Um dos projetos mais duradouros da Universidade Federal do Amazonas, o Cine Vídeo Tarumã, está completando vinte e dois anos de existência neste ano.

Sendo sempre um excelente guia para apresentar grandes filmes dos mais variados estilos e diretores, o projeto, liderado pelo professor Antônio José Vale da Costa, se tornou uma referência do cineclubismo em Manaus.

Em uma conversa aberta, Tom Zé fala sobre temas importantes, como o público consumidor de cinema em Manaus, as distribuidoras de cinema daqui, e fala até sobre o sucesso obtido por Os Vingadores.

Boa sessão!

CINE SET – Quando o Cine e Vídeo foi criado?

TOM ZÉ – O germe dele nasceu em 1990. Portanto, está com vinte e dois anos. Por quê? Porque a prática do cineclubismo tinha sumido no final dos anos 80, e com o início dos anos 90 surgiu a questão do videocassete.

A experiência anterior era do cineclube, do cineclubismo, que foi até 83, 84, e de lá meio que sumiu os cineclubes e tal. A gente viu a possibilidade da chegada do videocassete chegar e trazer vários filmes que a gente tinha só de memória, lembrança, etc.

Então, a gente pensou em fazer isso dentro da universidade.

CINE SET – Era o senhor e quem mais?

TOM ZÉ – Eu que sempre fui o coordenador e mais outros professores interessados que vinham também do cineclubismo.

Aí a gente começou com um televisor de 20 polegadas, um videocassete, e reuniu no começo umas trinta pessoas. E aí a coisa foi legal, as pessoas vieram ver esses filmes. Não existia ainda essa possibilidade de várias locadoras, vários cinemas, internet; então isso era um atrativo. E assim foi construído.

Durante dois anos, 1990 e parte de 1991 vinham muitos professores e depois os alunos foram chegando. E quando foi 1991, a gente mesmo começou a estruturar isso de uma forma mais sistemática e aí foi o nascedouro.

Houve duas vezes denúncias que pararam as atividades, tivemos que suspender, veio advogado aqui dizendo que a gente tava incorrendo ilegalmente com um problema, porque diziam que a exibição só poderia ocorrer em um lugar doméstico. E a gente teve que ficar 6 meses fora pra poder amenizar isso.

Acabamos voltando meio que na marra. Era só pra amenizar a ira das locadoras de Manaus, que sentiram-se ameaçadas por a gente estar fazendo isso de graça. Uma bobagem porque a gente nunca foi ameaça nenhuma.

CINE SET – O senhor esperava que o projeto fosse durar tanto tempo?

TOM ZÉ – A gente não fez pensando num tempo finito; queríamo transformar isso numa prática comum, porque não dá pra entender uma universidade que não tenha um cinema. Não dá pra entender uma universidade que quer ser o que a Ufam diz  querer ser, que não tenha uma atividade relacionada ao cinema.

A gente criou um perfil de atividade e não quer deixar isso, não quer mudar. Então a gente continua no Campus, espaço onde deveria se ter isso, e não tem. Aqui é uma coisa meio improvisada, que tenta seguir o mais perto de um cinema, mas não é.

O Cine Vídeo Tarumã é algo que deveria permanecer como atividade e ficar por aí. Se era a gente que ia ficar, ou outra pessoa aqui dentro, isso não estava no momento: estamos aqui por uma circunstância.

Até gostaria que outro professor viesse e assumisse, fizesse um revezamento na coordenação, mas não aparece.

CINE SET – Qual era o objetivo do projeto quando foi criado? Esse objetivo ainda permanece o mesmo?

TOM ZÉ – O primeiro objetivo era mostrar um cinema mais dentro de um espírito do cineclubismo, o qual nunca é mostrar apenas a exibição pura e simples do filme. Aqui, pretendemos criar uma provocação, sempre ter uma direção de uma conversa.

De um debate que pudesse ser ou uma especificidade do cinema, por exemplo,o trabalho com um ciclo de filmes que pudesse dar ideia sobre o neorrealismo italiano ou também de temas, uma coisa histórica, um problema social, etc..

Isso o cineclubismo fazia; então a gente tentou resgatar isso no primeiro momento, e isso foi vivido dessa maneira, porque as pessoas que estavam participando vinham desse afã de estar discutindo sempre as coisas.

Os anos 80 fervilharam no movimento social, as pessoas estavam vivenciando muito. O final dos anos 80 e início dos 90 já foi um desmantelamento disso. E aí a gente teve muito reflexo disso na universidade também.

