No começo, havia um relógio e uma premissa interessante e ousada. Os produtores de TV Joel Surnow e Robert Cochran queriam fazer um seriado sobre o tempo e como ele sempre é escasso. Eles propuseram a ideia de um programa de suspense e ação cuja trama se passaria em um único dia, e cada episódio da temporada corresponderia à uma hora deste dia. Mas não seria um dia comum, seria um dia no qual um agente anti-terrorismo chamado Jack Bauer tentaria impedir um atentado que poderia mudar a história dos Estados Unidos.

O canal Fox, pertencente ao estúdio de cinema, topou produzir a empreitada, mas não sem dúvidas. Os executivos do canal se preocupavam com a extrema serialização numa época em que isso ainda não era tão comum – afinal, as pessoas teriam que ver tudo, e na ordem, se quisessem saber como a história se desenvolveria. Havia preocupações até com a possibilidade do publico não entender o conceito. Mas a Fox era ousada e havia se dado bem nos anos 1990 com outras propostas inusitadas como a de um desenho animado no horário nobre (Os Simpsons) e um seriado sobre ETs e conspirações (Arquivo X).

Surnow e Cochran conseguiram Kiefer Sutherland para o papel de Jack Bauer, e assim a produção de 24 Horas teve início. No final dos anos 1980 e começo dos 1990, por causa das suas participações em vários projetos de destaque, parecia que Sutherland se tornaria um grande astro do cinema. Porém, na época em que 24 Horas surgiu em sua vida, o ator estava com a carreira em baixa após uma série de filmes inexpressivos. Esse novo projeto, no entanto, era ambicioso. A meta era fazer o publico sentir como se estivesse vendo um mini- filme de ação por semana. E o personagem era um ótimo papel: Bauer lutava para fazer a coisa certa, mas nem sempre do modo correto. Na tradição dos anti-heróis que vieram a dominar os seriados americanos na última década, Bauer era um protagonista implacável com alguns traços de psicopatia.

24 Horas estava previsto para estrear em setembro de 2001. Mas no dia 11 daquele mês, o maior atentado terrorista da história aconteceu em Nova York: a queda das torres gêmeas do World Trade Center. A estreia foi então adiada para novembro, e a tomada de um avião explodindo foi cortada do episódio piloto. O medo do terrorismo e a sombra do 11/09 influenciariam a série até seu final: de repente, qualquer intenção dos produtores de fazer uma série de ação despretensiosa não cabia mais na realidade. Logo os roteiristas de 24 Horas começaram a se espelhar nas manchetes do mundo real para elaborar suas tramas.

Na primeira temporada a missão de Jack Bauer era salvar a vida do senador David Palmer (Dennis Haysbert), o primeiro candidato negro com chances de chegar à presidência – anos depois, a série se mostrou profética quando Barack Obama se tornou o primeiro presidente americano negro.  Ao mesmo tempo ele precisava resgatar sua esposa Teri (Leslie Hope) e sua filha Kim (Elisha Cuthbert), sequestradas. No final da primeira temporada Teri morre, o que deixou bem claro o tom futuro da série: Jack até poderia conseguir salvar o mundo, mas o custo pessoal para ele seria muito alto. E nas demais temporadas, as tragédias se acumularam à sua volta.

Apesar de ter previsto a ascensão de Obama, 24 Horas ficaria marcada mesmo como a série da administração George W. Bush. A trama da segunda temporada envolveu o plano de um grupo terrorista para explodir uma bomba nuclear em Los Angeles. Numa situação tão extrema, Jack Bauer se mostrou o herói ideal, sem nada a perder e disposto a fazer o que outros não podiam (ou não queriam) para impedir o atentado catastrófico. E a audiência ficou ao seu lado – num mundo de escolhas impossíveis e onde o terror parecia muito real depois de 11/09, Bauer virou uma espécie de “para-raios” para todos os pontos de vista, tanto os que defendiam o combate ao terrorismo a todo custo, quanto os que defendiam o respeito aos direitos humanos na guerra ao terror.

A série nunca fugiu desse debate, e se mostrou disposta a explorar os pesadelos tanto da direita (os planos cada vez mais maquiavélicos dos terroristas) quanto da esquerda (quase todas as conspirações de 24 Horas eram arquitetadas por cidadãos americanos e homens de negócios insatisfeitos com o país). O auge dessa tendência foi fazer do próprio presidente americano o vilão – Charles Logan, o ocupante da Casa Branca na quinta temporada, foi o mais popular vilão de 24 Horas e impulsionou a carreira do veterano ator Gregory Itzin.

