Um dos grandes atributos do cinema (e da arte, de maneira geral) é a capacidade de nos fazer perguntas e propor reavaliações através de hipóteses. A Sétima Arte no século XXI tem sido rica em suas explorações sobre tópicos como gênero e família e “Tallulah”, recém-lançado no Netflix brasileiro se debruça sobre a maternidade com uma simples pergunta: basicamente, o que faz uma mãe?

Ainda que não seja uma proposta exatamente inédita, o filme de Sian Heder ganha pontos com um elenco afiado, capitaneado pelas performances de Ellen Page (como a personagem-título) e Allison Jenney (como Margo, mãe de seu namorado), que juntas abraçam seus papeis de forma completamente crível e natural.

Page, a essa altura, já está mais do que especializada em interpretar jovens impulsivas e idiossincráticas (vide “Juno”, no qual também contracenou com Jenney), e é justamente essa expertise que ela traz para Talullah, uma mulher tão independente que mora num furgão e vive de pequenos furtos e esquemas junto com o namorado Nico (Evan Jonigkeit). Quando este cansa dessa vida e a abandona, ela acaba arranjando um bico de babá, onde acaba sequestrando um bebê por impulso e, para protegê-la, acaba buscando abrigo com Margo, dizendo que a criança é sua neta.

Com duas mulheres concentrando boa parte do tempo de projeção e o papel masculino de maior relevância fora de cena, é revigorante ver como o roteiro explora o drama da situação ao mesmo tempo que faz o filme passar com gosto no teste de Bechdel. Heder, que se baseou em uma experiência pessoal para escrever e dirigir o filme, coloca Tallulah e Margo em situações desconfortáveis em que elas são obrigadas a discutir suas vidas (ambas estão, à sua maneira, fugindo de algo) e seus vínculos afetivos, sem apelar para o eterno falatório sobre homens.

No mais, o roteiro confronta a difícil questão do quanto a vontade influencia no ato da maternidade, comparando Tallulah com Carolyn (Tammy Blanchard), a mãe do bebê roubado. Carolyn é uma mulher desprovida de instinto maternal que só teve a filha como forma de reavivar seu casamento, demonstrando tanto desdém pela criança que Tallulah se viu com um ímpeto moral de levá-la. A jovem, por sua vez, tampouco faz ideia de como ser mãe, mas a vontade de ajudar o bebê a leva a atitudes absurdas, que vão contra a sua natureza nômade.

A situação, claro, é insustentável desde que é proposta e o filme se encaminha de resolvê-la em um terceiro ato falho e cheio de coincidências demasiado oportunas, em que o clima noveleiro da história fala mais alto e só não compromete totalmente o desfecho por força das atrizes principais.

No entanto, “Tallulah” consegue levar a cabo seus questionamentos e suas hipóteses de forma satisfatória, deixando entrever uma veia profundamente humanista, que apresenta mesmo seus personagens menos empáticos (como Carolyn e a própria Tallulah, que toma atitudes verdadeiramente insuportáveis em vários momentos do filme) sem julgamentos.

Em uma cena, Carolyn confessa ter desejado muitas vezes que sua filha sumisse e se pergunta se isso faz dela uma pessoa horrível. Pintada várias vezes dessa forma durante essa forma, a personagem ganha uma nova nuance que a pessoa com quem está conversando lhe responde: “Todos nós somos. E somos só seres humanos”. As mães, pelo visto, não escapam à regra.

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