2013 e 2014 foram anos muito movimentados para Sérgio Andrade. A Floresta de Jonathas, seu primeiro longa-metragem, teve uma carreira nacional e internacional sem precedentes na história do cinema amazonense, indo para diversos continentes, ganhando elogios de produtores experientes, colocando o cineasta e, consequentemente, o Amazonas no mapa do cinema brasileiro.

Depois de muito tempo fora de casa, de tantas viagens ao redor do mundo para promover seu filme, Sérgio Andrade finalmente está de volta a Manaus, para ficar por aqui durante um período maior. Mas se engana quem pensa que ele vai tirar férias. O diretor já está na pré-produção do seu novo longa, Antes o tempo não acabava, que começa a ser gravado a partir de novembro, em Manaus.

Aproveitando sua passagem por aqui, conversei com o cineasta sobre seus filmes do passado, do presente (futuro), além de Amazonas Film Festival, e políticas públicas para o audiovisual.

CINE SET – Primeiro de tudo, tem noção de quantas entrevistas você deu entre 2013 e 2014? Te incomoda de alguma maneira esse assédio?

SÉRGIO ANDRADE – Não incomoda de forma alguma, eu apenas às vezes entro em conflito com o pouco tempo disponível e temo que as respostas não saiam tão acuradas como eu gostaria. Acho que perdi a conta das entrevistas dadas, sim, e minha memória prega peças comigo às vezes.

CINE SET – Olhando para a sua produção atual, com longas metragens, produções de grande porte, de que maneira você observa os seus trabalhos anteriores, como Criminosos e Um Rio Entre Nós? Acha que eles apresentam coesão semelhante aos mais recentes?

SÉRGIO ANDRADE – Esses dois curtas apresentam uma progressão de técnica, narrativa e linguagem. Criminosos foi um convite que me inseriu na delícia de dirigir, da qual não consigo sair mais, foi um presente do Emerson Medina, que é o roteirista e não pôde dirigi-lo. Ao Emerson devo cosmicamente a minha carreira. No entanto, o curta apresenta ainda um tatear de linguagens e atira às vezes para lados errados na técnica e na narrativa. É um primeiro experimento, muito verde e do qual não consigo tirar muita correlação com minhas ideias de hoje. Foi, no entanto, a primeira porta que se abriu, ali estavam elementos que me acompanham até hoje, da minha estimada equipe e de desbravamentos no ambiente do Cinema, tal como um marco histórico.

Um Rio entre Nós avança um pouco mais, mas ainda tem problemas relativos à atuação, erros meus e oriundos da maneira como o concebemos, mas que me trazem também um frescor quase ingênuo, uma instância meio naiive e que aponta uma direção bem mais dentro da estranheza que gosto tanto. Fico feliz de lembrar pois ali estava um pessoal que me acompanha até hoje e que começava a imprimir sua marca com muito profissionalismo. Eu diria que, se fosse possível refilmar esses dois curtas hoje em dia eles seriam bem melhores artisticamente, com narrativas mais envolventes e cortes mais secos. Teria um cuidado muito mais especial com a montagem, pois aprendemos recursos e apuros melhores só depois. Já Cachoeira, apesar de um jeito desengonçado, é, sem sombra de dúvidas, uma joia rara para mim, e sua carreira foi vitoriosa e potente, até hoje busco inspiração em coisas que tem ali nesse curta.

CINE SET – Tendo viajado tantas vezes com A Floresta de Jonathas, consegue dizer quantas vezes já assistiu ao filme?

SÉRGIO ANDRADE – Perdi a conta.

CINE SET – Depois de ver o filme tantas vezes, mudaria algo do resultado final, mudou de opinião sobre alguma coisa?