O sucesso da série foi construído gradualmente. Ao longo dos anos, 24 Horas popularizou algumas tendências que hoje fazem parte do panorama da TV. Foi a série que popularizou o conceito de binge-watching, o nome que se dá ao processo de assistir toda a temporada de uma só vez, quando ela saía em DVD. Sempre que uma nova temporada de 24 Horas iria começar na Fox, a anterior era lançada em DVD pouco tempo antes da estreia, e as pessoas se reuniam em grupos para assistir, fazendo maratonas. A série também iniciou a moda de surpreender o publico matando personagens em momentos inesperados – prática que hoje em dia é comum, por exemplo, em The Walking Dead ou Game of Thrones e ajuda a manter a atenção dos espectadores dessas séries.

De fato, o publico de 24 Horas se acostumou a esperar o inesperado. Afinal, ao contrário do que se pode imaginar, uma temporada do seriado não era inteiramente planejada desde o inicio. A série era escrita à medida que era filmada, e isso também ajudava na sua imprevisibilidade. E apesar de ter tido sua parcela de momentos toscos – quem se esquece da Kim Bauer sendo perseguida por um puma na segunda temporada? – e de ser muito voltada à trama, 24 Horas conseguiu criar alguns personagens memoráveis além do próprio Jack. A mais marcante foi a especialista em computação Chloe (Mary Lynn Rajskub). Ela surgiu na terceira temporada e fez tanto sucesso que acompanhou o protagonista até o final da série.

A quinta temporada (2006), a mais eletrizante da série, representou o seu auge, com o programa ganhando o Emmy de Melhor Série Dramática. Antes disso, porém, 24 Horas já havia ganhado outros prêmios importantes. Pela primeira temporada, Kiefer Sutherland ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator dramático, e sua carreira foi, enfim, ressuscitada por Jack Bauer. Durante suas primeiras cinco temporadas, 24 Horas foi televisão imperdível e viciante, representando como nenhuma outra produção, televisiva ou cinematográfica, a forma como os americanos (e em certa medida, o mundo) reagiram aos atentados de 11/09 e à consequente guerra ao terror.

Quando a administração Bush acabou, subitamente 24 Horas se viu atacada pelo seu retrato das práticas de tortura, recurso ao qual Jack frequentemente lançava mão. De repente, a série era acusada não apenas de retratá-la, mas também de apoiar a tortura – uma acusação meio desprovida de mérito, pois afinal, como já dito, 24 Horas explorou os medos tanto dos liberais quanto dos conservadores. Isso coincidiu também com o declínio do programa. A sexta temporada, a mais fraca da série, já deixa claro que as tramas estavam começando a se repetir.

Com a greve dos roteiristas americanos, após a sexta temporada a série ficou um ano parada, e nesse período foi lançado apenas um telefilme – 24 Horas: A Redenção (2008) – para agradar aos fãs e preparar o terreno para a sétima temporada. 24 Horas foi enfim encerrada após a sua oitava temporada em 2010. Embora a série nunca tenha chegado a ficar realmente ruim, a essa altura a novidade já tinha passado e a audiência já não era mais tão grande.

Porém, Jack Bauer continuou vivo nas reprises e nos DVDs. Kiefer Sutherland até tentou emplacar outro seriado, Touch, mas ao mesmo tempo sonhava em levar Bauer para o cinema, um projeto que só não foi avante devido a problemas no roteiro. No mundo dos boatos loucos de Hollywood, por um momento o estúdio Fox chegou até a cogitar fazer um filme crossover com Bauer encontrando John McClane, o herói da franquia Duro de Matar, vivido por Bruce Willis. Felizmente a ideia não foi à frente, mas serviu para demonstrar como o impacto de 24 Horas diminuiu a distância entre o herói da tela grande e o da tela pequena.

Ao longo de oito temporadas, 192 episódios e um filme de TV, Jack Bauer comeu o pão que o diabo amassou, mas sempre deu um jeito de retornar. Com o tempo ele virou um ícone da cultura pop, e seu apelo fez a Fox trazê-lo de volta em 24 Horas: Viva Outro Dia, um raríssimo projeto de ressurreição de uma série efetivamente cancelada.  Viva Outro Dia estreou essa semana nos EUA – os dois primeiros capítulos também foram exibidos pelo canal brasileiro da Fox. Agora, serão apenas 12 episódios em vez dos tradicionais 24, um modelo mais próximo do que se vê nas séries dos canais a cabo, com menos episódios. Pelo que se viu na estreia, os elementos clássicos de 24 Horas estão de volta: as telas divididas, o clima de conspiração, e um herói solitário lutando contra o tempo para fazer a coisa certa.

Jack Bauer, pelo visto, continua o mesmo. O cenário televisivo, no entanto, hoje é diferente, em parte por causa das inovações da própria 24 Horas. Veremos, no decorrer dos próximos episódios, se a serie volta a ser interessante e relevante como foi no seu auge, ou se o tempo definitivamente a alcançou.

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