por Henrique Filho

A Guerra Fria e a espionagem do período sempre foram temas de diversos filmes. Sejam em franquias de ação como os filmes de James Bond ou em thrillers como “O Espião que sabia demais”, mas todos se passando na época e sendo um retrato daquele tempo. Então é interessante observar, mesmo que claramente se passando nos dias atuais, o filme “Operação Red Sparrow” soe datado.

Dominika Egorova (Jennifer Lawrence) é a principal bailarina do famoso ballet Bolshoi. Ao sofrer um acidente durante uma apresentação e ficar impossibilitada de voltar aos palcos, a jovem fica em um momento delicado. Quase sem casa e com a mãe doente, a moça então aceita uma proposta de trabalho do tio (Matthias Schoenaerts). O trabalho claro revela-se uma furada, e ao ser testemunha de um crime político, a ex-bailarina se vê presa a duas opções: Ser morta ou aceitar se tornar uma Sparrow, uma espiã a serviço da pátria que usa a sedução como arma principal.

Arma essa que vemos ser apenas passada em treinamento, mas nunca aplicada de verdade em campo. Treinada de maneira a saber como seduzir e utilizar a libido e fetiches para extrair informações, o único fetiche que vemos no filme são as torturas impostas e os rompantes de violência gráfica, e a libido é de gerar desconforto, as cenas de sexo são a prova disso, todas absolutamente mecânicas.

Baseado no livro de Jason Matthews, acompanhamos a origem, treinamento e uma missão de Dominika. O que podemos já considerar é que o anacronismo cheio de clichês permeia a trama, como adiantei no início do texto, principalmente pela forma como o roteiro trata os russos no filme. Aparentemente a Guerra Fria não acabou, e eles querem apenas uma chance para tomar o Ocidente. A agência russa de espionagem é tirana e bárbara, enquanto os americanos são cheios de boas intenções, chegando ao ponto de o personagem de Joel Edgerton deixar isso claro em uma frase bem expositiva. É um discurso anticomunista e de propaganda norte-americana requintado e com nova roupagem, “Hoje os ocidentais estão interessados apenas em redes sociais” diz a treinadora russa. Isso porque não vou falar da tolice em colocar russos falando inglês com sotaque carregado até nas conversas mais mundanas, e o personagem americano falando mais russo que a própria protagonista, ao proferir uma frase no idioma da jovem, ela responde em inglês “como você sabe que sou russa?”.

O diretor ainda erra e perde a mão no ritmo do filme: observe a rapidez do treinamento de Dominika até sua missão. A impressão que fica é que ela passou uma semana só no quartel, como se tivesse feito um intensivo, no fim das contas o treinamento revela-se ainda mais interessante que a missão em si. A missão mais clichê impossível, descobrir o traidor que está entregando informações para o inimigo, informações essas que nunca são reveladas, claramente porque não importam, tanto é que outra missão é inserida no meio com os seus segredos expostos.

A trilha sonora composta por James Newton Howard, burocrática, evoca clima de conspiração, mas não faz nada além de acompanhar o filme. A fotografia de Jo Williems, apenas corrobora pra frieza russa e a grandeza do seu passado, as paisagens da Rússia sempre isoladas pelo frio ou cercadas por neve, em uma visão claramente opressora.

O grande problema de “Operação Red Sparrow” é quase nunca funcionar para onde aponta. Não funciona como thriller e nem como filme de ação, mas ironicamente funciona como filme de tortura, para protagonista e principalmente para o público ao longo dos seus 140 minutos.

NOTAS

Violência: 6
Direção: 3
Roteiro: 3
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NOTA FINAL: 4

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