Enfim, esse objetivo foi se perdendo, e com o tempo ele foi se tornando mais seletivo, hoje muito mais do que nos anos 90, o Cine Vídeo tá se tornando um local que a gente quer aproveitar a possibilidade vivida pela internet mesmo, de você estar com filmes que você jamais pensaria em estar com eles e tentar socializar isso.

O cinema é uma área de socialização: se hoje eu posso no meu computador baixar um filme e assistir sozinho, a gente quer fazer com que isso seja para uma plateia de 50, 80 pessoas.

Aqui, exibimos filmes que saíram já em DVD ou em Blu-ray, além dos que nem saíram, mas que a gente está conseguindo de alguma forma paralela a esse sistema  e  oferecemos ao público.

O outro objetivo que eu, infelizmente, digo que a gente tem é essa mesclagem pra garantir público, porque sabemos que o público mudou. A plateia é formada por universitários, mas estes mudaram. Não dá pra você ter universitários com a visão que tinham nos anos 80, e até um pouco mais dos anos 90. Nós estamos em 2012, e hoje o universitário não tem mais o envolvimento com as questões político-sociais que os filmes tocam. No plano mais aberto, das questões sociais, das questões políticas, das questões econômicas, não atrai mais.

Então, como é que a gente faz isso?

Bom, eu vou tocar na questão sócio-econômica se eu trouxer um filme do Michael Moore, um cineasta conhecido. Com isso, consigo atrair determinadas plateias.

E às vezes é assim mesmo.

Vou fazer uma semana de animações, por exemplo. Seria interessante que tivesse essa abordagem, de explicar como se faz uma, como é o estilo do outro, mas a verdade é que não há mais espaço para discutir. As pessoas não querem mais ouvir nada, querem ver o filme e ir embora.

Infelizmente, o público mudou e a gente faz uma mudança de programação de filme, e espera sempre que isso toque em cada um e com isso ela venha depois e converse.

CINE SET – Qual é o maior legado deixado pelo Cine Vídeo para o público?

TOM ZÉ – Talvez essa coisa de despertar a curiosidade para o cinema e para algumas coisas que o cinema e determinado filme fala. Eu acho que a gente faz isso.

Por exemplo, a nossa procura por professores de cursos diferentes para dizer – olha, a gente vai fazer um evento que vai falar sobre tal questão, será que vocês não tem um filme que pode se ajustar a isso? – é, de certa forma esse legado.

As pessoas tem referência de que a gente constitui um grupo de bolsistas  e está sintonizada com determinados filmes que não estão no mercado. Acreditamos que alguns filmes que a gente seleciona aqui são obras que normalmente não tem outro espaço se não for nesse âmbito.

Há um cineclube na UEA agora, começando. Há outras formas de exibição, de informação. Acho que a gente foi modelo de alguma coisa, estimulador de algo durante esse tempo todo. Não queremos disputar nada com ninguém e sim servir de ponto para o debate cinematográfico.

CINE SET  – De que forma o público reage a filmes de arte, experimentais, ditos difíceis de assistir? Com o passar do tempo houve alguma mudança nesse comportamento?

TOM ZÉ – Eu acho que se teve algum tipo de reflexo foi para pior.

Porque quando a gente via, na minha juventude nos anos 70, nos cinemas de Manaus, imagina, filmes de Bergman, e que lotava o cinema, nós tínhamos uma curiosidade pra saber que raio de filme é esse que veio badalado lá não sei de onde. Quem é essa figura?

Íamos e, de certa forma,  ficávamos curiosos, intrigados, com interrogações na cabeça. Éramos estimulados a pesquisar, a querer saber mais sobre isso pra conversar.

Infelizmente, agora a realidade é outra.

No momento em que a gente tem mil chances, é muito mais informado do que naquela época, por conta da internet, parece que há um contrapasso nisso aí; parece que as pessoas não querem mais, pelo menos, algumas não querem verbalizar isso, esse tipo de curiosidade, pesquisa e tal.

Quando a gente exibe os filmes chamados de arte ou que mexem mais com a cabeça, ou seja, alguma coisa que não está tão linear, que não está circulando por aí dessa forma, gostaríamos muito que a reflexão fosse a mesma que a gente tinha vivido.

De dizer, olha, queria ver mais, queria saber mais um pouco sobre isso, mas não, na verdade eles desaparecem. Eu acho que é isso. Quando exige um pouco mais de uma compreensão, que não está tão colocado no filme, as pessoas não se interessam.

