Encher linguiça é um ditado que é a cara de Hollywood, ainda mais quando o assunto é cinema de terror. Se faltam ideias originais no segmento, os estúdios vêm apostando nos remakes de seus próprios filmes ou então nas refilmagens de obras de outros países. A busca por argumentos que assustem a grande massa já chegou inclusive ao Youtube. Em 2013, o diretor australiano David F. Sandberg disponibilizou o seu curta-metragem Lights Outs na referida plataforma. Nele, uma mulher pronta para dormir é aterrorizada por um vulto grotesco que teme aparecer nos espaços escuros do seu apartamento quando desliga as luzes. Uma ideia simples e eficiente que acertava na atmosfera criada, apoiando-se também no medo universal do ser humano do escuro, temor que persegue a humanidade desde os primórdios da sua existência. Tudo isso em uma história de duração de aproximadamente 3 minutos.

O curta virou um fenômeno viral na internet, faturando prêmios em festivais ao redor do mundo. Assim como ocorreu com Mama (2013) – outro curta que ganhou sua própria adaptação cinematográfica – produzido por Guillermo Del Toro, Lights Out teve a produção bancada pelo atual guru do cinema de terror, James Wan e virou um longa-metragem de aproximadamente 90 minutos com o título nacional Quando as Luzes Apagam.  É a nova aposta da Warner no segmento como sucessor do recente Invocação do Mal 2.

Troca-se a mulher do curta, para uma típica família americana desestruturada emocionalmente liderada por Sophie (Maria Bello, uma boa atriz mas perdida na maluca estereotipada geralmente vista neste tipo de filme) que devido a problemas psiquiátricos gerados por uma depressão ainda na infância, apresenta dificuldades em relacionar-se com os filhos, o caçula Martin (Gabriel Bateman, boa revelação) e Rebecca (Teresa Palmer que lembra muito a Rachel de Naomi Watts de O Chamado). Após a perda do marido (Billy Burke) na sequência inicial do filme, Sophie vai ter que lidar com uma entidade misteriosa que atende pelo nome de Diana e que se manifesta no escuro, além de exercer uma grande influência sobre ela, levando os dois filhos a iniciarem uma investigação familiar para descobrir a origem desta ligação.

Infelizmente, a transição da realidade de curta para longa-metragem transformou o resultado final em algo que exagera nos clichês – e temos aqui uma contagem excessiva deles – e uma história bem genérica que apesar de proporcionar sustos eficientes (ainda que questionáveis), denota a falta de originalidade do material. O fato do próprio Sandberg, responsável pelo conceito original do curta, ter preferido ficar apenas na direção, deixando o roteiro do filme nas mãos de um desconhecido, já era um indicativo que ele próprio não botava fé ou pelo menos sentia-se capaz de transformar uma ideia de aproximadamente 3 minutos em algo minimamente interessante de 90 minutos.

Com isso, o roteiro veio parar nas mãos de Eric Hesserer que tinha como créditos anteriores Premonição 5 (2011) – que particularmente acho divertido dentro da franquia, mas descartável no contexto geral –  e o péssimo remake da Hora do Pesadelo (2010). Ele tinha uma ótima oportunidade de dar um boom na sua carreira de roteirista já que sairia das continuações e refilmagens para criar uma franquia de mitologia própria e inédita. Pena que suas escolhas são todas construídas em sustos previsíveis, repletos de jumpscares. Neste aspecto, não tem como negar que Quando As Luzes se Apagam apresenta uma única finalidade narrativa no seu roteiro: se falta personalidade própria, ele funciona como uma boa aula para um roteirista de primeira viagem que sonha em escrever uma história de terror para ganhar uns bons trocados, sem se preocupar com a qualidade do material que escreve.

Toda fórmula para criar um terror genérico está presente aqui: os clichês; as cansativas obviedades do roteiro; as escolhas pelos sustos fáceis ao invés de elaborar uma ambientação propícia para o medo do escuro; as explicações detalhadas que tiram o mistério da história, o CGI forçado na composição do fantasma e a trilha que aumenta de forma ensurdecedora para preparar o público para o jumpscare. O roteiro frágil de Heisserer funciona como uma aula metódica de cinema de como estruturar um roteiro de terror através dos seus elementos habituais e pasteurizados, ainda que não explique como retirar dele, as excelências de provocar um medo genuíno no espectador e que funcione além dos sustos baratos, não deixando a sensação de um produto industrializado e mecânico, ao seu final.

Essas fragilidades estruturais são fáceis de serem notadas no filme e aparecem geralmente nas casualidades que o texto permite na história, como por exemplo, quando os heróis encontram coincidentemente uma caixa com arquivos médicos e fitas de sessões que os ajudarão a compreender quem é a entidade sobrenatural de Diana. Em outro momento, questionamos a falta de lógica e plausibilidade do roteiro quando a criatura ataca um personagem em um quarto bem iluminado para logo em seguida mostrar sua dificuldade de efetuar a mesma ação em um lugar totalmente escuro, apenas cintilado por uma vela. Isso dificulta muito o envolvimento do espectador dentro da proposta, problemas que poderiam ser resolvidos com um roteiro melhor estruturado. Sem contar que Heisserer copia descaradamente o enredo com vários elementos já vistos em O Chamado (2002), Poltergeist (1982) e No Cair da Noite (2003) que deixa o filme com a cara de uma concha de retalhos do cinema de terror.

Por outro lado, há alguns pontos interessantes como quando o roteiro parece compreender a dimensão psicológica familiar, centrada no sentimento de abandono que Sophie, Rebecca e Martin mencionam várias vezes durante o filme. É um tipo de vínculo que permite o público criar uma identificação com aquela família emocionalmente desfragmentada devido as perdas e traumas vivenciados no passado. A direção de Sandberg é um ponto a ser elogiado, pois oferece um bom jogo de luzes e sombras, acertando na concepção visual do longa, principalmente na criação de bons sustos através do medo do escuro – a sequência final envolta no uso de uma luz negra e a cena que Sophie apresenta pela primeira vez o filho para Diana, sequência marcada pela luz reduzida do cenário, produzem ótimos sustos. Evidencia um diretor que sabe costurar o ritmo a sua atmosfera visual. Além disso, as boas atuações de Teresa Palmer e do jovem Gabriel Bateman dão uma credibilidade razoável a produção, evitando que ela cai no marasmo por completo.

A Warner com certeza está feliz, afinal, o filme já passou da casa dos 100 milhões e uma continuação já se encontra nos planos. Credenciou Sandberg assumir a direção da sequência de Annabelle – o ego do diretor parece ter inflado a tal ponto que ele divulgou nas redes sociais que a continuação da boneca amaldiçoada será o Poderoso Chefão 2 do cinema de terror. Independente disso, Quando as Luzes se Apagam está longe de ser ruim como vários outros produtos enlatados americanos lançados estes anos. É divertido, prega bons sustos e cumpre o papel de entretenimento “jumpscare”. Porém, isso não impede de ser uma coletânea de clichês formulaicos e dispensáveis, um trabalho que você já viu zilhões de vezes e até de forma mais vibrante. É uma pena que em 90 minutos, ele não consegue obter a mesma eficácia que o curta lançado há três anos obteve.

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