SÉRGIO ANDRADE – Sim, já me peguei pensando em muitas coisas que teria feito diferente, eu não sei se cinema deve ser um aprendizado a olhos vistos, pois todos vão identificar seus erros a medida que você vai acertando, mas sei que quem acompanhar meus filmes em sua cronologia talvez se embatuque muito com isso, ora achando que ali estava um amadurecimento ou ora que se tinha muito a amadurecer. Pra mim o personagem Jonathas é um mistério, eu não sei quem ele é, não sei se é humano até, às vezes acho que isso foi um erro, mas percebo então que está nessa minha sina em transitar num mundo de sonhos estranhos. Orson Welles dizia que “O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho”. E quando fazemos um filme detectamos facilmente quando o sonho se acentuou também por causa de um problema técnico ou de uma simples experimento de última hora. A Floresta de Jonathas foi visto, mas acho que não o suficiente ainda, ele vai ser um filme que envelhecerá com um bucolismo estético.

CINE SET – Para quantos festivais, exatamente A Floresta foi? Se pudesse destacar o mais importante, qual seria? Por quê?

SÉRGIO ANDRADE – Importante para o mercado e para carreira dele foram o de Rotterdam e Rio, já importante por questões conceituais foi o de Taipei, em Taiwan, pois aproximou o filme de um ambiente asiático que dialoga muito com ele.

Foram 32 festivais, entre eles os principais:

13º Festival de Cinema do Rio;

36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo;

9º Amazonas Film Festival (prêmio Melhor Ator para Begê Muniz)

6º Festival Indie de Belo Horizonte MG

4º Festival Brasileiro de Washington, 2014

1º Festival de Jerusalem de Filmes Brasileiros

42º Festival de Cinema de Rotterdam;

20º Festival Internacional de Praga;

Semana do Filme Latino em Boston, março de 2013;

15º Festival Brasileiro de Paris, abril de 2013;

20º Festival Cinelatino da Alemanha, maio de 2013;

Mostra do Filme Livre 2013 – Rio, São Paulo e Brasília;

Olhar de Cinema – Curitiba International Film Festival, junho de 2013

28º Maine International Film Festival, EUA

23º Taipei Film Festival, julho de 2013;

5º Hollywood Brazilian Film Festival

13º Vancouver Latino Film Festival, Canadá

15º Festival Iberoamericano de Sergipe (melhor fotografia)

13º Scottsdale International Film Festival

35º Festival de 3 Continents, Nantes

7 º Festival du Film Brésilien de Montréal

Première Brasil Filmfestival, Berlin 2013

Washington Brazilian Film Festival 2013

17º Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira (Melhor ator)

18º International Film Festival of Kerala, India

11 º Chennai International Film Festival

CINE SET – Na sua opinião, por que A Floresta despertou tanta curiosidade dos festivais pelo mundo? Acha que a temática amazônica teve papel principal nisso?

SÉRGIO ANDRADE – Pelo fato de ter sido filmado na Amazônia, sim, mas colhi várias reações, algumas inclusive diziam que o filme não parecia brasileiro, o que foi intrigante, não sei o que significa, mas, pelo que entendi, eles trataram como um filme apátrida. Também percebi que houve uma resposta positiva a uma espécie de “desconstrução da Amazônia”, onde índios andam de skate e fazem orgias na praia. Na Europa, percebi um intenso interesse em como fazer e entender um filme “arthouse”, feito na floresta.

CINE SET – Onde o filme teve a melhor reação do público? E a pior?

SÉRGIO ANDRADE – Na Índia foi muito intenso, pois o público ali é uma loucura, os indianos encaram cada sessão num festival como uma verdadeira final de campeonato, são loucos por cinema, é do sangue deles. Não sei se houve pior aceitação, acho que o filme de um modo geral travou bons diálogos com diferentes tipos de plateias, por mais críticas que fossem. Existem plateias que são reconhecidamente frias, mas no final os debates sempre foram calorosos.

CINE SET – Você está prestes a gravar o seu novo filme, Antes o Tempo Não Acabava, o que ele trás de semelhança e de diferença em relação À Floresta?

