O marketing e o cinema de terror sempre mantiveram um “namoro” intenso. O italiano Canibal Holocausto (1981) se apropriou do “baseados em fatos reais” para criar cenas tão realistas quanto repulsivas – que envolvem torturas e assassinatos – que até hoje o filme figura na lista dos mais polêmicos e ultrajantes da sétima arte. Seu principal discípulo, A Bruxa de Blair (1999) se utilizou do mesmo marketing inteligente para criar o seu “documentário real” e se tornou um dos trabalhos independentes mais rentáveis das últimas décadas. Recentemente A Bruxa foi vendido pelo estúdio como o filme mais assustador já feito, gerando altos debates nas redes sociais, sem contar o “truque” de marketing do trailer de Esquadrão Suicida que nos engabelou e fez acreditar em um grande filme – e mesmo não sendo um filme de terror, ele assusta pela ruindade.

Grave (título em português, o original é Raw), filme francês da cineasta estreante Julia Ducournau, é o mais novo integrante da lista. Nasceu embebido de polêmicas desde o seu lançamento no Festival de Toronto do ano passado onde conta a lenda, várias pessoas passaram mal ou desmaiaram durante as sessões. Essa “fama” ajudou o pessoal de divulgação a capitalizar um ótimo marketing do longa como algo perturbador, enquanto, na verdade, ele não tem nada disso: sobrevive mais pela sua atmosfera de abordagem ao canibalismo do que pelas polêmicas em chocar seu público, a não ser que você seja uma pessoa bem influenciável frente a uma temática indigesta como essa.

Não tem como negar que dentro da safra atual de terror, Grave realmente foge da tradicional fórmula dos sustos baratos, os famosos jumpscares para abraçar um olhar mais intimista e intenso de horror, sobre a chegada da maturidade na juventude, utilizando o canibalismo como metáfora para o próprio desejo sexual e o despertar de novos prazeres como forma de preencher o vazio emocional da adolescência. Nele temos um drama de horror sobre o rito de passagem de Justine (Garance Marillier, natural no tom introspectivo), a jovem virginal e vegetariana que ao entrar na faculdade de veterinária, onde sua irmã mais velha, Alexia (Ella Rumpf), também estuda, passará por diversos trotes, incluindo um, na qual é obrigada a provar carne. Esse primeiro contato de Justine com o alimento a entregara às noções do desejo e das experiências que culminará a jovem a sair do eixo da dita “normalidade”.

Ducornau percorre, através do seu texto, o drama pessoal e social, engendrando-o ao suspense e terror com ampla ressonância aos horrores do mundo real, que é bem pontuado nas cenas da universidade onde presenciamos um tratamento primitivo, quase medieval de tortura, por parte dos personagens naquele ambiente. Observamos também, a partir do roteiro, um estudo sobre a natureza inquieta de uma jovem, através da sua inadequação juvenil e a busca da identidade como catarse emocional simbólica da transformação de uma menina em uma mulher, semelhante ao que ocorre no clássico Carrie- A Estranha (1976). O texto também não deixa de executar seu comentário social sobre o bullying, elemento responsável pelas diversas rachaduras emocionais de desajuste e desconforto de Justine.

Parte desta discussão de Grave ganha uma grande força imposta na construção audiovisual da jovem diretora. Há belos planos abertos que exploram o sentimento de isolamento e fragilidade da personagem naquele ambiente, principalmente na primeira meia hora do filme, que vai sendo intercalado durante a metragem, por ângulos mais fechados que evidenciam o desconforto e claustrofobia que a personagem experimenta durante o decorrer dos acontecimentos – a sequência que a câmera filma Justine por debaixo das suas cobertas exemplifica essa impressão que o filme transmite ao espectador. E aos fãs do terror gore e da violência explícita vale destacar as cenas intensas como a de depilação.

Alinhado a esta composição visual criativa, a trilha instrumental de Jim Williams mostra-se ótima por incutir no espectador uma sonoridade intrusiva, dando o tom cru de suspense, o que permite tornar certas imagens não apenas provocativas como intrigantes. Por isso, é uma pena perceber que se Ducornau dá um ótimo tratamento visual a sua obra, o mesmo não acontece no desenvolvimento narrativo que apresenta sérios problemas estruturais que prejudicam o resultado final. Há uma demora do filme de se posicionar frente suas alegorias, sendo disperso em suas metáforas por não as amarras bem com as proposições do texto.

Exemplos para isso não faltam: Os relacionamentos de Justine durante o filme apontam diversas fragilidades, principalmente com a irmã. Não são aprofundados e isso de certa forma, diminui o impacto da importância do segmento final do longa. É como a direção apostasse tanto no impacto da sua abordagem visual crua e fatalista que esquece de desenvolver as esferas dramáticas que pontuariam melhor seus simbolismos. Grave se assemelha muito ao recente Demônio de Neon (2016), onde ambos se tornam uma punhetagem visual interessante, mas pecam pela rasa sustância narrativa. Presenciamos na tela, um debate sobre a violência, o canibalismo e a sexualidade só que as argumentações para estes atos soam mais como sintomas do problema, do que realmente apontam para as causas ou facilitem a compreensão por parte do espectador.

O fato é que Grave é realmente é um filme que ajuda a ressuscitar o New French Extremism, subgênero que ficou tão em voga na década de 2000 ao capitalizar a violência para as imagens. Não é uma obra aborrecida, sabe incorporar a violência gráfica dentro da sua narrativa e tem uma temática inovadora dentro do segmento de horror, ainda que não faça o bom uso dela. Tecnicamente é impecável, com uma diretora promissora e um elenco funcional com destaque para Garance Marillier que oferece uma atuação intensa entre a inocência e a loucura. Dentro da sua fantasia de horror sobre o canibalismo, Grave não tem a mesma perícia de outros exemplares dentro da temática como é o caso dos ótimos Mortos de Fome (1998) e Desejo e Obsessão (2001). A verdade é que como longa-metragem canibal, Grave é um Hannibal Lecter que ainda precisa amadurecer e desabrochar.

Obs: O filme entrou na grade do Netflix semana passada.

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