Os menores de 40 anos não fazem ideia, mas já houve um tempo em que falar abertamente de sexo, ser gay ou até mesmo pedir divórcio eram atos condenáveis por lei, motivo para prisões, espancamento e humilhações em praça pública (não que agora não sejam, mas, acreditem, já foi bem pior).

Foi uma época de regimes de exceção, ditaduras castiças e repressivas que, em nome da ordem social, baixavam o porrete sobre qualquer tentativa de individualidade. O século XX foi pródigo em tais aberrações, não importando o nome da ideologia ou do facínora vigentes.

O caso da Espanha foi um dos piores. Nos anos 1930, uma guerra civil bárbara rachou o país entre “vermelhos” e conservadores, provocando meio milhão de mortes e levando ao exílio gênios como o pintor Pablo Picasso e o cineasta Luis Buñuel, além de vitimar o poeta Federico García Llorca, empobrecendo a vida cultural espanhola por gerações. A ala conservadora, vitoriosa no conflito, empossou o general Francisco Franco em 1939, dando início a uma das ditaduras mais longas e repressivas do século.

Espere, do que estávamos falando mesmo? Ah, sim, agora é que Pedro Almodóvar entra no frame.

Pedro Almodóvar Caballero, nascido em 1949 em Calzada de Calatrava, na região de La Mancha, foi o artista que ajudou a libertar a Espanha desse negror oprimente. Sua obra libertária, marcada pelo desejo sexual, as pulsões criativas e o uso de cores extravagantes, é o principal emblema da reinvenção espanhola, e, mesmo sendo muito pessoal e característica, resume e simboliza o cinema local com a mesma força e universalidade que as obras de Fellini, Bergman e Fassbinder o fizeram por seus respectivos países.

Mas, para que Pedro Almodóvar pudesse ter uma obra, era necessário que Franco e sua ditadura saíssem de cena.

A Movida Madrileña (1977-1983)

Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão Pedro AlmodóvarEntre a morte do famigerado caudillo, em 1975, e o primeiro longa de Almodóvar, “Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão” (1980), passaram-se cinco anos. Esse entrecho vital marca o degelo da ditadura na Espanha, uma época que, tal como no Brasil e em outros países recém-saídos das trevas, foi marcada pela efervescência cultural e o relaxamento dos costumes.

Na Espanha, são os anos da Movida Madrileña, um movimento informal de cineastas, músicos e performers de Madri, que celebram o amor livre, o pansexualismo, o uso de drogas e toda forma de contestação da velha ordem. Para Almodóvar, vindo de um dos recantos mais provincianos e castiços do país – a “Espanha Negra”, terra de Dom Quixote, com suas tempestades de vento e uma atmosfera de catolicismo severo –, foi uma época fantástica: funcionário em meio-período da companhia telefônica nacional, ele tinha um emprego estável e tempo de sobra para mergulhar na vida noturna e artística da cidade. São dessa fase seus contos mais famosos, publicados em fanzines e revistas alternativas – um deles, “Ereciones generales”, seria a base para o roteiro de “Pepi” –, suas foto-novelas, seus primeiros curtas em Super 8.

Veterano da sala escura ainda na adolescência, Almodóvar logo se destacou entre os cineastas da Movida. Seu conhecimento enciclopédico – ia de Carl Dreyer a John Waters na mesma conversa, e com o mesmo à-vontade sobre as obras dos dois – e sua energia irrefreável o puseram na liderança do movimento.

À distância desses quase quarenta anos, e apesar de toda a vitalidade e importância daquele grupo para a vida cultural espanhola, a verdade é que poucas coisas da Movida interessam, ainda hoje, a quem assiste. Mais do que todas, os filmes de Almodóvar. Sobretudo, “Pepi”.

Verdadeiro manifesto da Movida e da juventude espanhola pós-Franco, a estreia de Almodóvar é o documento definitivo desse período curto, mas inesquecível. A produção foi demorada – as filmagens só podiam acontecer nos fins de semana, com elenco e equipe às voltas com equipamentos defeituosos e dinheiro escasso – e feita na base da amizade. Mas, apesar da péssima qualidade de imagem e som do produto final, “Pepi” é uma revelação. Trazendo, já de cara, vários temas recorrentes na filmografia do diretor – a amizade e solidariedade femininas, encarnadas no trio principal, a sexualidade à flor da pele, as confusões amorosas, o deboche às convenções sociais – o filme mostra a força da personalidade de Almodóvar, mesmo nesse estágio embrionário da sua obra.

