Parece final de novela: o último episódio da série Sense8 da Netflix tem revelações, reviravoltas de última hora, juras de amor e um casamento! Até o nome do episódio significa “o amor vence tudo” em latim (!). Como se trata de Sense8, ele inclui também algumas outras coisas que geralmente não vemos em finais de novela, como cenas de ação com lutas, tiroteios e explosões; e mais uma grande “suruba”, outro momento de sexo grupal e de celebração pansexual parecido com aquele que ajudou a tornar a série conhecida quando ela foi lançada em 2015.

De lá para cá a série foi efetivamente cancelada em 2017, após o lançamento da sua segunda temporada – a celebração sexual e o tema de conexão, aparentemente, não fizeram com que a série alcançasse uma grande audiência na Netflix. Mas a repercussão desse cancelamento foi tão forte, e os fãs da atração tão expressivos, que um pequeno milagre televisivo aconteceu (sim, pessoal da geração millennial, nós que somos mais velhos sabemos o quanto isso é raro): a Netflix se comprometeu a produzir um episódio final para encerrar a série, algo bem-vindo, já que a segunda temporada acabava em aberto num verdadeiro “continua no próximo episódio”…

Aproveitando a chance, a diretora Lana Wachowski assumiu a parada, sem a companhia dos outros criadores do seriado – a sua irmã Lilly e o roteirista J. Michael Straczinsky – e com a ajuda de seus novos co-roteiristas David Mitchell e Aleksandar Hemon, entregou um final fiel a tudo que a série representou. Sense8 então morre como viveu: intensa, exagerada – o episódio final é um épico de 2 horas e meia! – e com bons momentos intercalados com outros meio bobos. Não é um final perfeito ou mesmo ótimo. Mas pelo menos é digno.

O episódio realmente se esforça para fechar as pontas soltas da “mitologia” do seriado, retomando a luta contra a organização BPO e o esforço dos sensates para resgatar Wolfgang (Max Riemelt). A trama nunca foi o forte da série: as coisas continuam confusas, com mais personagens sendo introduzidos e os heróis se metendo em circunstâncias difíceis. Mas a montagem continua fascinante, com personagens tendo conversas à distância e compartilhando experiências, e as cenas de ação funcionam, apesar de alguns detalhes: o plano dos sensates envolvendo a explosão de uma van num momento crucial não faz nenhum sentido, e não deixa de ser estranho vê-los realizando um verdadeiro banho de sangue no conflito climático. Parece que a filosofia do amor e da valorização da diversidade do seriado não impede os roteiristas de fazer com que nossos heróis dizimem muitos capangas dos vilões em cenas com uma boa quantidade de sangue…

Felizmente, ninguém assistiu Sense8 pela trama e seus mistérios, de fato. O que cativou na série foram os personagens e o seu elenco bonito e carismático, e o episódio final consegue fazer jus a eles e aos seus conflitos durante a série. Aqui, os roteiristas se mostram corajosos o bastante para deixar as coisas meio em aberto, ao contrário da trama conspiratória na qual todas as questões são resolvidas, até de maneira certinha demais: a forma como o roteiro resolve o triângulo entre Wolfgang, Kala (Tina Desai) e seu marido (Purab Kohli) é bonita e 100% fiel ao espírito Sense8. Assim como o irônico e simbólico plano final da série.

Claro, para cada momento inspirado há alguns outros que podem deixar o espectador coçando a cabeça: Por exemplo, para que servem os flashbacks da infância de Wolfgang no início? E a cena em que uma personagem baleada serve de médica para si mesma graças à sua conexão com os outros, dizendo coisas óbvias como “Me leve para o hospital”?

O fato é que momentos assim sempre fizeram parte da experiência de Sense8, e seus criadores sempre se mostraram bastante honestos quanto aos temas da série e a empatia que ela provocou nos fãs. Essa honestidade faz com que Sense8 cative, mesmo quando algumas cenas mostravam besteiras óbvias. Este episódio final, mesmo mais contido – filmado “apenas” na Europa, ao contrário das temporadas anteriores que viajavam pelo mundo – representa uma vitória para o seriado e seus fãs. Repito, não é sempre produtores e executivos de TV dão a uma série com baixa audiência uma chance para que seus criadores a encerrem nos seus próprios termos. Certamente, será interessante revisitá-la daqui a alguns anos para termos o definitivo veredito sobre Sense8: Foi um experimento narrativo bastante falho, mas também com inegáveis momentos de brilhantismo; ou foi uma das produções culturais que melhor refletiu a vida conectada, e ao mesmo tempo isolada e em busca de sentido, dos habitantes do planeta Terra do início do século XXI? A resposta, suspeito, será de que foi as duas coisas.

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