SÉRGIO ANDRADE – As semelhanças só notaremos quando de fato tivermos o último corte de  Antes o Tempo Não Acabava, mas as diferenças a gente sempre almeja que aconteçam, adoro me propor ao novo, ao desafio de narrativas diferentes. Tenho ideias bem inusitadas tanto para a fotografia, a direção de atores e a montagem de AOTNA, mas lembro que cinema é uma atividade coletiva e a partir do momento que minha equipe está comigo o filme também já não é mais meu, ou só meu. Há semelhanças que talvez tenham a ver com questões pessoais ou do ambiente que me cerca aqui em Manaus: o personagem Anderson é também um jovem de 20 anos, como Jonathas, e existe também uma certa iconoclastia em relações a temas “amazônicos”. Uma grande diferença, que é até um alívio, é que o filme não é inspirado em nenhuma história real.

CINE SET – Quais são as maiores dificuldades de se filmar no Amazonas?

SÉRGIO ANDRADE – A primeira grande dificuldade é vencer a angústia de realizar audiovisual em um estado que tem um dos maiores parques industriais da América do Sul, mas, no entanto, não existe nenhuma lei que obrigue as indústrias a reverter 0,1%, que seja, de seu lucro para a cultura ou para o audiovisual. Deveria ser fácil passar o chapéu no Distrito Industrial de Manaus, incluir aquelas empresas na renúncia fiscal da lei Rouanet, mas não é. Nosso ambiente de realização audiovisual, por outro lado, é incipiente, falta formação, falta incentivo do poder público. A Amazônia é o sonho de consumo de muitos diretores e documentaristas, lógico, com um imaginário fabuloso e com locações únicas, quem não quer filmar aqui? Por incrível que pareça é mais fácil gente de fora conseguir recursos para filmar aqui.

CINE SET – Espera que o trabalho chegue tão longe quanto o seu longa anterior? Se sente pressionado a alcançar o mesmo sucesso de antes?

SÉRGIO ANDRADE – Estou livre para fazer o novo filme com serenidade e da maneira que eu quiser. Claro que o Floresta estimulou em muita gente ligada ao cinema brasileiro uma curiosidade acerca de meu próximo trabalho, vi isso faz uma semana na exibição do Super 8 que fiz a convite do Festival de Curtas de SP, haviam pessoas curiosas pra saber se eu mantive a forma. Aqui no Amazonas as pessoas, o público em potencial, não ligam muito se estão realizando longas locais, muitas pessoas se espantam quando falo que o Floresta de Jonathas, um legítimo filme do AM, teve carreira nos cinemas comerciais do Brasil e da Alemanha. Aqui não há esse hábito do culto a uma arte mais alternativa e local, só um grupo muito reduzido faz isso, é uma pena, por isso a expectativa está mais lá fora do que aqui.

CINE SET – Já definiu o elenco do novo filme? Pode nos dizer os principais nomes? Pretende trabalhar com a mesma equipe técnica de A Floresta?

SÉRGIO ANDRADE – Infelizmente ainda não posso dizer nada sobre o elenco escolhido, a maioria de indígenas, queremos trabalhar com uma discrição e uma reserva confortáveis, o único nome que confirmo é o de Rita Carelli no papel de Pia. A equipe técnica local é praticamente a mesma. Os profissionais de outros estados, em funções que Manaus não dispõe, são outros, e muito bons, que são a Marianne Macedo, como assistente de direção e a Rita Carelli como preparadora de elenco. No som ainda estamos fechando com um nome bem interessante. E desta vez trabalharei com algo que me deixa bastante contente, um quase co-diretor, um diretor assistente, que será o Fábio Baldo, que montou e fez o som do floresta. Também, desde o início do projeto, estamos trabalhando com uma produtora executiva do Rio, Ana Alice de Morais, o que tem sido importante para alçar outros voos.

CINE SET – Em novembro o Amazonas Film Festival chega a sua décima primeira edição. Que papel, na sua opinião, o festival desempenhou para o cinema amazonense nesses dez anos? O que imagina para o futuro?

