Desde as manifestações de junho de 2013, o Brasil vive uma crise política mais tratada com paixão do que razão. Até faz bem, é verdade, este interesse quase súbito de milhões e milhões de brasileiros nos assuntos relativos aos Três Poderes, porém, o debate de ideias, muitas vezes, resvala em clichês e visões imutáveis independente dos fatos expostos dia após dia. Isso vale tanto para a esquerda quanto para a direita.

Como reflexo da sociedade, o cinema nacional entrou no clima e, se acertou em cheio com “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, viu Kleber Mendonça Filho, diretor do melhor estudo social que o cinema brasileiro teve em décadas com “O Som ao Redor”, ceder ao discurso intransigente do ‘nós contra eles’ no bom “Aquarius”. Agora, chega a vez de um discurso mais à direita ter voz com “Real – O Plano por Trás da História”.

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Se fosse somente pelo lado técnico…

Dirigido por Rodrigo Bittencourt (do péssimo “Totalmente Inocentes”), o filme retrata a história de criação do Plano Real em meio a uma crise financeira e política no Brasil do início dos anos 1990. A trama acompanha o economista Gustavo Franco, integrante da equipe de economistas liderada pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, durante o governo tampão de Itamar Franco, para implantar a nova moeda.

Em entrevista à Globo News, Bittencourt confessou que, por ser fã de rock, planejou fazer do protagonista um rockstar rebelde. Em “Real”, tal fato se concretiza com Gustavo Franco sendo para a economia brasileira o mesmo que Dr. House era para a medicina: um sujeito genial sempre com as melhores ideias, mas, com total incapacidade de se relacionar com as pessoas, passando por cima de quem se meter na frente dele. Como conceito narrativo para a história, trata-se de um acerto, pois cria uma figura complexa, que o espectador não sabe se tem ódio ou admiração, o que ganha ainda mais méritos pelo bom desempenho de Emílio Orciollo Neto.

A partir de um tema árido, cheio de termos pouco familiares para o público e com a ação feita em pequenos escritórios, o roteiro de Mikael de Albuquerque (de “A Glória e a Graça”) é dinâmico e explicativo o suficiente para não se tornar algo ininteligível para o espectador comum, dialogando vagamente com “A Grande Aposta”. O que atrapalha são os risíveis diálogos pomposos como, por exemplo, “a tela de trabalho de vocês é o Brasil”, “o Real é a moeda do povo” e já clássica “eu NÃO vou desvalorizar a minha moeda”. A montagem em ritmo de videoclipe e a trilha roqueira também são pontos positivos para dinamizar a trama, compensando a direção de arte óbvia que remete a “Uma Mente Brilhante”, com lousas cheias de cálculos e pastas jogadas pelas mesas para mostrar o quanto aquelas pessoas são esforçadas e inteligentes.

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…mas, o discurso político e social, meu Deus!

Um filme, entretanto, nunca é algo dissociado da realidade e do campo social que o permeia, especialmente, quando se trata de uma obra com tantas figuras ainda presentes no dia a dia do mundo político em que vivemos. Em um cenário tão conturbado quanto o atual, “Real – O Plano por Trás da História” poderia e deveria ser um projeto capaz de apresentar um capítulo tão importante de nossa história com todas as complexidades envolvidas naquele momento do país. A produção, infelizmente, somente chega para colocar mais gasolina no incêndio com uma visão parcial dos acontecimentos.

O projeto possui como maior mérito dar o devido crédito ao mais importante plano econômico do Brasil dos últimos 30 anos. Durante todos os dois mandatos, o presidente Lula, no auge da popularidade, aproveitou para minimizar os feitos do governo FHC, e entre eles, o Plano Real, sempre colocando as políticas adotadas pelo tucano como uma herança maldita para o país. A chegada do filme ajuda a dimensionar o caos que o país vivia e como a nova moeda contribuiu para uma maior estabilização das finanças depois dos fracassos do Planos Cruzeiro, Cruzado e Collor, isso para não falar do confisco da poupança. Se são válidas as críticas ao neoliberalismo, à dependência brasileira do Fundo Monetário Internacional e a como fomos atingidos fortemente pelas crises na Rússia, México e Tigres Asiáticos na segunda metade dos anos 1990, também se faz necessário enxergar como o Real deu certo e foi feito por economistas de extrema competência.

