Com o propósito de garantir a fidelidade do público jovem, a Netflix lança a minissérie britânica The End of the F***ing World, apresentando os comuns dilemas adolescentes sob a ótica do humor negro. A história acompanha Alyssa (Jessica Barden) e James (Alex Lawther), dois estudantes do ensino médio que decidem fugir de casa, basicamente motivados por suas relações insatisfatórias com os pais.

Logo em seu princípio a série apresenta personagens facilmente relacionáveis com o público. Tanto Alyssa quanto James correspondem à parcela que não consegue se adequar, os estranhos, desajustados e excluídos dos grupos sociais. A apresentação individual apressada de ambos transparece certa superficialidade e até mesmo banaliza questões importantes como o assédio enfrentado por Alyssa, o qual, em nenhum momento, é realmente abordado com mesmo destaque dado a outras discussões essenciais na série.

A motivação para que o casal embarque na tal jornada é difícil de engolir, tornando o primeiro episódio pouco atrativo. Porém, assim como James passa a valorizar a companhia de Alyssa nos episódios seguintes, o espectador também se acostuma com a dinâmica apresentada. Muito disto se deve às narrativas decorrentes neste processo, preocupadas essencialmente em desenvolver a problemática pais-filhos.

Para isto, os dois se envolvem em situações escabrosas, fazendo seu público realmente questionar onde estão os responsáveis por esses adolescentes. O desenvolvimento dos acontecimentos novamente se torna preocupante devido a forma facilmente relacionável com Alyssa e James (assédio, assassinato, roubo, e por aí vai). Da mesma forma, essa naturalidade demonstra muito sobre o passado de seus personagens e que, aqueles que pareciam jovens irresponsáveis até então, lidam com situações que exigem maturidade há muito tempo.

Além de seus protagonistas, o restante do elenco é composto pela fábula do adulto infantilizado. Sem importar a seriedade do momento, todos adultos se preocupam com pequenas questões em troca de uma ou duas cenas engraçadas, e a profundidade em suas caracterizações também não vai longe disso. Principal perda nesse processo é a dupla de policiais Teri Darego  (Wunmi Mosaku) e Eunice Noon (Gemma Whelan), que esboçam um romance mal resolvido em meio à perseguição dos dois adolescentes, mesmo com capacidade, as duas caem no clichê “policial bom e policial mal”.

Em meio a cenas esquecíveis visualmente, a trilha sonora escolhida se torna protagonista. Desde o folk despretensioso em “walking all day” à nostalgia de “i’m sorry”, clássico dos anos 60, as músicas escolhidas dão o tom romântico para a trama do casal. Este recurso também é aproveitado para diminuir a seriedade de diversos momentos, dando oportunidade para o potencial carismático dos personagens. Como resposta para cenas leves, os diálogos da série se encarregam de circunstâncias mais densas.

Com uma trama de altos e baixos, o desfecho da série cai drasticamente. Imposta a sensação de que as atitudes de James e Alyssa provocarão consequências mais sérias, o último capítulo se torna responsável por finalmente traçar o destino de ambos. Entretanto, com a oportunidade de lucrar realizando uma possível continuação, pode-se imaginar o final ambíguo e aberto para interpretações adotado.

Também ao final da série é possível perceber que a cada nova experiência o casal passa a conhecer mais um ao outro, da mesma forma que lidam com uma relação afetiva a qual nunca tiveram oportunidade de aproveitar. Lembrando o filme Moonrise Kingdom (2012) com pitadas de humor negro, The End of the F***ing World se torna uma boa aposta para seu público ao discutir a importâncias das relações humanas.

 

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