Absolutamente nada é por acaso em ‘The Killing of a Sacred Deer”, novo projeto de Yorgos Lanthimos, e isto é claro desde a abertura com música sacra e um coração pulsando em uma mesa de operação. Este tom clínico não abandona o filme durante suas duas horas de projeção e nos faz perguntar se o diretor grego realmente conheceu seres humanos.

Lanthimos é um cineasta fã de grandes conceitos absurdos e metáforas animalescas (seus projetos anteriores se chamam “Dente Canino” e “O Lagosta”), mas seu novo filme parece mais um ensaio, com o distanciamento entre artista e obra sendo passado para a audiência.

A história aqui tem um quê de tradicional se comparada ao resto da filmografia do grego: um cirurgião vê sua estranha relação com um garoto de 16 anos ameaçar sua família e coisas sobrenaturais começam a acontecer – em suma, uma boa premissa de terror psicológico.

No entanto, o realizador parece esquecer que, para comprarmos a ideia, devemos embarcar com os personagens que, aqui, parecem arquetípicos demais para nos inspirar qualquer empatia.

O elenco se esforça com o material e trazem seu melhor jogo para campo, em especial, Colin Farrell, que volta a trabalhar com o diretor depois do satisfatório “O Lagosta” (que, em retrospecto, parece ainda melhor do que na sua época de lançamento). Seu personagem emasculado é a perfeita representação da tragédia grega com fim anunciado.

Nicole Kidman que, como seu parceiro de cena, está vivendo uma certa Renascença no circuito de arte, segura bem as pontas como a mulher do cirurgião, que vê sua vida desmoronar e vira o nosso fio-condutor na investigação que nos leva a saber o motivo dos sinistros acontecimentos.

Ainda assim, o apego de Lanthimos à forma clássica da tragédia, combinada com um estilo de fotografia que implora o aval do saudoso Stanley Kubrick e o seu já usual estilo de atuações estoicas, deixa o filme verdadeiramente estanque no segundo ato e nos apresenta uma conclusão anticlimática.

Ele ainda não tem rival quando o assunto é senso de humor negro e, de fato, é possível tirar várias risadas culpadas durante a projeção, mas diferentemente de “O Lagosta”, por exemplo, que parecia ficar sem ideias na metade de sua duração, “The Killing” soa ter vindo de uma única ideia que não conseguiu ser expandida e explorada.

O tema do sacrifício é óbvio desde o título (em tradução livre, “O Assassinato de um Cervo Sacrado”), com culpa e a falha da unidade familiar também aparecendo fortemente no roteiro, porém somente essas ideias não sustentam o filme, que se arrasta deixando um clima de desconforto.

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