de lutar um pouco – mas o envolvimento deles acaba vindo naturalmente.

Quando o verão acaba, ambos descem da Brokeback. Jack recebe uma reprovação não exatamente sutil do preconceituoso rancheiro. Já Ennis vomita e parece sentir dor física quando se despede do companheiro. Mas a vida continua e ambos se casam: Ennis com Alma (Michelle Williams) e Jack, com a bela Lureen (Anne Hathaway). Porém, o sentimento entre os dois homens continua forte e eles voltam a se reencontrar. Ao longo dos anos, eles mantêm um relacionamento escondido de todos, mas a impossibilidade de viverem juntos começa a cobrar um preço de ambos.

O que Ang Lee faz no começo de Brokeback Mountain é subverter aquele arquétipo referido anteriormente. Estamos acostumados, por décadas de westerns e filmes de ação, a considerar o cowboy como herói viril e poderoso, capaz de restaurar a ordem num Oeste selvagem. Porém, a homossexualidade do cowboy foi muito ignorada no cinema americano, embora vários dos westerns do passado tivessem sim, tons homoeróticos. Muitos filmes retratavam aqueles homens vivendo juntos num ambiente inóspito, onde não havia mulheres – e muitas vezes elas nem eram bem-vindas. É impossível, hoje, não imaginar que relacionamentos homossexuais deveriam existir nesse contexto.

Lee mostra o envolvimento dos seus dois personagens de forma absolutamente natural, efetivamente demolindo esse mito americano. Porém, depois Lee começa a fazer algo mais significativo e emocionante. Como cineasta, ele sempre se mostrou interessado em personagens em conflito com a sociedade em que vivem e aqui ele leva esse dilema ao limite. Seus filmes anteriores Razão e Sensibilidade (1995), Tempestade de Gelo (1997) e O Tigre e o Dragão (2000) são todos, de alguma forma, sobre esse conflito e sobre as tensões exercidas sobre pessoas forçadas a viver de um jeito, mas incapazes de se conformar. Até o seu blockbuster Hulk (2003) trazia esse conflito nas entrelinhas.

Vale destacar que O Segredo de Brokeback Mountain é baseado num conto de Anne Proulx publicado em 1997, e o roteiro foi escrito por Diana Ossana e Larry McMurtry. Este último é autor do livro que deu origem ao clássico da Nova Hollywood A Última Sessão de Cinema (1971) – McMurtry também colaborou no roteiro do longa setentista. Os dois filmes têm algumas características em comum: como em Sessão de Cinema, Brokeback Mountain dedica grande parte da sua atenção ao modo como as pessoas vivem com as emoções sob controle e levam existências sedadas nas cidadezinhas americanas.

Por exemplo, o cotidiano de Ennis, assim como seu lar, é bem desprovido de cores e isso se reflete na personagem Alma – uma sensível e quieta performance de Michelle Williams – cada vez mais incapaz de entender o marido. Já a casa de Jack e Lureen é um pouco mais colorida e iluminada, refletindo o gosto ligeiramente brega desta última. Assim, de forma sutil e usando a direção de arte, Lee estabelece a dinâmica do casal e ficamos sabendo rapidamente quem é que manda naquela casa.

O visual do filme só se torna realmente bonito quando os dois personagens estão em meio à natureza, e o diretor de fotografia Eric Gauthier mostra paisagens excepcionais, repletas de cores e luz. É um mundo expansivo, em contraste com os ambientes comprimidos onde os personagens vivem. Em meio a toda essa beleza, porém, as tristezas das vidas “normais” de Ennis e Jack acabam se infiltrando em alguns momentos. É notável a cena em que Ennis explica a Jack porque eles não podem ficar juntos: a história, muito presente em sua mente, do homossexual espancado até a morte anos antes, quando ele era criança, e cujo cadáver o pai do rapaz fez questão de que seus filhos vissem, deixou marcas na psique dele.

Essa é a chave para entender o personagem: Ennis é alguém incapaz não só de expressar seus sentimentos, como também de compreendê-los por grande parte da historia. Ledger o interpreta de forma tensa e como alguém com dificuldades até para abrir a boca para falar. É uma atuação magistral, perfeita na sua composição e naquilo que o ator escolhe expressar – Ledger, assim como o roteiro do filme, deixa algumas coisas a respeito do seu personagem a cargo da imaginação da plateia. Gyllenhaal é o perfeito contraponto, um pouco mais solto e até mais abertamente gay que seu companheiro de cena. Juntos, os dois atores entregam performances dedicadas, corajosas e sensíveis.

Ennis, o verdadeiro protagonista de O Segredo de Brokeback Mountain, é tão reprimido que alguma grande emoção na sua vida só poderia surgir realmente devido a um acaso. Foi devido a um acaso que ele conheceu Jack na Montanha, e isso acabou sendo o evento definidor em sua vida. O amor de ambos surpreendeu a ele, acima de tudo, e o que ele escolheu fazer com esse sentimento terminou por definir o resto da sua existência. Essa escolha, no entanto, foi determinada pela pressão da sociedade, e é essa questão que interessa a Ang Lee. Nos seus filmes, às vezes os personagens encontram jeitos de negociar com o conceito social e até mesmo vencê-lo; às vezes não. Essa é a tragédia do amor entre Jack e Ennis: eles não conseguem. Porém, o filme torna compreensível o sentimento deles, que não é de modo algum menor, ou menos belo ou menos trágico, por ser compartilhado entre dois homens. Qualquer um pode se emocionar com a história deles, basta ser humano.

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