Por exemplo, eu passei o Melancolia. Você pode não gostar do cara (o cineasta Lars Von Trier, um dos criadores do movimento cinematográfico Dogma 95), mas eu quero ver, pelo menos, para dizer que é uma droga, e porque que é ou não. Mas já fico sabendo que não vai atrair muito público.

O Cine Vídeo Tarumã possui um  público mais ou menos cativo, além das pessoas que fazem isso aqui de ponte. Muitos servidores vão assistir, mas eu sei que eles dormem, que não estão nem aí, é um passatempo.

Lamentavelmente eu não queria que fosse assim, porque passatempo qualquer filme pode ser, de preferência uma comédia rápida, ou uma coisa romântica, em que eu saio e esqueci logo em seguida. A gente queria que esses filmes pudessem marcar de certa forma a cabeça das pessoas, a vida do espectador de uma maneira que pudessem estar instigando uma reflexão, ter uma questão social mais coletiva, ou interna, psicologicamente falando, mas a gente não tem esse feedback.

Essa semana vai ser isso aqui, me dizem que não vai dar público, mas, na outra, a gente recompõe o público, trazemos mais filmes e tal.É nesse sentido que a gente está continuando com o tipo de filme que acreditamos ser o espaço de um cinema universitário.

As pessoas querem que o cinema universitário seja igualzinho ao cinema comercial. Quando a gente faz uma enquete perguntando que tipo de filme você quer assistir,reproduzem tudo o que está nos cinemas comerciais.

Mas pra assistir esses filmes você não precisa vir pra cá, vai ao cinema. Paga e vai assistir. Eu não vou passar jamais aqui Os Vingadores, não que eu não goste, mas acho que esse não é o espaço para ele passar, só isso.


CINE SET – O senhor acha que isso deu resultado? Acha que houve uma aproximação do público comum com os filme ditos de arte?

TOM ZÉ – Não. Acho que não.

O que há é que algumas pessoas são despertadas. A gente de certa forma contribuiu, ainda que indiretamente, para que algumas  pessoas se interessassem mais pelo cinema, começassem a produzir seus filmes, e hoje com a facilidade que existe em produzir filmes, eu acho que nisso demos um alento, de certa forma. Não estou  dizendo que a gente deu um curso, e que os caras fizeram… Não.

Mas, de alguma maneira, eu sinto que bolsistas que passaram por aqui acabam sendo articulistas dentro da área do jornalismo, mais ligados à arte, ao cinema. A gente tem o Luís Otávio, que já saiu daqui, tem o Sávio Stoco, o Jony Clay, Aldemar Matias.

Acho que, de alguma maneira, o Cine Vídeo ajudou nessa composição do que eles imaginam fazer hoje, tendo visto filmes, trazendo cineastas pra cá, fazendo as mostras que fizemos

De certa forma, diria que temos uma pequena parcela na contribuição dessas pessoas que se ligaram mais em cinema, seja escrevendo sobre ou fazendo filmes mesmo.

CINE SET – Professor, de que forma o senhor analisa o público consumidor de cinema de Manaus?

TOM ZÉ – (pensa por um tempo) Muito ruim. Acho que poderia haver outra frase, outra expressão, mas é muito ruim mesmo.

Nós já tivemos chances aqui de provar o contrário. Aquelas sessões do Cinemark às 15hrs da terça-feira, em que vieram filmes muito bons para cá, podíamos estar lotando aquilo, mas não aconteceu.

Eu fui várias vezes, e tinha também 15 pessoas assistindo, às vezes menos que isso,  em um cinema que você pagava menos inclusive pra poder assistir. O horário. Ah, o horário é complicado, está todo mundo trabalhando e tal, então tem que ser a noite.

Eu tenho minhas dúvidas, que se fosse colocado às 22hrs, se ia ter um público lotando um cinema desses em Manaus. Eu assisti, até o início dos anos 2000, uma atividade de uma coisa parecida, que eles alugavam o cinema lá em Fortaleza e fazia fila pra entrar dez horas da noite. Lotava. Isso era sexta e sábado. Eram filmes selecionados, a sessão de sexta repetia no sábado, e lotava.

Acho que tem alguma coisa no público de Manaus, mesmo. Eu avalio que hoje a gente é fruto de uma desinformação atroz, de décadas que a gente não tem isso. Dos anos 80 para cá a mídia piorou, lembrando sempre que tínhamos programas de rádio de cinema, já tivemos serviços de cinema, colunas de cinema, e agora não tem.

