Se você jogar no Google a palavra “Parintins”, a maior parte dos resultados irá direcioná-lo ao festival que ocorre anualmente na cidade. Mas nem só de Boi-Bumbá vive a cultura parintinense. Embora não exista um diálogo plenamente estabelecido, de acordo com o jornalista e pesquisador Helder Mourão, pelo menos, há 80 anos existe uma insistência para que a cultura cinematográfica ocupe um lugar de destaque na arquibancada cultural de Parintins.

“Em cada momento, há uma forma do cinema buscar inserção na cidade. Mas essa é uma relação de tensão, de insistência e estranhamento”, afirma o pesquisador que situa o atual momento cinematográfico da cidade em duas vertentes diferentes e complementares.

A primeira é o sentimento nostálgico “uma saudade da época em que existia exibição na cidade”, conta. Durante a produção de sua dissertação de Mestrado intitulada “Parintins: História e Cultura Cinematográfica”, Mourão identificou a existência de casas de exibição de filmes desde a década de 1940, entretanto, o rastreamento vai até 1998, época em que o Cine Oriental, último cinema registrado na cidade, suspendeu suas atividades. Para ele, “em uma cidade interiorana, com pouquíssimas diversões, o cinema faz uma falta enorme”, disse.

Outro ponto levantado por Mourão é o acesso técnico e tecnológico. Para o pesquisador, a dificuldade de acesso a essas ferramentas somada à relação entre público e imagem contribui para que “haja pouco aproveitamento profissional ou de forma mais séria do cinema, e mesmo do audiovisual pela parte do público”, afirmou. Ao mesmo tempo em que este fator pode ser visto por uma única perspectiva, a da produção, não é possível desassociá-lo da ausência de lugares de exibição, que, de certa forma, contribuem para a formação cinéfila do público e desse diálogo entre ele e a imagem projetada em tela.


Os produtores parintinenses

Ao observar a produção cinematográfica da cidade, o jornalista e pesquisador a divide em três grupos majoritários, que tem sido responsáveis por manter vivo o cinema parintinense:.

O grupo dos caçadores de imagens refere-se aos produtores que “vem de fora do município, profissionais com estruturas, portanto, tem saída de exibição”, disse. Esses, em sua maioria, estão associados à produção do material audiovisual dos bois Garantido e Caprichoso, “que tem seus DVDs feitos por empresas de fora da cidade”, contou. Segundo o pesquisador, apenas nos últimos dois anos, essa realidade foi mudada pelo Caprichoso que usou uma produtora local para a gravação do seu disco. “Mesmo assim, uma produtora bem distante da realidade de produção cinematográfica do que vinha sido construída na história do município”, afirma Mourão.

Quanto aos membros da Apincine, Mourão destaca aqueles que conseguem exibir em festivais, especialmente por sua inserção social e reconhecimento. “Do ponto de vista social, este é o grupo mais genuinamente local, já que são os mais espontâneos, também.”, revelou.

Os membros da associação uniram-se com o propósito de produzir filmes, independente do grau de profissionalismo no setor que seus realizadores possuíam. Assim, “quando alguém escrevia um roteiro, normalmente essa mesma pessoa dirigia o vídeo. O colega era ator, o outro continuísta e por aí vai”, conta Mourão. Devido à baixa quantidade de membros, ao final da produção, “todos participam de alguma ocupação, revezando-se entre elas”, afirma o pesquisador. Neste processo entre os associados, 53 filmes foram produzidos, “nenhum com a temática voltada ao boi bumbá, nem mesmo de forma indireta”, revela.

Para o pesquisador, uma das maiores realizações da associação foi a produção do I Parintins Fest Cine no ano de 2011. O evento contou a participação de 12 filmes, incluindo, “Alegoria da Preguiça”. A produção foi o primeiro curta do interior do Estado a ganhar um prêmio no extinto Amazonas Film Festival. O fim do evento, aliás, é considerado por Mourão como um obstáculo para os realizadores locais. “Essa extinção quebrou um pouco a vontade de produzir, que, por si só, já trazia consigo muitas dificuldades. Já é difícil produzir, imagine com menos oportunidades de exibir. Não há ânimo em fazer e guardar”, relatou.

Já as obras dos alunos da Universidade Federal do Amazonas se afastam um pouco da cinematografia dos dois últimos grupos citados. “O grupo da Ufam por produzir aliado a questões cientificas, têm melhor qualidade técnica e experimentalismo”, afirma Mourão. Com 23 obras registradas até o fim da pesquisa, os estudantes utilizam os equipamentos da Ufam, filmadoras próprias ou até profissionais em seus projetos.

Fora desse nicho, há produções mais isoladas, “que acabam por fugir da fronteira do cinema, porque não se preocupam com a exibição”, disse. Dentre esses produtores está Felipe Brunner. “Ele é muito criterioso e isso o leva a demorar muito a finalizar seus projetos. Ele é muito bom do ponto de vista técnico, conhece bem a linguagem e é ótimo em edição”, comentou Mourão. As produções de Brunner estão ligadas à publicidade para a igreja que participa.


As Barreiras na Produção

Para Mourão, o maior desafio enfrentado por quem quer fazer cinema em Parintins é a total falta de apoio. “Quando a Apincine foi fundada, seu primeiro presidente era subsecretário do município e isso gerou algum apoio da prefeitura. Porém, a mudança de gestão dificultou ainda mais”, revelou. Esta falta de apoio se revela na estrutura e equipamentos para a produção que, segundo Mourão, não existem na cidade e precisam vir de fora. Isto tudo alcança uma dimensão maior por conta de “nenhum dos produtores serem profissionais ou dedicar-se a viver disso, ou seja, o tempo para pesquisar, ir atrás do equipamento ou mesmo para produzir os filmes, é um tempo de lazer, de férias, de folga”, comentou.

Uma questão que salienta essa barreira na produção é a ausência de lugares de exibição. O pesquisador acredita que quando se há arte envolvida, exige-se a presença de referenciais. “Eu sou daqueles que afirma que as referências artísticas e estéticas dão o diferencial”, declara. Dessa forma, a escassez de casas de exibição cinematográfica na cidade “traz limitações aos produtores locais que tem dificuldade em acompanhar a atualidade”, afirma o pesquisador diante do desconhecimento dos produtores parintinenses das temáticas que pautam os circuitos de festivais no Brasil a fora.


Produção atual

Mesmo assim, a produção em Parintins continua em andamento. Mourão afirma que nos últimos anos a produção reduziu bastante, especialmente com a desativação da Apincine. “Apenas alguns produtores se mantiveram, entre eles Kelly Sobral e Ray Santos, que tem trabalhado juntos em um projeto sobre a lenda das Icamiabas”, disse ao Cine SET.

Sobral foi uma das primeiras associadas da Apincine e Santos é o responsável pelo primeiro curta de Parintins. O projeto em conjunto deles possui cenas em Alter do Chão e trilha sonora inédita, conforme revelou o pesquisador.

Assim, apesar de sua hegemonia, nem só de Boi Bumbá se manifesta a cultura em Parintins. A cidade, entretanto, sofre pela ausência de um lugar para exibição de filmes e, assim, criar e alimentar um público cinéfilo, que possa encontrar na sétima arte referencial, refúgio, identificação e história.

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