O mais recente trabalho do documentarista israelense Tomer Heymann, ‘Gaga: O Amor Pela Dança’, chegou ao Brasil, na última quinta-feira. E embora remeta à uma estrela pop, o filme é, na verdade, sobre Ohad Naharin, renomado coreógrafo contemporâneo, também de Israel, que, ao longo da carreira, desenvolveu a própria linguagem na dança, chamada de ‘Gaga’. O documentário de Heymann divide opiniões, mas se há um consenso sobre a produção é o de que o protagonista Naharin, também conhecido como Mr. Gaga, é um homem complexo e intrigante, capaz de carregar o peso que recebe dentro da própria trama.

Para Naharin, a dança não tem o foco na aparência e em movimentos sincronizados, motivo pelo qual não permite que os ensaios da Companhia de Dança Batsheva, da qual é diretor, em Tel Aviv, aconteçam na frente de espelhos (uma prática muito comum em estúdios de dança). Estas e outras “excentricidades” de Naharin são o foco do documentário de Tomer Heymann, que esteve no Brasil para divulgar a produção e concedeu uma entrevista exclusiva ao Cine SET.

Cine Set: Como documentarista, você precisa manter um distanciamento do objeto retratado, certo? Ainda assim, no filme, vemos Ohad Naharin falando sobre si mesmo pela maior parte do tempo, é a visão dele sobre sua própria vida e arte que conduz a narrativa. Como foi a busca pela objetividade diante de uma figura que você claramente tanto respeita?

Tomer Heymann: Foi um desafio e levou bastante tempo, mas, de certa forma, Ohad foi ingênuo. Eu era a pessoa manipulando ele. Não o contrário. Nos encontramos uma vez na Finlândia para discutir o filme, só ele e eu. Não era uma entrevista, estávamos apenas conversando. No entanto, eu já tinha, na minha mente, a visão de quais imagens de seu passado eu usaria no filme. Ele não fazia ideia de que, quando ele respondia uma das minhas perguntas, eu já tinha dirigido o filme na minha cabeça. Eu precisava conduzir o diálogo de forma que ele falasse sobre assuntos que fossem interessante para mim. Ohad é um controlador maníaco na arte e em sua vida pessoal, então, neste processo, ele precisou relaxar e dar a outra pessoa o poder de controlar a imagem que as pessoas têm dele. E eu entendo isso. Ele passou anos construindo uma imagem e, de repente, vem um diretor querendo desconstruí-la. Nem sempre eu tinha sucesso em fazê-lo se abrir, por isso, levou oito anos para o documentário ficar pronto. Foi o filme mais difícil e complexo que já fiz.

Cine Set: Como cineasta, você desenvolve uma história usando elementos do cinema, mas a dança tem abordagens diferentes no uso de tempo e espaço. Como você lidou com esta relação entre cinema e dança?

Heymann: Ohad me disse uma vez que dançar, para ele, significa mudança constante. É o ato de ser levado pelo vento. “A dança me conecta com o ato de desaparecer, é o poder disto que me atrai. Todas as noites eu corto, eu acrescento, eu mudo a energia da coreografia. Eu não quero ninguém fazendo um filme sobre mim, porque você está fazendo o oposto do que eu faço”, ele dizia. Para Ohad, eu estava sendo agressivo ao congelar um momento da dança para sempre. E este diálogo entre dança e cinema, entre desaparecer e congelar, criou um conflito. É diálogo, guerra, paz, tudo ao mesmo tempo, entre as duas artes. Esta experiência me forçou, como diretor, a oferecer ao meu público algo completamente diferente do hábito de ir a um espetáculo de dança. Ver o show ao vivo é incrível, mas eu tive que oferecer um ângulo diferente do que o público da dança vai ver. Algo por trás do palco, por outro lado do dançarino. Você não pode ver a dança de cima, não pode ver ensaio, por exemplo. Este subtexto entre as duas artes está presente em todo o filme.

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Cine Set – Ohad é conhecido por ser extremamente duro com seus dançarinos, a ponto de questionarmos até que ponto a abordagem dele vale a pena em nome da arte. O próprio filme mostra dançarinos que, em algum momento, saíram chorando dos ensaios. Gostaria de saber como foi a sua relação pessoal e como diretor com ele, principalmente porque você filmou dentro da Companhia de Dança Batsheva, comandada por Ohad. Como era o acesso a ele, aos dançarinos e ao processo criativo?