SÉRGIO ANDRADE – Acho que o Amazonas Film Festival ainda está lapidando seu diamante bruto e há sempre o fantasma de ser um evento de Governo e por isso fica uma incógnita quanto a sua continuidade. O que é uma pena. É o único evento de maior porte na região Norte, acho que a SEC deveria começar a pensar numa gestão mais compartilhada do evento, com produtores independentes e outras fontes de recurso , aliás, esse é um modelo recente que dá certo em outros festivais do Brasil. Admiro muito a capacidade com que a SEC o produz, com muito apuro técnico, com qualidade nas projeções e nos programas, mas tenho críticas à curadoria e à certas mentalidades programáticas, principalmente com relação à competição de longas, acho que devem manter a competição internacional pois tem muito a ver com a vocação de Manaus, mas acho que os filmes brasileiros deveriam ser mais autorais e menos comerciais. Quanto ao seu papel para o audiovisual local, ele tem sido de coroamento para os curtametragistas, mas ainda não está coordenado com um programa de formação eficiente que aconteça de forma perene, ou seja, escola de cinema produzindo novos títulos e talentos do AM para que a qualidade seja realmente expressiva durante o festival.

CINE SET – Recentemente você tem adotado uma postura muito crítica, nas redes sociais, sobre uma maior participação do Estado para o fomento da cultura no Amazonas. O que acha que precisa ser feito, a curto e médio prazo?

SÉRGIO ANDRADE – A cultura do estado há mais de uma década resolveu priorizar, com muita qualidade de gestão diga-se, a realização de eventos de grande porte e a manutenção correta do patrimônio histórico material e imaterial. Sem dúvidas, há uma forte demanda pra isso em nosso capital cultural local e o resultado tem sido satisfatório nesse meio, mas cabe uma reflexão para que haja melhorias no setor da Criação Independente. Observemos que, excetuando a cultura de Parintins, das Cirandas e de outros núcleos de apelo folclórico, ainda há certo desequilíbrio entre o que se produz de mais genuíno, independente e autoral em todas as artes e sua visibilidade, algo que os grandes eventos trariam a esses produtos; a capacidade de produção de quem faz cultura no Amazonas é incontestável, mas continuam ainda pouco incentivadas.

O que quero dizer é que o artista amazonense, fora do âmbito do folclórico – ou até não – recebeu, ao longo dos anos, pouco incentivo de investimentos e de formação – e no âmbito do cinema, por exemplo, essa formação se recente da falta de uma sala de Cinema de Arte, bem aparelhada e formadora de plateias – e o implemento de mais editais, ou ainda, de uma lei de incentivo definitiva. E essas iniciativas poderiam também acontecer numa parceria entre Prefeitura e Governo. Também percebo pouco estímulo a uma sustentabilidade independente para a cultura, com produtores independentes produzindo suas obras e até eventos também.

Algumas iniciativas como o Instituto Claudio Santoro (chamei de instituto porque deveria realmente ser um instituto, com renda sustentável e mais independente) são louváveis, mas é muito complicada a falta de escolas modernas e bem aparelhadas de arte. Não cabe a mim aqui desancar a gestão de ninguém, não tenho o menor intuito de contribuir para nenhum movimento de substituição desse ou daquele profissional, na esfera estadual ou municipal, mas deveria ser aprimorada a política cultural para quem quer trabalhar em sua independência e precisa de recursos, pois mesmo depois de comprovarmos que conseguimos fazer produtos que sobressaem até no panorama internacional ainda penamos para ter um apoio substancial.

É realmente um mistério.

Por outro lado, mais ligado a minha seara, o audiovisual, também os programas e projetos da esfera federal só agora, nos últimos 5 anos, começaram a estender seu braço de regionalização, com facilidades a quem produz fora do eixão do Sudeste brasileiro, no entanto é preciso estar muito atento para dialogar com essa iniciativa, não adianta nada o Governo Federal querer descentralizar se as esferas estaduais e municipais não entenderem essa dinâmica. Isso parece que está finalmente sendo resolvido com a virtual adesão do Amazonas ao programa Brasil de Todas As Telas.

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