Dirigido por César Nogueira e Selma Bustamante, “Purãga Pesika” retrata bem o panorama dos filmes exibidos ao longo da III Mostra do Cinema Amazonense. Exceto por “Maria”, “Personas” e “Oscarino e Peteleco”, a maior parte dos curtas locais não conseguia aproveitar as boas ideias apresentadas e transformá-las em produções com resultados satisfatórios mesmo com todo o capricho técnico. Desastres absolutos, é verdade, foram raros, pois, sempre era possível extrair uma coisa ou outra positiva, mas, a sensação de incompletude era frequente.

O documentário sobre a oficina teatral ministrada pela ícone do teatro amazonense, Selma Bustamante, para comunidades indígenas do Alto Rio Negro no interior do Amazonas cumpre o que promete: “Purãga Pesika” apresenta um registro das atividades desenvolvidas pela artista capturando as reações dos nativos. No meio disso, há também um cuidado de César em capturar detalhes da vida daquelas pessoas mostrando desde como elementos do homem branco chegaram àquela região (o celular usado para filmar por uma garota até o cabelo tingido de vermelho de um rapaz), os hábitos alimentares, a mistura da língua dos índios com o português, as longas distâncias e as dificuldades de acesso entre as regiões, a forma de convocar reuniões, entre outros aspectos.

Sem dúvida, são registros etnográficos preciosos de uma população esquecida e desprezada pelo povo do próprio Estado. Isso ganha uma beleza ainda maior por momentos poéticos como as borboletas que rodopiam na chegada da voadeira à margem do rio como se estivessem dando boas-vindas (‘purãga-pesika’ em nheengatu) e as imagens belíssimas da palhaça Kandura, personagem mais célebre de Selma, em uma praia. Os dois tons – o registro e o poético – não chegam a ser satisfatoriamente coesos dentro da narrativa, mas, possuem força suficiente para não destoarem pelo rico conteúdo.

O curta, entretanto, parece encantado demais com este universo a ponto de não refletir sobre o mesmo. “Purãga Pesika” não consegue, por exemplo, exprimir o impacto lúdico da oficina sobre os indígenas, resumindo a experiência de toda uma comunidade a uma fala trivial sobre a importância do evento a um entrevistado. Tal aspecto acaba por gerar um certo distanciamento do público com os nativos, pois, somente os hábitos não nos fazem entender como pensam e quem são de fato tais pessoas. O melhor filme amazonense dos anos 2000, “Parente”, de Aldemar Matias, nos faz recordar como dá sim para trabalhar os personagens e a complexidade de suas vidas mantendo o respeito por elas e, consequentemente, à cultura daquele povo.

A simplificação também atrapalha o documentário. Se reafirmar o significado de ‘purãga pesika’ ao término do filme após a elegante colocação de uma placa com o termo na parte inicial soa apenas desnecessário, Selma falar sobre o objetivo da viagem e como foi o impacto da visita em uma rádio local fica como se o documentário não confiasse totalmente naquilo que fora mostrado até então. Um quase crime de lesa-pátria ao próprio curta.

De maneira isolada, estes problemas de “Purãga Pesika”, claro, podem ser colocados na conta de ser o primeiro filme dirigido por César e Selma, ao fato de terem viajado sem um roteiro delimitado ou pelas dificuldades naturais do processo na região. Quando inserido dentro do cenário de curtas apresentados na Mostra e da produção cinematográfica amazonense como um todo, porém, a produção torna-se um retrato fiel do nosso cinema ao mostrar dois aspectos claros:

1) a consolidação dos conceitos técnicos relativos ao som e à imagem fruto da acessibilidade a equipamentos modernos acrescido da realização do curso técnico em audiovisual da UEA (em processo de desconstrução) e;

2) a necessidade de uma reflexão maior relativa à construção da narrativa, montagem, roteiro e direção, pontos ainda carentes de especialização no Estado.

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