Heymann: O foco de Ohad estava na própria arte. Ele não ligava para o filme. Ele me disse, uma vez: “eu não quero o filme. Se você o fizer, lance-o apenas depois de eu morrer”. Então, Ohad não foi parte do processo de fazer o filme. O começo foi difícil. Muitas vezes fui ao estúdio de dança e ele dizia: “me desculpe, hoje não”. Eu disse a ele que, se eu não pudesse entrar no estúdio, eu não tinha interesse no filme, porque eu queria mostrar ao publico o processo de criação. Inclusive, algumas das partes mais fortes do filme são os momentos em que ele trabalha com os dançarinos. Eu precisava estar lá, testemunhar o que estava acontecendo, para que eu pudesse decidir o que era interessante ou não. Não cabia a ele decidir. Eventualmente, ele acabou permitindo que fôssemos ao estúdio. Nós precisávamos passar para os dançarinos, por exemplo, a sensação de que éramos parte da companhia de dança, porque Ohad tinha uma preocupação muito grande em não permitir que atrapalhássemos o processo de criação e de intimidade dele com os dançarinos. Não poderíamos ser notados. A mesma relação que o filme mostra entre o coreógrafo e os dançarinos, Ohad e eu precisamos desenvolver também. Acredito que, em algum momento, ele se entregou e confiou em mim.

Cine Set: Você disse alguma vezes, durante esta entrevista, que Ohad não queria o filme.

Heymann: Não queria de jeito nenhum.

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Cine Set: Como você o convenceu?

Heymann: Eu não desisti. No fim das contas, foi a minha obsessão que o fez ceder. Mas acredito que, quando ele se tornou pai, algo mudou. Ele tinha 58 anos, o que não é uma idade jovem para ser pai. Quando tivemos um dos conflitos sobre o quanto filmar e mostrar dos ensaios, chamei Ohad para conversar e disse que ele tinha que ser honesto com si mesmo. Eu disse: “quando sua filha tiver 20 anos, você terá quase 80. Nem mesmo você viverá para sempre. Você não será o tipo de pai que sentará com a filha e contará a própria história. Ou você vai esquecer, ou será tedioso. Este filme talvez seja a única maneira de ela conhecer sua criação e pode ser o maior presente que ela já recebeu. Ela saberá a história do pai antes de ele se tornar o grande nome que é”. Não sei se ajudou. Ele não respondeu nada na hora, mas prefiro acreditar que sim.

Cine Set: Qual foi a reação dele ao filme?

Heymann: Ele ficou bem emotivo. Convidei Ohad para assistir [ao documentário] na ilha de edição. Ele não fazia ideia do que eu tinha passado oito anos fazendo e por que levou tanto tempo. Ele não sabia que eu tinha tantas imagens de arquivo e como eu tinha conseguido acesso à elas. Ele chorava, ele gargalhava, ele se mexia. Foi algo muito forte. Ele disse: “estou envergonhado. Não me reconheço, mas ao mesmo tempo me reconheço. Gosto de mim mesmo e não gosto de mim mesmo”. Depois de um tempo, tivemos um grande lançamento e perguntaram a Ohad o que ele tinha achado do resultado. Ele respondeu: “eu aprecio o trabalho de Tommer como artista, é um cara sério e honesto, mas eu teria feito um filme completamente diferente sobre a minha vida”.

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Cine Set: Você disse anteriormente que uma das propostas do filme era trazer pessoas que não fazem parte do mundo da dança para assisti-lo. A ideia de que qualquer um pode se sentir maravilhado pelo trabalho de Ohad. Que tipo de feedback você tem tido neste sentido?

Heymann: As pessoas que costumam ir ao Batsheva são fãs de Ohad, são capazes de reconhecer a dança e a história por trás dela porque viram ela ser construída. Cheguei a fazer uma primeira versão do documentário, que me fez bater na cabeça e pensar: “eu não gosto deste filme. Por que estou falando apenas com as pessoas que já estão convencidas a amá-lo?”. Eu me forcei a mudar, deletei tudo da minha mente. Cheguei na sala de edição, certa manhã, e, com a ajuda de três editores, pensei sobre o filme. Eu precisava construir a narrativa com a mente de alguém que nunca tivesse visto Ohad, contar a história de modo a aproveitar as várias camadas que ela tem, da mais profunda à mais superficial. Com o resultado final, você pode tanto entender melhor coisas que você já sabia sobre Ohad, como também descobrir um novo mundo do qual você talvez nunca tenha ouvido falar. Tem sido incrível acompanhar as reações ao redor do mundo, após assistirem ao filme. Algumas pessoas passam a amar Ohad, outras não gostam, acham que ele é muito rígido. Não importa. É um bom sinal ter diferentes feedbacks sobre o filme.

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