Se a ‘Era Dourada’ de Hollywood tinha James Stewart e seu charme do homem comum, os anos 80 nos apresentaram Tom Hanks e seu quê de ‘boy next door’. Considerado o sucessor de Stewart – muito por ter repetido o feito dele de conquistar dois Oscars seguidos -, Hanks tem em seu desempenho de “O Terminal” a justificativa perfeita para esta comparação.

Um dos motivos para isso é que o filme dirigido por Steven Spielberg tem toques de ‘screwball comedy’, um dos gêneros nos quais ‘Jimmy’ se consagrou. Pois é. O talento e o carisma de Hanks brilham nesta produção lançada em 2004 e tão malhada por críticos mundo afora.

Realizada logo após outro filme ‘leve’ de Spielberg – o ótimo “Prenda-me Se For Capaz” -, “O Terminal” traz Tom Hanks em um espaço confinado apenas quatro anos após “Náufrago”. Contudo, desta vez ele é um homem que não tem consciência do que está lhe acontecendo. Alguém tão ingênuo que poderia ser amigo de Amélie Poulain, Viktor Navroski (Hanks) é um imigrante que tem seu passaporte cancelado e fica “preso” em um terminal ao embarcar nos EUA. Seu país, a fictícia Krakózhia, entra em guerra. Sem identidade nem lenço e muito menos documento, ele acaba transformando o aeroporto em seu lar, enquanto aguarda uma resposta positiva das autoridades para finalmente realizar seu sonho americano.

O aeroporto vira uma casa não só para Viktor, mas para as pessoas que ali trabalham. No vai e vem de pessoas de todo o mundo, alguns rostos ficam esquecidos na multidão. É a moça do guichê da alfândega, o rapaz da limpeza, o segurança… Vemos a união daquele grupo e como eles se transformam em uma família. Podem interpretar o fato de todos serem minorias como juízo de valor, mas vejo isso mais como uma crítica de como os imigrantes são tratados.

E aí entra a grande atuação de Tom Hanks. Carismático como só ele, Hanks transforma Viktor no nosso melhor amigo e jamais subestima o personagem. O ator constrói um homem tão esperto quanto ingênuo e parece se divertir a cada momento que está em cena. Ele exagera um pouco no sotaque e até tem uma quedinha pelo estereótipo, mas é tão apaixonante que não dá para não comemorar cada vez que Viktor escapa e a cada amizade nova que ele conquista.

Seu interesse amoroso é Catherine Zeta-Jones (no auge, pós-Chicago). Ok, as repetidas quedas e trapalhadas da comissária de bordo interpretada pela atriz são um ponto fraco do roteiro. Na tentativa de fazer uma mulher tão linda – e em uma posição mais alta que a do protagonista – ser “acessível”, a história escorrega – sem trocadilhos.

Mas a química de Zeta-Jones e Hanks, no entanto, salva cada uma dessas cenas de trapalhadas. A cena do jantar romântico entre os dois é de uma encantadora melancolia – sim, isso existe -, quando pensamos não só no que acontece naquele momento, mas no desenrolar da trama. E o beijo dos dois no ‘cantinho’ criado por Viktor mostra toda a magia do cinema (claro que ter uma discreta trilha de John Williams ao fundo não é nada ruim). Como o chefe da segurança do aeroporto, Stanley Tucci tenta criar um vilão mais interessante que o de “Um Olhar do Paraíso” – ainda assim, é prejudicado por um roteiro que lhe relega a um personagem unidimensional (para não dizer repetitivo).

Tentando imprimir neste filme o ritmo ágil de “Prenda-me Se For capaz”, Spielberg acaba criando um trabalho oposto ao protagonizado por DiCaprio (e, coincidentemente ou não, Tom Hanks). Em “O Terminal”, o jogo de gato e rato não é tão interessante quanto a jornada do protagonista e a sua história “pregressa” (e se você conhece o trabalho de Spielberg, sabe bem que, mais uma vez, a relação do protagonista com o pai tem papel importante na história). A cena final pode até decepcionar os que esperavam um grand finale, mas cabe dentro da proposta e emociona por sua simplicidade.

“O Terminal” tem lá suas falhas, mas acerta ao mostrar as pequenas lutas dos imigrantes e que nem sempre o dito “sonho americano” se resume a uma casinha com cercado branco. O sonho pode caber em uma lata. Ou ser tão grande que apenas um saguão de aeroporto lhe comportaria.

Uma ‘screwball comedy melancólica’, “O Terminal” tem como força a atuação de Tom Hanks, que nos faz virar criança de novo sem precisar de um piano gigante tocando. Jimmy Stewart teria ficado orgulhoso (e com um pouco de ciúmes).

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