Não há, propriamente, uma trama. “Pepi” é uma coleção de episódios soltos envolvendo o trio principal – a independente e criativa Pepi (Carmen Maura), que busca vingar-se do abuso cometido por um policial, a masoquista Luci (Eva Siva), que abandona o marido porque este não a castigava o suficiente, e a rebelde Bom (Olvido Gara), cantora punk lésbica, franca e desabusada. Como todo filme nessa linha, a obra é irregular, com momentos forçados e situações artificiais, problemas que a inexperiência do diretor não ajudam a atenuar. Mas isso pouco importa: temos um flash único de um momento igualmente singular na vida espanhola, registrado com sensibilidade e inteligência por seu membro mais notável. É fascinante mergulhar nesse mundo colorido, extravagante e desvairado, de sexualidade arrebatada, movido a cocaína, punk rock e experimentação, antes que a Aids e a recessão econômica esmagassem aquele estilo de vida.

O filme foi bastante malhado pela crítica espanhola, mas o estrago estava feito: enquanto jornais e revistas tradicionais só enxergavam uma provocação estridente, críticos jovens, escrevendo para fanzines, aplaudiram a força dos personagens, a substância humana do roteiro, mesmo com a pobreza técnica e os momentos gratuitos, até vulgares, da trama. O filme se tornou um cult, chegando a ficar quatro anos em cartaz no famoso teatro Alphaville, de Madri, dedicado ao cinema alternativo. Almodóvar logo se converteu em enfant terrible do cinema espanhol, enquanto a estrela de “Pepi”, Carmen Maura, despontou para uma das carreiras mais importantes da filmografia europeia.

Com a renda de “Pepi, Luci, Bom”, o diretor também se profissionalizou. Seus filmes seguintes, “Labirinto de Paixões” (1982) e “Maus Hábitos” (1983) são novas investidas contra a cultura patriarcal, repressiva, da Espanha conservadora. Acrescentando novos nomes ao panteão das atrizes almodovarianas – Cecilia Roth, Marisa Paredes, Julieta Serrano e Chus Lampreave entram em cena – e satirizando a tudo e a todos, o diretor produz uma trilogia informal sobre os emblemas da Movida. Apesar da produção bem mais sofisticada – agora há atores experientes, equipamento de qualidade e orçamentos mais folgados (pero no mucho) – os filmes sofrem com a mesma estrutura episódica, irregular, de “Pepi”, embora sem o mesmo frescor. Podemos dizer que são ensaios para o artista que estaria por vir.

Sob o signo do desejo (1984-1988)

O Que Eu Fiz Para Merecer Isto? Pedro AlmodóvarCom “O Que Eu Fiz Para Merecer Isto?” (1984), Almodóvar se confirma como uma voz original e importante do cinema espanhol, além de um sensível cronista da alma feminina. Centrada nas agruras de Gloria (Carmen Maura), uma dona de casa que luta para conservar a família unidade diante da miséria e da desagregação, a trama intercala, de forma virtuosística, personagens e histórias paralelas, misturando desejo, política, feridas individuais e coletivas, humor ferino e até fenômenos paranormais, num painel denso e provocativo.

Com um conjunto mais homogêneo e um estilo mais contido, o filme foi um grande sucesso na Espanha, além de atrair, pela primeira vez, o interesse das plateias internacionais pelo diretor. Além do grande trabalho de Carmen, o filme acrescenta mais um nome célebre às suas hostes: Verónica Forqué, cujo papel aqui seria aproveitado quase na íntegra no controverso “Kika” (1993). O filme, porém, ainda sofre com a confusão entre registros, e seu excesso de personagens e tramas é cansativo. Seria, porém, o ensaio definitivo para o primeiro grande filme de Almodóvar.

“Matador” (1986) fez de Pedro Almodóvar um nome célebre. A trama inovadora e controversa, que relaciona desejo e morte, causou polêmica na Espanha e em todos os lugares por onde o filme circulou. Um toureiro (Nacho Martínez) e uma advogada (Assumpta Serna), ambos assassinos em segredo, se reencontram em circunstâncias que sugerem um destino incontornável. Ambos só sentem prazer sexual quando matam seus parceiros. Más: ambos estão perdidamente apaixonados um pelo outro, e precisam consumar essa paixão. O destino trágico dos personagens é sublinhado pela confusão de Ángel (um imberbe Antonio Banderas), que forma com os personagens de Carmen Maura e Eusebio Poncela uma espécie de coro grego para as ações do casal. Maduro, sofisticado, e mais afiado do que nunca, Almodóvar se impõe aqui como um autor europeu, na linha de nomes como Bergman e Fassbinder.