Isso desinforma. Não há revistas sobre cinema circulando nacionalmente. O teleclube virou virtual, então fica cada um procurando. E eu acho que isso é meio complicado. Não sou contra o uso da internet, de jeito nenhum, mas acho que se você fica só nela, você está roubado.

Ah, nunca mais vou ao cinema, basta conseguir pela internet assistir ou trailer ou ver o filme inteiro, e isso vai ficar só comigo. Isso não ajuda na formação do público. O filme tem que ser assistido como se fosse uma rotina da sua vida. Você não pode simplesmente ir ao cinema, assistir um filme e sair exatamente igual.

Aí o filme que é ruim ou você que está com a cabeça ruim. Mas as pessoas acham que isso é normal. É só entretenimento. São só duas horas que eu me divirto, depois volto.

Não dá pra ser assim.

Enquanto tivermos um público que pensa assim, você não tem um público crítico, você não exerce a crítica. Claro que tem filme que é só pra entreter, filme só para diversão, ou então aquele que duas horas depois, quando eu sair do cinema ele não tem nenhuma proposta de ser mais do que aquilo. Mas ,nem todo cinema é assim, e nem todos os filmes nasceram para ser dessa maneira.

Tem que ter essa clareza, de dizer eu quero agora me divertir e assistir esse filme, mas eu não quero sempre fazer isso, em algum outro estado de espírito eu posso querer outra coisa.

Outra coisa, os filmes de Manaus são péssimos, estou falando do cinema de Manaus. Todos estão com os mesmos filmes. Você vai há anos e anos assistindo os mesmos filmes, isso faz com que tenha a ideia de que não existe outro cinema, outros filmes, é só isso mesmo que está aí.

É uma bola de neve, porque os caras não colocam outros filmes aqui porque as pessoas não vão, e as pessoas não pedem outros filmes. Isso não acontece em outros lugares. Por exemplo, a mesma rede do Cinemark, Cinemais, Playarte, lá em São Paulo, em outros lugares, você tem oito cinemas, dois são com filmes diferentes, os outros podem ser ruins, pra atender justamente um público que cria essa demanda. Como a gente não pede isso, o cinema não se vê forçado a fazer. É um círculo muito complicado esse daí.

O público de Manaus peca por não exercer uma pressão por uma demanda de filmes diferentes. Por mais pessoas que possam ter pensado isso, não há força, não tem como se organizar e dizer, olha, o Estado tem que fazer isso.

De alguma maneira essas são as experiências que a gente vê em outros lugares, de certa forma a secretaria, o Estado, a Prefeitura têm que entrar, não tem jeito. E é dinheiro público. Tem que incentivar isso. Criar um cinema com esse perfil, fazer parceria com um shopping desse, pegar uma ou outra sala, ou se não quiser criar um espaço dele mesmo.

Eu me lembro do Dragão do Mar, lá em Fortaleza, um centro cultural:  está lá o Unibanco com duas salas de cinema. É a mesma coisa que você convidar o Banco do Brasil pra fazer uma parceria, e eles tem isso, sabem como trabalhar com cinema. Tem que convidar.

Pode fazer isso, mas o Estado não tem interesse. Para eles, cinema é só o Festival Internacional e acabou.

Falta essa pressão, falta essa disposição também pra cobrar isso.

CINE SET – O sucesso nas bilheterias de Os Vingadores trouxe novamente à tona a questão sobre o que é um filme de sucesso. Se é um filme voltado mais para o público ou para a crítica. Qual a sua opinião sobre o tema?

TOM ZÉ – O filme que faz sucesso, no meu ponto de vista, e no ponto de vista que existe entre críticos e tal, e não tem essa razão de fazer sucesso é o que a gente chama hoje de cinema comercial. O cinema que visa apenas o entretenimento. Ou seja, eu quero fazer com que as pessoas se liguem nesse horário pra esquecer dos seus problemas.

Então bota um riso fácil, um romance fácil, e faz sucesso. Às vezes, com erros, as vezes bem feitinho. Tem toda uma indústria que vive disso. O filme comercial, comédia, por exemplo, em que tem aquela historinha de amor que todo mundo já sabe, em que o casal se gosta, aí eles brigam, mas se reconciliam no final, já está batido isso, mas, às vezes, eu posso querer ver esse filme. Não há problema nenhum nisso.