Por outro lado, o longa bebe da perigosa fonte de achar que um governo precisa ter o gerenciamento de uma empresa, sempre em busca do melhor equilíbrio das contas, sem levar em consideração as pessoas. “Real” é um filme de escritórios, dos conchavos políticos, das pressões exercidas em gabinetes de Brasília. O roteiro, entretanto, parece esquecer que as medidas econômicas de um país mexem com a vida das pessoas, sejam elas um empresário ricaço da Avenida Paulista ou um pobre comerciante do interior do Amapá. Com essa falta de aproximação com a realidade, o público perde a noção de como as medidas adotadas pela equipe de economistas afetaram a população. A quantidade de desempregados, por exemplo, é apenas porcentagem ou notas de jornais. A sensação que fica é que, ao longo das duas horas de projeção, somos iguais aos políticos do Congresso Nacional: fechados em suas ilhas e acreditando em suas verdades sem grande tipo de confrontação das ruas.

“Real –  O Plano por Trás da História” ainda peca por romantizar personagens: FHC (Norival Rizzo), por exemplo, é o Mestre Yoda de Brasília, sendo aquele sujeito muito sábio, estrategista, sempre com o olhar no futuro, capaz de liderar com segurança e respeitado por todos, incluindo o rebelde Gustavo Franco. Já Pedro Malan (Tato Gabus Mendes) é o Dr. Wilson, fiel escudeiro do protagonista, disposto a controlar o amigo e muito inteligente. Enquanto isso, Itamar Franco (BemVindo Siqueira, escolha muito errada pela fisionomia mais durona diferente do aspecto mais suave do ex-presidente) é retratado como um populista, loucão, que não conhece absolutamente nada. O idealismo destes e de outros personagens da trama enfraquece qualquer credibilidade do filme por ser pouco crível que tais figuras fossem assim o tempo todo, algo mortal para um projeto baseado em fatos ligados à política brasileira.

A pá de cal, entretanto, acontece com as armadilhas colocadas para dar cutucadas na esquerda brasileira. Não que um diretor ou roteirista não tenham o direito de se posicionar politicamente seja para a esquerda ou direita, mas, quando a nossa inteligência e o filme são jogados na lata do lixo para render momentos de provocação barata, tudo se mostra pouco aproveitável. A discussão, logo no início do filme, entre o economista com o personagem de Kleber Tolledo, em que este diz que um dia verá Lula se tornar o melhor presidente da história do Brasil, já deixa mostrar a que “Real” veio, pois, dali em diante, com a ascensão de Franco, o antagonista do embate parece um idiota. Se as críticas aos estudantes comunistas soam até verossímil pela defesa capitalista travada pelo economista, ver Gustavo Franco em cima de um caminhão ser aplaudido por integrantes de movimentos sociais de esquerda para defender o Plano Real chega a ser cômico.

Nada, absolutamente nada, entretanto, se compara com o momento final da CPI do Banestado. Logo no início da sequência, os caracteres informam que estamos em 2003. No meio da discussão acalorada com um deputado petista (combinação “ótima” para um antagonista, não?), Gustavo Franco faz uma citação ao juiz Sérgio Moro e ao fim da corrupção feita pelo governo do PT. Por mais que possa haver alterações para dar dinamismo à trama em relação aos fatos reais, tal trecho é irresponsável por desrespeitar a inteligência do público, contribuindo ainda mais para o estado raivoso de ânimos visto no país nos últimos anos.

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Resumo da história

Ver o cinema brasileiro debater a história e a política nacional é ótimo, assim como temos os mais diferentes tipos de corrente de pensamento sociais na nossa produção cinematográfica. Isto amplia o debate e, quem sabe, aumente o diálogo entre lados opostos. Mas “Real – O Plano por Trás da História” faz tal movimento de maneira parcial ao apresentar um ponto de vista que não teria espaço, por exemplo, há 10 anos. O filme cai nos clichês e provocações mais baixas vistas e travestidas de liberdade de expressão nas redes sociais.

É o que temos. Infelizmente.

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