O Pantera Negra é um super-herói muito legal.  Possui um nome chamativo, um traje bacana, um universo interessante ao seu redor…  Ora, na sua primeira aparição nos quadrinhos, ele derrota sozinho o Quarteto Fantástico! O Pantera é T’Challa, príncipe do reino africano fictício de Wakanda, um lugar de cultura e desenvolvimento tecnológico sem paralelos na Terra do Universo Marvel. Um lugar que deveria existir de verdade – viveríamos num mundo melhor se Wakanda fosse real.

Isso ressalta o maior diferencial a respeito do personagem: ele foi, de fato, o primeiro super-herói negro da grande indústria de quadrinhos norte-americana, criado por Stan Lee e Jack “O Rei” Kirby em 1966, justo quando a luta pelos direitos civis mobilizava a população negra do país e as tensões raciais estavam atingindo o seu ápice naquela década. O Pantera não era o parceiro de nenhum herói branco nem dependia de ninguém para agir. Os leitores, claro, ficaram impressionados. Ora, pouco depois da primeira aparição dele nos quadrinhos surgiu o Partido dos Panteras Negras, a organização negra que combatia a opressão branca e a truculência policial, muitas vezes com mais violência. As HQs influenciaram a realidade? Ninguém parece ter uma resposta definitiva para isso, mas esse fato demonstra como os criadores dos quadrinhos Marvel estavam atentos ao que estava acontecendo no país e no mundo, e usavam isso como combustível para a fantasia.

Os responsáveis pelo Marvel Studios são inteligentes o suficiente para fazer a mesma coisa que as HQs fizeram. Afinal, o público de cinema também ficou impressionado com o personagem em Capitão América: Guerra Civil (2016), sua estreia nas telas. Pantera Negra, o filme, é sequência direta dos eventos daquele divisor de águas do Universo Marvel cinematográfico: T’Challa (vivido por Chadwick Boseman) vira rei de Wakanda depois da morte do pai e começa a enfrentar desafios para governar. Mas o mundo está mudando, e as atividades dos vilões Klaue (Andy Serkis) e Erik Killmonger (Michael B. Jordan) começam a ameaçar o isolacionismo de Wakanda e o próprio reinado, e a vida, de T’Challa.

Trata-se de um filme feito por negros para ressaltar o fato de, finalmente, termos uma produção de grande orçamento estrelada por um super-herói negro – o diretor Ryan Coogler, um negro, tocou no tema racial com inteligência e força em Fruitvale Station: A Última Parada (2013) e revitalizou uma franquia “branca” graças a uma visão arguta e repleta de negritude no emocionante Creed (2015), ambos com Michael B. Jordan. O elenco de Pantera Negra também é quase todo negro, com a presença de intérpretes de destaque como Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, Forest Whitaker e Angela Bassett, e os principais membros da equipe do filme também são negros.

A história concebida por Coogler aborda temas relevantes para o nosso tempo. Um dos personagens se opõe à revelação de Wakanda para o mundo por se dizer contra a enxurrada de refugiados que o país enfrentaria – “Seremos igual a qualquer outro lugar”, ele diz. O racismo do mundo ocidental, e o ressentimento que ele cria na alma de quem o sofre, são as forças motrizes do comportamento do antagonista Killmonger. Outra frase, dita por T’Challa, também possui força insuspeita e adquire ainda mais poder por ser dita no contexto do que é, no fim das contas, um blockbuster comercial: “Em tempos difíceis, os sábios constroem pontes e os tolos, muros”.

Coogler e seu co-roteirista Joe Robert Cole também colocam uma boa dose de profundidade no filme. Há momentos praticamente operáticos dentro da história, reforçados pelo escopo grandioso do filme no qual se destaca especialmente o design de produção de Hannah Beachler. Os cenários e as vistas aéreas de Wakanda captadas pela câmera do filme impressionam, assim como a mescla de paisagens reais com elementos criados por computador. O figurino do filme também é inteligente, diferenciando as várias tribos que compõem a nação de Wakanda com cores e estilos diversos. Percebe-se que todo esse trabalho visual é no fundo uma extrapolação fantasiosa de elementos das culturas africanas que existem no mundo real. O resultado é uma obra tal e qual as HQs, com um pé na realidade e o outro na fantasia.

Quem também traz profundidade ao filme é o vilão, o mais interessante que o Marvel Studios já conseguiu criar em suas produções. Jordan é imponente e muito carismático no papel, e é curioso ver como ele é mais emocional que o herói. Erik faz o que todo grande antagonista faz, nos faz questionar o herói e seus métodos – não fosse a presença de cena e a força de Boseman, seria o primeiro caso de filme Marvel no qual o vilão rouba definitivamente a cena.

Mas os realizadores de Pantera Negra também são inteligentes o bastante para deixar os temas discutidos no filme e a trama meio “shakespeariana” como pano de fundo, pois o mais importante é o espetáculo. A visão de Coogler é épica, grandiosa, e o filme alcança o propósito de divertir com facilidade, mesmo que aqui e ali derrape um pouco. O clima de “James Bond negro” é claro, pois o Pantera possui até a sua “Q” para lhe fornecer engenhocas úteis – a atriz Letitia Wright faz a irmã de T ‘Challa e rouba todas as cenas em que aparece. Há, porém, algumas conveniências narrativas e clichês de roteiro, notadamente perto do fim, e algumas cenas de ação – como a do comboio no início – são prejudicadas pela praga da shaky cam, aquela câmera tremida que, aliada aos cortes muito rápidos na montagem, atrapalham a visualização das cenas. Coogler se sai melhor criando – com o auxílio de computador – o belo plano-sequência da luta do cassino. E a computação gráfica perto do fim também é meio irregular – é triste ver o herói e o vilão se transformarem em bonecos de videogame num cenário ligeiramente falso e sem peso na luta climática.

Essas coisas atrapalham, mas não tiram os muitos méritos do filme. Pantera Negra consegue divertir com uma história forte e dramática – há momentos de típico humor Marvel, mas o tom está mais próximo de Capitão América: Soldado Invernal (2014) do que de Thor: Ragnarok (2017). Acima de tudo, o filme compreende a importância de se contar histórias e dos heróis, especialmente quando somos crianças. Ver garotinhos (e adultos) negros ficando embasbacados com o seu herói e seus apetrechos não tem preço. Graças a mais esta história contada direito, de modo geral, agora o mundo vai perceber de vez o quão legal é esse super-herói e o quão importante ele foi. E continua sendo…