Hoje em dia o conceito do mash-up está disseminado na cultura popular. O termo em inglês designa aquela obra que é criada ao se combinar elementos de outras obras, e foi consagrado pela música, quando músicos ou DJs começaram a juntar partes de duas canções diferentes. Depois vieram os mash-ups literários, e logo começaram a aparecer histórias misturando personagens e enredos de Jane Austen com zumbis, por exemplo. Na literatura, porém, o conceito não é tão novo. Já nos anos 1990, o escritor de quadrinhos Alan Moore publicava sua “Liga Extraordinária”, combinando os personagens literários Allan Quatermain, Capitão Nemo, Homem Invisível, o Dr. Jekyll de “O Médico e o Monstro” e Mina Harker de “Drácula”, entre outros.

Há um sabor de Liga Extraordinária no seriado “Penny Dreadful”, produção do Showtime criada pelo roteirista John Logan. Afinal, o seriado também foi criado pela junção de vários elementos literários já existentes e que foram popularizados pelo cinema ao longo das décadas. O próprio título da série remete aos penny dreadfuls, pequenos livros que circulavam pela Inglaterra do século XIX com histórias assustadoras. Num dos episódios até vemos um verdadeiro exemplar do gênero, deixando a referencia mais clara. Eram os ancestrais das pulp fictions americanas, e eram chamadas assim por serem baratas (só custavam um penny) e por serem “horríveis” (a tradução de dreadful). Embora, no caso, o preconceito contra tais publicações se devesse mais ao pânico moral e à possibilidade de que elas pudessem influenciar os leitores, do que às qualidades artísticas das obras. Essas publicações traziam contos de suspense e terror com assassinos, criminosos e de vez em quando até vampiros, e alguns eram serializados, contando suas histórias em capítulos.

Ou seja, eram basicamente a versão literária de um seriado, como muitos dos que temos hoje. Buscando inspiração nessa fonte, John Logan cria uma série que é provavelmente o maior dos mash-ups atuais, um verdadeiro “monstro de Frankenstein” costurado com pedaços de outras obras e combinando várias mitologias, com um ou outro elemento novo inserido dentro da mistura.

E é apropriado citar o monstro de Frankenstein criado por Mary Shelley porque ele é um dos personagens da série. A criatura, caracterizada como eloquente e sensível e interpretada por Rory Kinnear, é concebida pelas experiências do jovem Victor Frankenstein (Harry Treadway). Victor, por sua vez, é chamado a colaborar nas investigações de Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton), quando este e seus aliados se deparam com uma infestação de vampiros em Londres. Sir Malcolm procura pela sua filha, Mina (ecos de Bram Stoker e seu “Drácula”), desparecida e supostamente sob a influência vampiresca. A maior aliada dele é Vanessa Ives (Eva Green), uma estranha e atormentada mulher que combate os demônios dentro de sua própria alma. É Vanessa quem recruta o artista de circo e pistoleiro americano Ethan Chandler (Josh Hartnett) para ajudar na busca.

É pelos olhos de Chandler que adentramos este “submundo” no primeiro episódio, que é trazido à vida graças à fotografia sombria e à reconstituição de época – as locações e os cenários na Irlanda e na Inglaterra trazem de volta a época descrita pelos livros e pelos filmes de cinema. Um lugar onde podemos acreditar que figuras como Jack, o Estripador, vampiros e lobisomens podem coexistir. Um ambiente também de degradação moral, tanto entre as classes baixas quanto entre os mais abastados, e dentre estes últimos ninguém representa melhor tal degradação que o sedutor Dorian Gray (Reeve Carney), outro personagem pego emprestado da literatura para povoar o universo da série.

O tom da temporada é ditado pelo episódio-piloto, dirigido por J. A. Bayona, de “O Orfanato” (El Orfanato, 2007). Assim, logo de cara vemos coisas estranhas – a primeira aparição de Vanessa, vista de costas e rezando, dá a impressão de que ela está sem cabeça por alguns segundos – aliadas a uma trama contada sem pressa, mas que também nunca fica realmente muito clara para o espectador. Por exemplo, o que é aquela história dos vestígios egípcios encontrados por Frankenstein no cadáver? Trata-se de um “vampiro-múmia”? Há um vazio nos procedimentos, e sempre que “Penny Dreadful” tenta se concentrar nos seus elementos de trama, a série perde um pouco da sua força. Logo as coisas passam a se resumir a invadir um local escuro e matar um monte de vampiros.

Como resultado, o espectador aos poucos se desliga da busca pela filha de Sir Malcolm. Mas quanto aos personagens e à forma como eles foram estabelecidos, não há do que reclamar: Logan e seus roteiristas conseguem criar figuras interessantes, ou usar bem aquelas já existentes. Assim, temos a seriedade de Sir Malcolm (vivido com rigidez por Dalton) e o interessante dilema de Victor Frankenstein (o ótimo Treadway) com relação à sua criatura. Victor, por sua vez, encontra um mentor, curiosamente, na figura do dr. Van Helsing (vivido por ninguém menos que David Warner).

Já quanto à Criatura, o retrato sensível criado por Kinnear é ainda melhor aproveitado quando seu personagem passa a trabalhar no Grand Guignol, o teatro real que apresentava peças sangrentas e fazia muito sucesso na época – o ancestral dos filmes sanguinolentos de hoje. Até Hartnett, um ator que parecia destinado ao esquecimento, se mostra carismático como Chandler. Uma das maiores qualidades da temporada foi ver esse grupo de personagens tão diferentes se tornarem uma espécie de “família”. Apenas o Dorian Gray ainda não disse a que veio: apesar da atuação adequada de Carvey, a função dele na temporada parece ter sido apenas a de fazer sexo com os outros personagens e, claro, a aparência de cantor de banda indie não ajudou muito.

Porém, dentre o elenco da série Eva Green paira acima de todos. Vanessa chega a transcender o conceito do seriado, e os melhores momentos da temporada acontecem quando ela se torna o foco, como no quinto episódio, “Close Like Sisters”, um longo flashback que ajuda a explicar o passado da atormentada personagem e sua ligação com Malcolm; ou o sétimo, “Possession”, no qual Eva Green realmente parece estar dominada por alguma força, usando seu corpo, sua voz e seu rosto de formas impressionantes para retratar o sofrimento de Vanessa. A atuação dela é intensa e poderosa, quase chegando à caricatura, mas de algum modo a atriz nunca dá esse último passo e sempre parece assustadoramente real, encarnando a personagem em todas as suas vertentes: reprimida, possuída, louca.

Eva Green e Vanessa são, claramente, as maiores forças da série, um programa que nesta primeira temporada ainda não chega a decolar completamente, mas se mostra interessante o suficiente para ser acompanhado. Não deixa de ser curioso o fato de que, dentre todos os personagens vindos de outras fontes, é o elemento original, a personagem Vanessa, que incendeia o seriado. Afinal, mesmo numa história composta de peças avulsas, é necessário um “coração” pulsante. Senão o mash-up se torna apenas uma criação acéfala e sem alma, coisas que nem o Monstro de Frankenstein nem “Penny Dreadful” são.

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