O problema é que eu preciso ter clareza disso. Eu vou ao cinema agora porque eu quero ver essa bobagem, mas se passar outro filme depois eu vou lá ver também. Eu não posso é criar isso como um hábito, e dizer esse é o cinema, porque eu fico fora da minha realidade, fico encantado por isso, saio aliviado, tenho aquele momento de escape e tal. É isso que precisa existir. E a cabeça do público precisa ser preparada pra isso. Não pra dizer que ele vai, por osmose, sei lá, acordar num dia discernindo tudo. Não, isso é um processo educativo mesmo.

O cinema que é bom de bilheteria, mas é muito bem feito, tem uma outra proposta, são os filmes que os festivais buscam imprimir. Então você tem um filme em cima da história da Margareth Thatcher, “A Dama de Ferro”, muito bem feito, atores brilhantes, faz sucesso? Faz.

É um filme que tenta ficar um pouco em cima da vida dela, mas a crítica é meio superficial, não entra, não dá a cacetada que deveria, mas é muito bem feito, e vai dar resultado. E é uma proposta mais séria, é um tema que não é a brincadeira pura e simples.

Acho que esses filmes existem também, e eles são feitos exatamente para um público pretensamente mais sério, que vai ao cinema e quer um pouco assistir isso. Eu acho legal, mas são filmes também comerciais, visam lucro, visam grandes plateias, rendimento, essas coisas.

Diferente de um filme que já nasce pra um perfil mais experimental, mais cerebral, digamos assim.

Ver um filme do Lars Von Trier esperando como se fosse qualquer filme de um sujeito lá da indústria é uma desinformação. Pô, tu vai esperar o quê, se tu não sabe nada do diretor, nada das outras obras dele pra saber assistir um filme desse sujeito? Para dizer, tô curioso pra saber como ele trabalha isso.

Posso não gostar, mas eu tenho que fazer a crítica, e dizer porque eu não gosto. Não simplesmente dizer, ah, odiei! Mas odiou por quê? Gostei! Gostou porque?

Algumas informações as pessoas precisam dar, e isso vem da formação, de um olhar mais apurado mesmo, do que os filmes podem estar revelando.

Eu sei que passar um filme desses não vai lotar, também não tenho a expectativa de que se lote, não é essa a ideia. A ideia é ver como visualmente ele trabalhou certo tema que outros já trabalharam.

Aí tem um estilo, um perfil, um autor que vai revelando partes de como fazer esse filme, diferente de como outros já fizeram. Então você vê ai analisando tudo isso. Comparando um com o outro e tal.

Isso sim, na minha visão, poderia ser a grande contribuição que o cinema poderia dar.

CINE SET – O que se pode esperar do Cine Vídeo para o futuro?

TOM ZÉ – A ideia é que a gente pudesse ter atividades fora desse espaço físico. Enquanto eu tiver a ideia do local onde você semanalmente vai e encontra filmes, vai continuar.

Mas, a vontade era que a gente não ficasse só nisso do jeito que está, e para isso a precisavámos ter uma equipe. Eu sozinho não vou conseguir. Uma bolsa é uma miséria, eu já tentei duas bolsas para ter alunos mais próximos e eles (Proexti) me negaram, então é só uma.

E às vezes depende muito de quem está. Que a gente pudesse fazer outras atividades fora desse espaço, dentro da Ufam ou fora mesmo, que pudesse ter mais seminários, cursos, exibições fora, sei lá. Gostaria que, no futuro, pudéssemos experimentar outras formas, não sei se vai ser possível, talvez fique só mesmo com um espaço de cinema de “arte”, desse tipo que a gente pode ter uma sala de exibição em que os filmes são pensados com um pouco mais de cuidado na sua programação, mais do que isso seria interessante se fosse criado.

Se a própria universidade pensasse com mais carinho a atividade de cinema, pudesse pensar em uma estrutura, porque aqui não tem nada, precisa ter um suporte de infraestrutura para isso, mas a gente se debate assim.

A Ufam também poderia institucionalizar mais a sua atividade e tornar uma coisa possível de ser feita, importante de se fazer, e não ficar apenas como um projeto perdido de extensão que se der certo deu, se não der tanto faz.

Um prognóstico do que pode vir a ser o futuro da atividade é continuar com essa intenção, e cavar espaço para que a gente pudesse deixar um pouquinho mais essa marca, contribuir pras pessoas fazerem.

Nunca se estimulou aqui a produção de filmes, até porque é muito mais complicado. Então são vários problemas, e isso é o panorama que a gente vive em Manaus.