O longa-metragem da brasileira Caroline Leone trabalha sem romantismos ou exageros a posição de uma mulher na terceira idade, confrontada por um acontecimento capaz de mudar tudo aquilo que ela conhecia como certo, mas acaba como uma oportunidade de ampliar sua visão, fazê-la ver além do mundo que ela enxergou como único durante anos. A obra revela o recomeço de uma personagem nos detalhes, sem dramatizações, mas com impacto.

Dirigido, roteirizado e montado pela veterana Caroline Leone, “Pela Janela” é a estreia da cineasta no cinema frente a direção, mesmo com mais de dez anos de ofício. Grande parceira do diretor Esmir Filho, Caroline fez sua carreira na montagem, é montadora, como prefere ser chamada. A coprodução entre Brasil e Argentina era um projeto nutrido por Leone há mais de seis anos, e somente após muita insistência conseguiu ser finalizado. Nascido das experiências da montadora durante um mochilão pela Argentina, o longa-metragem foi o único trabalho brasileiro selecionado a ser premiado no Festival de Rotterdam.

Fruto de um argumento simples, o filme conta a história de Rosália (Magali Biff), uma mulher de 65 anos, operária em uma fábrica de reatores na periferia de São Paulo. Depois de uma fusão de empresas e de dedicar três décadas da sua vida àquele trabalho, é demitida e substituída por alguém mais jovem e qualificado. Inconsolável sem saber o que fazer, é levada pelo irmão José (Cacá Amaral), com quem divide o lar, para uma viagem de carro à trabalho de São Paulo até Buenos Aires. Durante o trajeto pelas estradas que ligam os dois países, ela começa a desvendar o mundo antes distante da sua rotina comum, é o começo da transformação de uma mulher.

É a partir dessa ideia simples que a cineasta desenvolve uma narrativa rica, pautada nos sentidos. A construção do longa deixa pouco espaço para diálogos: a intenção de Leone é transmitir pelas imagens, a percepção do filme pela audiência deve acontecer visualmente, sem conversas expositivas ou obviedades.

No primeiro momento da narrativa, Rosália está imersa na rotina diária, aparentemente satisfeita com aquilo que lhe é imposto. Acordar cedo, trabalhar, lavar, cozinhar, algum momento para costura antes de dormir, tudo o que é comum a ela e sem surpresas, é tomado pelo inesperado. O choque da demissão coloca a personagem em um limbo, completamente perdida após a rotina quebrada.

Os questionamentos não ditos da sua nova realidade aparecem, a sensação de subitamente se sentir inútil e dispensável para a sociedade que tanto serviu. Leone captura isso com habilidade, em uma das cenas, o dia seguinte à dispensa, Rosália volta ao local de trabalho, que não é mais seu, para oferecer ajuda e dar coordenadas do serviço. O desconforto do chefe com a sua presença marca bem a falta de humanidade do setor, é nesse e outros momentos onde o longa se mostra político e importante, sem discursos apaixonados.

A viagem não programada com o irmão, coloca a vida de Rosália regida pelo imprevisível. Ela não tem mais controle sobre as horas do dia, tudo depende do que o caminho desconhecido vai trazer. Seja uma sinfonia de panelas ou as Cataratas do Iguaçu, tudo tem significado na beleza do acaso. Por meio da personagem a audiência entende como estamos propensas as surpresas da vida, mesmo quando presos ao cotidiano de quem vive para sobreviver.

O longa aborda o início da transformação na vida de uma mulher madura, e mais que isso, a possibilidade dessa mudança acontecer em alguém marcado pela longa caminhada, alguém que muito viu nessa vida, mas que de certa forma pouco se permitiu ver além. Caroline mostra o processo de mudança sem pressa. Tudo acontece no tempo de Rosa, como carinhosamente é chamada pelo irmão, é ela quem define seu passo, a narrativa respeita quem ela é, o que viveu. Contudo, é a possibilidade de mudança o mais marcante no trabalho, para quem está preso ao cotidiano, a idade, ao tempo. Rosália está acostumada a vida de operária, sem surpresas.

Aliás, a interpretação de Magali Biff é perfeitamente bem executada. Atriz de teatro e televisão, a produção é também a estreia da veterana no cinema. Aos 62 anos, a atriz interpretou seu primeiro papel nas telonas, mesmo com a longa experiência atuando, a dinâmica foi outra. Acostumada com a expressividade do palco, no filme isso foi colocado de lado para dar espaço as sutilezas, ao mínimo, para mostrar um personagem o mais próximo possível de quem assiste. Rosa é facilmente vista como uma de nós, alguém do nosso convívio, talvez uma tia, vizinha, ou até a auto-identificação. As poucas falas de Magali, suas escolhas de expressões, a postura, fisionomia, tudo isso harmoniza e humaniza a personagem.

A direção da brasileira queria exatamente isso: um cinema próximo e real para o espectador, sem auto-explicação desnecessária, mas intuitivo nos cortes e imagens. A cena final é uma redenção para quem assiste, simbólica e significativa. A reflexão de Rosa sobre sua condição, as possibilidades da vida, que ela aprendeu ser incalculável, diante do envelhecimento, transborda reconhecimento e empatia. Caroline Leone é um nome a dar atenção.

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