O cinema é tão incrível e sem limites que, algumas vezes, o público se vê colocado na posição de torcer pelo “cara mau”. Dentro da sala escura podemos nos livrar das inibições morais e vibrarmos com as ações de figuras que, espera-se, nos causariam repulsa e medo caso as encontrássemos na vida real. Em “Scarface” de Brian De Palma, nos deparamos com um cara mau como poucos – e não conseguimos tirar os olhos dele.

Algumas pessoas talvez não saibam, mas este “Scarface” é na verdade uma refilmagem (de uma época em que este termo ainda não havia se transformado num quase insulto). A muito boa versão original, “Scarface – A Vergonha de uma Nação” (Scarface, 1931) de Howard Hawks, dramatizava a ascensão e queda de Tony Camonte (Paul Muni), violento gângster durante a época da lei seca. Na versão dos anos 80, o roteiro de Oliver Stone (na época, estabelecido como roteirista mas não como diretor) tem como ponto de partida um incidente real: no início da década, Fidel Castro permitiu que os “insatisfeitos” com a revolução pudessem ir de navio à Florida para se reunir com seus parentes refugiados. Mas ele aproveitou também para mandar junto grande parte da sua população carcerária para os Estados Unidos. Tony Montana (Al Pacino), o “cara de cicatriz”, chega a Miami praticamente sem nada, junto de seu amigo Manolo (Steven Bauer). Durante 2 horas e 50 minutos o público acompanha Montana enquanto ele cresce no mundo do tráfico de drogas, constrói (melhor dizendo: apropria-se) de um império, casa com uma esposa loira americana (Michelle Pfeiffer), fica milionário e, obviamente, põe tudo a perder em seguida.

“Scarface”, visto hoje, é datado. Tudo nele pertence aos anos 80. Da trilha eletrônica de Giorgio Moroder (com direito a canções dançantes) aos figurinos (os mafiosos e seus ternos com os botões de cima da camisa abertos, os colares, as golas por cima do paletó…), à direção de arte colorida… Mas isso, curiosamente, ao invés de depor contra o filme, lhe dá uma energia extra. Essa energia, aliada a uma atmosfera de “quase-comédia” (pelo menos na primeira metade), sem dúvida contribuiu para o filme ter se tornado tão popular nos últimos anos. “Scarface”, hoje, é o trabalho mais famoso e lembrado do diretor Brian De Palma, e o próprio Al Pacino considera Tony Montana seu personagem mais popular, mais até que o Michael Corleone da trilogia “O Poderoso Chefão”.

E é verdade que, em alguns momentos, “Scarface” parece uma paródia da propaganda do “sonho americano”. É um comentário de Stone e De Palma sobre a cultura materialista em que vivemos (e isso nos anos 80, as coisas melhoraram ou pioraram de lá pra cá?). Tony afirma ter “trabalhado” para chegar ao topo, mas ao alcança-lo experimenta o vazio, pois sua riqueza nada significou para ele, não foi acompanhada de um crescimento pessoal. No filme vemos o início, apogeu e a queda de Montana, mas o apogeu é tão breve (dura apenas uma montagem ao som da canção Push it to the Limit) que a derrocada parece inevitável.

De Palma, um dos diretores mais criativos e eminentemente visuais do cinema americano, cria momentos inesquecíveis em “Scarface”. A apresentação de Montana, onde a câmera, num movimento circular, enquadra apenas Pacino enquanto ele é submetido ao interrogatório dos oficiais de imigração, é perfeita: o personagem começa acuado, mas não se inibe – esse é o momento onde Montana conquista o público, um cara destemido que não se abala e consegue virar a mesa mesmo numa das piores situações imagináveis. Mais à frente, na famosa cena da motosserra, De Palma constrói a tensão com a movimentação de câmera, como de costume – a tomada da grua, que  sai da janela do quarto onde Montana está para ser serrado, vai lentamente enquadrar Manolo, o único cara que poderia salvar o protagonista, conversando despreocupadamente com uma loira de biquíni… Aliás, a violência do filme (típica de De Palma) causou controvérsia na época, e a referida cena com a motosserra, embora não seja realmente explícita, mantem sua força. Outro belo momento (e visualmente sutil) é a reunião de Montana com Sosa (Paul Shenar) já na parte final do filme, quando ele é incumbido de um assassinato em Nova York – Montana, afundado no sofá e acuado no enquadramento, transmite a ideia para o espectador: apesar de toda a sua fortuna, nessa hora Tony se torna novamente um “pau-mandado” de outros maiores que ele.