A Lei do Desejo Pedro AlmodóvarEssa percepção ganha força com “A Lei do Desejo” (1987), um divisor de águas na carreira de Almodóvar, e o filme que o próprio diretor considera o seu mais importante. Na trama, o escritor Pablo Quintero (Eusebio Poncela) vive um trágico triângulo amoroso com Juan (Miguel Molina) e Antonio (Antonio Banderas), acompanhado de perto por Tina (Carmen Maura, brilhante), sua irmã, que nasceu homem. A obra marca a primeira incursão de Almodóvar pelo universo masculino – ainda que gay –, o qual é tratado de forma marcadamente mais sombria e melancólica que o feminino. Mais rigoroso e sutil na forma, e igualmente ousado no conteúdo – há cenas de nu frontal masculino a granel – “A Lei do Desejo” é o amadurecimento do prodígio da Movida, cujo cinema se tornou mais refinado e complexo na mesma medida em que seus temas se tornaram mais amplos e contundentes. O filme marca, ainda, o momento em que Almodóvar também se torna produtor de seus filmes, fundando, ao lado do irmão Agustín, uma companhia independente – intitulada, não por acaso, El Deseo (o desejo, em espanhol).

Como a provar que já passava da hora de reconhecer o talento do cineasta, seu filme seguinte, a comédia “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988) – bem mais brando no tema, mas não menos sofisticado e inteligente – foi uma verdadeira explosão. Grande sucesso de bilheteria na Espanha e em cinemas de arte ao redor do mundo, a produção foi a primeira do diretor a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, além de tornar seu nome conhecido até entre os que normalmente sentem urticárias diante da expressão filme de arte. Para Pedro, foi a fase das aparições flamejantes em premiações televisivas e desfiles de moda, e do surgimento da expressão almodovariano para definir todo um universo de cores, situações e personagens, como, até bem pouco tempo (estamos em 1988), falava-se em filmes fellinianos ou bergmanianos. Sobre o que é? Trata-se de uma comédia adulta, urbana e cosmopolita, centrada no relacionamento entre Pepa (Carmen Maura) e Ivan (Fernando Guillén), com toda uma rica flora de mulheres fortes, decididas – e um pouco neuróticas – que os cercam. Mordaz, sutil e cheio de diálogos maravilhosos, o filme até hoje é considerado um dos melhores de Almodóvar. Pena, porém, que ele também tenha marcado a ruptura entre Pedro e a atriz que, até então, era a sua alma-gêmea nos filmes: Carmen Maura.

Não se conhecem, até hoje, as razões exatas da briga entre o diretor e a atriz. O burburinho, porém, começou no Oscar de 1988, e ganhou contornos dramáticos dois anos depois, quando, durante uma homenagem a Maura pelo Prêmio Goya, Almodóvar lhe “presenteou” com um pedaço do Muro de Berlim, recém-derrubado – símbolo mais do que óbvio, escandaloso até, do desejo de separação nutrido pelo amargo ex-amigo.

“Almodovariano”, ou “de Pedro Almodóvar”? (1990-1993)

Ata-me! Pedro AlmodóvarA princípio, a briga e as pressões da celebridade não parecem ter afetado o cinema do diretor. Pelo contrário: “Ata-me!” (1990) é mais um ponto alto na carreira do cineasta, e um favorito deste que vos fala. Na trama, a primeira explicitamente romântica do diretor, o jovem Ricky (Antonio Banderas, na última parceria com Almodóvar pelas próximas duas décadas) tem um plano inusitado para conquistar a atriz pornô Marina (a fabulosa Victoria Abril): ele pretende sequestrá-la, a fim de que ela possa “conhecê-lo melhor”.

Uma comédia ousada, despudorada e – coisa raríssima para o gênero nas últimas décadas – comovente, “Ata-me!” é o olhar terno de Almodóvar para os maltratados pela vida, os humilhados e ofendidos, aqueles que, apesar de todos os pesares, insistem em seguir vivendo – tema resumido na belíssima cena final, ao som da canção “Resistiré”, do Duo Dinámico. Uma pena que essa obra-prima tenha vindo num momento ruim para ousadias – a virada dos anos 80 para 90, quando o politicamente correto lançou sua sombra dogmática sobre a cultura e as artes. Uma cena central do filme, quando Marina, finalmente apaixonada por Ricky, pede para ser amarrada por seu captor – ela teme querer fugir, caso tenha condições de fazê-lo – foi motivo de uma campanha difamatória contra Almodóvar por organizações feministas. A intriga, mais o despudor da obra em retratar o sexo – noutra cena antológica, vemos Marina se “aliviar” usando um brinquedinho aquático – levaram “Ata-me!” a receber a temida classificação “X” nos Estados Unidos, reservada a filmes pornográficos. O caso gerou ondas de protesto por parte do público e distribuidoras, obrigando a MPAA, o órgão americano encarregado, a rever sua tabela de ratings. Pena que, até isso acontecer, o filme já tivesse morrido no circuito comercial, restando a “Ata-me!” a sina de ser um dos filmes menos conhecidos de Almodóvar. Não cometa essa injustiça.

