A cada filme seu, o diretor Denis Villeneuve se firma ainda mais não só como um cineasta instigante, mas também como um autor capaz de trabalhar com diferentes gêneros e estilos, sempre conduzindo seus filmes com a segurança de quem já tem mais de décadas de profissão. Seja no suspense psicológico de O Homem Duplicado, no thriller de Os Suspeitos ou no drama familiar de Incêndios, em todos é possível notar alguns elementos característicos da assinatura fílmica de Villeneuve, desde sua habilidade de manipular a tensão por longos períodos até a sua atenção especial às relações humanas, dentro do contexto das histórias que se propõe a contar.

Benicio Del Toro em cena de Sicario: Terra de NinguémEssas mesmas constantes se repetem no recente Sicario: Terra de Ninguém, em que o diretor franco-canadense se debruça sobre a temática do combate ao narcotráfico na fronteira entre os EUA e o México. Depois de presenciar um atentado à sua própria equipe durante uma investigação, a policial Kate Macer (Emily Blunt) é convocada para participar de uma equipe especial que planeja capturar um dos chefões do tráfico mexicano. O time é liderado pelo suposto “consultor especial” Matt Graver, vivido por Josh Brolin, e integrado pelo misterioso Alejandro, um homem tático e eficiente interpretado por Benicio Del Toro.

Se, à primeira vista, Sicario poderia cair no sério risco de apresentar uma visão essencialmente “de fora”, norte-americana, ufanista ou preconceituosa, o eficiente roteiro escrito por Taylor Sheridan se esforça em buscar explorar um pouco de toda a complexidade que aborda a questão. Assim, por exemplo, o filme contrapõe o mundo de cores quentes, mas desgastantes, que cerca a equipe de Kate ao calor humano de uma família mexicana, numa espécie de trama paralela que somente no final mostra, enfim, a que veio.

Além disso, Villeneuve não se esquiva em mostrar as consequências das ações dos dois lados, mostrando que a luta contra o narcotráfico não tem uma resolução aparentemente fácil: corpos mutilados e sangrentos expostos com crueza ilustram os atos dos criminosos, enquanto a força policial liderada por Graver também recorre a métodos dignos de Tropa de Elite para “fazer justiça” – e a câmera de Villeneuve os denuncia, tal qual José Padilha no longa brasileiro, às vezes até com elegância, como o ângulo da câmera que apenas sugere o que se passa durante um interrogatório conduzido por Alejandro.

Josh Brolin em cena de Sicario: Terra de NinguémElegância, aliás, é palavra de ordem para Villeneuve. Estivesse nas mãos de um Michael Bay ou similares, Sicario renderia provavelmente um filme de ação duvidoso cheio de explosões, confrontos armados, closes da bandeira dos EUA e personagens unidimensionais (olá, Bad Boys). Nesse caso, porém, a tensão reside justamente em momentos de aparente quietude que se desconstroem, como na cena que abre o filme ou a sequência em que agentes e traficantes se confrontam em um congestionamento na fronteira EUA-México – um monte de carros parados nunca foi tão angustiante. É por meio de longas tomadas e planos gerais que o diretor constrói um senso de urgência que se eleva aos poucos, contando com a colaboração fundamental do diretor de fotografia Roger Deakins (Onde os Fracos Não Têm Vez) e a trilha sonora pontual de Jóhann Johannsson.

Entre suas várias qualidades, Sicario, porém, tem um elemento que depõe especialmente contra: a condução dada à personagem de Emily Blunt. Se a ideia estabelecida inicialmente é a de que Kate será nossa protagonista, aos poucos essa expectativa se subverte, abrindo caminho principalmente para o personagem de Del Toro (impecável em sua interpretação), mas relegando-a, consequentemente, à condição passiva de mera observadora. Sim, Kate é o compasso moral que representa o olhar do público, mas o tratamento dispensado a ela acaba afastando-a do espectador em vez de aproximá-la, ao insistir na sua moralidade inabalável. Blunt faz o que pode com a personagem, mas acaba passando batida – às vezes, literalmente.

A ação confusa numa das sequências finais e o apagamento de Emily Blunt são talvez os únicos empecilhos que deixam Sicario aquém de títulos como A Hora Mais Escura, similar em termos de estrutura e condução da ação, apesar da temática diferente. Mas isso nem de longe chega a ser um erro na filmografia bem-sucedida de Denis Villeneuve até o momento – e se ele for mesmo o homem por trás do temido Blade Runner 2, em breve em produção, é possível ter esperança.

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