Mas é mesmo de Al Pacino que “Scarface” tira sua força. Muitos consideram a atuação dele exagerada aqui, mas essas pessoas falham em reconhecer a inteligência da performance. O sotaque carregado, os palavrões, a linguagem corporal de Montana, seus arroubos de fúria e momentos de canalhice – tudo nele tem a ver com excesso. Não é um personagem discreto e nem é para ser. Pacino é conhecido por ter muita energia (sempre teve) e em algumas de suas atuações mais brilhantes ele teve de reprimir essa energia (Michael Corleone em “Chefão” é o principal exemplo), mas de vez em quando ele a extravasa em personagens, digamos, “apropriados”, e o melhor exemplo disso é “Scarface”. O desempenho de Pacino é impressionante (incluindo até ecos da atuação de Paul Muni), e o ator conseguiu criar um personagem icônico do cinema. Falas como “Diz alô pro meu amiguinho!”, “Digam boa noite por bandido” e “Nesse país você ganha o dinheiro primeiro. Depois de ganhar o dinheiro, você conquista o poder. Quando conquistar o poder, você pega as mulheres” são lembradas e referenciadas por gerações de fãs e cinéfilos. A atuação dele (junto com o roteiro) nos faz admirar esse verdadeiro crápula quase psicótico, um assassino e traficante de cocaína. Muitas vezes nos pegamos admirando Tony por causa da sua determinação – é um personagem que sabe o que quer e não desiste até conseguir. Ele usa essa energia para o mal, é claro, mas isso não torna sua força de vontade menos admirável. É algo que muitos de nós gostaríamos de ter nas nossas vidas. Pacino conquista o público de tal maneira que, na inesquecível cena final, o espectador se pega torcendo por Montana no meio daquele tiroteio explosivo, filmado de forma brilhante por De Palma.

O show é de Pacino, mas o resto do elenco também merece crédito. Bauer é eficiente e engraçado como Manolo, Mary Elizabeth Mastrantonio tem um dos seus primeiros papéis como a irmã de Tony (pela qual ele nutre sentimentos não exatamente fraternais), e Michelle Pfeiffer (linda, e na sua primeira grande atuação) arrasa como Elvira, a esposa troféu que, surpreendentemente, demonstra força na sua última cena com Montana (será que ela conseguiu escapar daquele mundo?).

O tempo é realmente curioso. Um filme como “Scarface” tinha tudo para ser esquecido com o passar dos anos. É muito característico de uma época, e geralmente trabalhos como esse não são abraçados em outras épocas. Não foi um grande sucesso quando saiu, nem concorreu a nenhum Oscar (pelo contrário, Brian De Palma foi indicado ao “Framboesa de Ouro”, o bem humorado prêmio dos piores do cinema americano, como pior diretor). Mas as reprises na TV, o VHS e, posteriormente, o DVD fizeram o público redescobri-lo. E no cinema, quem dá o veredito final é o público. Hoje, quase 30 anos depois, é um filme admirado e reverenciado por outros cineastas. É o efeito Tony Montana: por um breve momento, o mundo foi realmente dele – e o mundo dá voltas…

Uma coisa é certa: não vimos outro bandido como aquele desde então.

P.S.: 10 anos depois, Pacino, De Palma e o produtor Martin Bregman se reuniram novamente em “O Pagamento Final” (Carlito’s Way, 1993), que é ainda melhor que “Scarface” e merece ser mais apreciado. Assista.

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