Para muita gente é difícil falar de amor. Medo de ser confundido com fraqueza, pieguice, orgulho ou até mesmo receio da rejeição. Todas as Canções de Amor debate o sentimento através de duas histórias distintas, com músicas que falam do mesmo e sem medo.

Em um apartamento recém-ocupado, o novo casal de moradores, Ana e Chico (Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso), encontra um antigo aparelho de som. Para ele, um entulho para se livrar – “Esse é o Ipod do meu pai”, diz em determinado momento – mas, para ela, talvez, uma oportunidade de se livrar do bloqueio criativo e começar o novo livro. Dentro do aparelho, uma fita K-7 com o título do filme e a dedicatória de Clarisse (Luiza Mariane) para Daniel (Júlio Andrade). A partir daí, acompanhamos duas linhas temporais (passado e presente) em um cenário (o apartamento), a história dos casais e como as músicas se correlacionam em suas vidas amorosas. A diferença é que o Ana e Chico estão no início do relacionamento, enquanto Clarisse e Daniel no princípio da separação.

Já de antemão podemos destacar a bela seleção musical – feita por Maria Gadú – que acompanha todo o filme. Os diálogos e situações se encaixam perfeitamente em ambas as linhas narrativas, seja um momento romântico entre o casal do presente ou uma briga do casal do passado.

As transições de cenas são outro ponto interessante, nunca enfadonhas e confusas. Isso se deve por uma alternância das cores na fotografia e um design de produção interessante, principalmente, nas decorações do apartamento. Há também um belo momento na travessia de uma ponte: no decorrer dela, os personagens vão passando por trás de postes e ali os casais vão se alternando no mesmo cenário.

O roteiro escrito por três roteiristas – o que me surpreende – evita clichês e, mesmo não se aprofundando a respeito da história do passado dos personagens, os diálogos rápidos e as imagens vão nos inserindo no contexto dos mesmos. Se a falta de diálogo é o que fez o casamento de Clarisse e Daniel se acabar, o excesso deles – em momentos sem afinidade – talvez esteja fazendo Ana e Chico duvidarem do futuro da história deles. E é sutil, mas interessante a cutucada no patriarcado e na possessão: com um “Eu deixo você escrever” que Ana repete com desdém para Chico, depois do marido naturalmente proferir a frase para ela.

Próximo arágrafo contém spoiler, se tiver problema basta pular para o próximo.

“Todas as Canções de Amor” leva quem está assistindo a pensar que talvez o passado seja a imaginação de Ana, mas, isso nunca é confirmado. Já que ela está escrevendo um livro baseado na fita, o passado pode ser fruto da mente da escritora e nenhuma informação de Clarisse e Daniel é revelada no presente. Um recurso interessante, e que desperta curiosidade.

Mas o que mais encanta – além da música – é, sem dúvida,  o casal do passado. Júlio Andrade e Luiza Mariane fazem do apartamento um palco, até o último ato. A naturalidade com que eles dialogam e contracenam, realmente faz pensar que eles, de fato, passaram anos juntos. Apesar do esforço e do talento do casal de Bruno e Marina, em alguns momentos eles não conseguem escapar da imagem do casal publicitário.

Com direção de Joana Mariani, Todas as Canções de Amor é um bom filme sobre o amor e sobre a importância do diálogo, além de ser uma merecida homenagem à nossa música. Só acho que para fechar com chave de ouro poderiam ter encerrado com uma canção nacional também.

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