A parceria com Victoria continuaria no clássico seguinte, “De Salto Alto” (1991). Aqui, Almodóvar parece querer abraçar de vez o “almodovarianismo” (prometo pegar leve com a expressão daqui pra frente). Tudo é estilizado, das relações que se estabelecem entre os personagens, até os cenários e a música, carregada nos boleros. Felizmente, essa mão pesada não conseguiu sufocar o brilhantismo da trama: a crônica amarga do relacionamento entre a cantora Becky del Páramo (Marisa Paredes, voltando em grande estilo) e sua filha Rebeca (Abril), que a admira na mesma medida em que a despreza. Avançado por caminhos sempre inesperados, sedimentando camadas cada vez mais densas, as idas e vindas da trama seguram a atenção do espectador até o desfecho. O filme foi bem junto ao público, mas a crítica, que já não tinha gostado de “Ata-me!”, caiu em cima, apressando-se em apontar o desgaste e a falta de inspiração do diretor de “A Lei do Desejo”.

Quem temia a decadência de Almodóvar sentiu calafrios ao ver “Kika” (1993). Uma trama esquisitíssima, misturando comédia pastelão (as desventuras da personagem-título, vivida por Verónica Forqué), drama criminal (o enredo envolvendo o filho e o padrasto) e uma crítica estridente ao sensacionalismo da mídia (a personagem de Victoria Abril), a produção foi atacada por todos os flancos, e com razão. Forçado, exagerado, pretensioso, vulgar, afetado, vazio, “Kika” é o ponto baixo da carreira de Almodóvar, e o único momento em sua longa carreira onde o diretor parece realmente ter perdido o prumo. Quem sabe influenciado pela maré negativa, Pedro recolheu-se, rompendo a colaboração promissora com Victoria e voltando com um filme que seria o exato oposto de sua aventura “coral”.

Flores em vida: a consagração (1995 em diante)

Tudo Sobre Minha Mãe Pedro AlmodóvarLançado sem estardalhaço em 1995, “A Flor do Meu Segredo” marca a reviravolta definitiva de Almodóvar na direção da maturidade. Um roteiro simples, mas repleto de ressonâncias e significados, “Flor” analisa o fracasso do casamento de Leo Macias (Marisa Paredes, encantadora). Separada à força do marido, que se alistou numa missão de paz na Bósnia, ela sente a vida e a força criadora lhe escaparem, enquanto remói os escombros de uma relação já condenada – postura à qual os outros personagens tentarão lhe arrancar, para viver. Filmado de forma intimista, lírica, e trazendo grandes performances do elenco (além de Marisa, Chus Lampreave e Rossy de Palma, outra habitué do diretor), o filme é de uma humildade refrescante, com uma delicadeza e seriedade até então só sugeridas por seus outros trabalhos.

Com “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), Almodóvar não é mais um autor: trata-se de uma instituição do cinema europeu, um artista que já não acusa influências, só influenciados. Tratando, na mesma chave intimista de “A Flor do Meu Segredo”, de temas ao mesmo tempo mais amargos e mais leves – amor maternal, devoção à arte, travestismo, perda, amadurecimento, recomeço – “Mãe” é um reencontro, em vários sentidos, para o diretor. Voltam as parceiras de longa data Cecilia Roth e Marisa Paredes, volta a abordagem a um só tempo franca e lírica da homossexualidade, voltam as referências ao teatro. Voltam, sobretudo, as antigas fixações de Almodóvar: cinema, família, amizade feminina, esperança em meio à desolação. As homenagens à mãe do diretor e às suas atrizes favoritas evidenciam que este é um trabalho de paixão revigorada, uma nova afirmação de resistência e obstinação do artista, espelhadas na trajetória de Manuela (Roth), uma enfermeira que perde o filho e decide realizar seu último desejo: encontrar o pai (Eloy Azorin) que ele nunca conheceu. O filme foi o maior sucesso de Almodóvar desde “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, além de trazer-lhe, enfim o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tão adiado.

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Quer ver a segunda parte do especial Pedro Almodóvar? Confira aqui.

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