Esqueça “Embriagado de Amor”. O filme que tem a maior chance de unir público e crítica em torno da habilidade de atuação de Adam Sandler é “The Meyerowitz Stories (New and Selected)”, novo filme de Noah Baumbach, que estreou no Festival de Cannes deste ano e deve pintar nas telinhas mundo afora ainda neste primeiro semestre – cortesia do distribuidor do projeto, a Netflix.

A aposta que a gigante de streaming fez no astro americano foi percebida como um movimento estritamente popularesco quando anunciada e, de fato, filmes como “Os Seis Ridículos” não fizeram muito para demover essa teoria, mas Sandler teve a oportunidade de mostrar aqui a veio neste filme, encontrando uma sintonia pouco antevista com os personagens neuróticos de Baumbach, que está rapidamente se tornando uma versão consistente e sem pendengas morais/judiciais de Woody Allen, com a vantagem de conseguir produzir filmes de baixíssimo orçamento e de seu nome atrair talento de peso mesmo sem os costumeiros salários.

Quero dizer, Sandler contracena aqui com figurões como Dustin Hoffmann, Emma Thompson e Ben Stiller e você pode notar a diversão que o quarteto tem com o material – que aborda, largamente, as crises de uma família americana que tem divergentes ideias de sucesso e grandes lacunas quando o assunto é amor. Mesmo com todos esses elementos poderiam roubar o show, ainda é o personagem de Sandler que me pego lembrando após a sessão.

Seu Danny Meyerowitz é um carismático pai que você sente que poderia encontrar na rua (se você morasse em Nova York, claro). Sua interação com o pai, Harold (Hoffman), que sempre o preteriu em relação ao filho do segundo casamento, Matthew (Stiller), é boa parte do que move o filme pra frente. Quando Matthew entra em cena e descobrimos que ele também se sente preterido, nos vemos diante um diorama de abandono paternal e decepção profissional.

A mesma coisa poderia ser filmada como um dramalhão, ou mesmo alguma coisa dramédia como seu “O Casamento de Margot”, mas a pegada aqui é decididamente cômica. No lugar de uma trama propriamente dita, Baumbach coloca seus personagens em vinhetas, que servem como pequenas situações-caso, e os deixa soltos, o que rende excelentes frutos quando as diferenças entre Danny e Matthew começam a vir progressivamente à tona.

As mulheres não têm metade da participação em termos de tempo em cena do que os homens, mas quando estão no meio da ação, roubam o show, com Thompson no papel de uma nova esposa, estranha à família e com certa tendência ao alcoolismo, arrancando gargalhadas. Além dela, Elizabeth Marvel imbui sua Jean Meyerowitz, irmã de Danny e Matthew, com um senso de dor e abnegação tão grande que não sabemos exatamente como rir de seu personagem – mas o fazemos mesmo assim.

A teoria de que se trata de mais uma comédia independente americana sobre uma família disfuncional branca, artística e com ascendência judaica poderia ser levantada contra o filme (de fato, não estamos falando de uma novidade), mas o mesmo argumento poderia ser levantado contra a filmografia inteiras de diretores (o mencionado Allen é, talvez, o mestre da forma) e tudo o que conseguiríamos no processo é perdermos boas risadas.

“The Meyerowitz Stories”, no final das contas, pode não ser revolucionário, mas não demonstra nenhum sinal de ter sido feito com as audiências da Netflix em mente, talvez reflexo do fato da empresa tê-lo comprado pronto somente para distribuição. Em sua simplicidade, ele entrega um roteiro sólido, atuações competentes e um humor que vale a sua duração. Ah, e faz céticos como eu adorarem Adam Sandler.

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