Com “Um homem chamado Ove” (Enman som heter Ove, 2015), a Suécia vai, em 2017, na contramão das indicações vitoriosas do país na categoria de Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Explica-se: no passado, o país ganhou ao todo seis vezes o prêmio, sempre com dramas densos, tais como “Através de um espelho” (Såsom i enspegel, 1961), de Ingmar Bergman, ou “A Festa de Babette” (Babettesgæstebud, 1987), de Gabriel Axel. Agora, chegou a vez da comédia, embora uma sem a leveza que se costuma associar ao gênero.

No longa de Hannes Holm, o personagem título é uma figura que, de início, demanda um esforço a mais para que se gere a empatia necessária ao espectador para se sentir próximo dele e de sua história. Ove (Rolf Lassgård) é um velho ranzinza e obcecado em manter a ordem no pequeno conjunto habitacional em que vive. De início, não sabemos se a naturalidade com que os demais moradores veem o comportamento dele se deve a costume ou à frieza nas relações que nós, sendo de outra cultura, atrelamos aos nórdicos. Ao mesmo tempo, a estrutura narrativa, bastante semelhante a de comédias dramáticas populares norte-americanas, ajuda a nos manter determinados a acompanhar a jornada de Ove, o que rapidamente se mostra uma boa empreitada quando a trama deslancha.

A demissão de Ove, aliada ao recente falecimento da esposa, Sonja (Ida Engvoll), são o estopim para uma série de tentativas frustradas (e cômicas) de suicídio, sempre interrompidas porque o protagonista não consegue ver algo fora dos conformes ao seu redor. Seja na atrapalhada rotina do casal inter-racial Parvaneh (Bahar Pars) e Patrick (Tobias Almborg), seja a presença de um gato que insiste em adentrar no “território” de Ove, tudo é desculpa para que ele retorne ao passado, o que explica porque ele é como é e porque decidiu dar um fim na própria vida.

Simples sim; simplório não

É nesse momento que a comédia de humor negro se abre ao drama. A partir daí, o filme consegue equilibrar essa dobra graças, primeiramente, ao excelente trabalho de Filip Berg como o jovem Ove, emulando muito do que vemos com Lassgård. O personagem em sua faceta trágica, porém delicada e introspectiva, floresce de maneira mais explícita nesses longos flashbacks, mesmo porque o arco de sua juventude é mais claramente pontuado de momentos de transformações íntimas.

A relação de Ove com a esposa também é essencial nesses momentos. Ainda que a personagem feminina falhe em apresentar uma densidade maior – ela é um flat character de primeira – o sorriso cativante de Engvoll torna difícil não simpatizarmos com ela, facilitando o entendimento da dinâmica tão natural aplicada a um casal de opostos. O mesmo ocorre quando Ove se aproxima de Parvaneh, desenrolando uma relação que sai do terreno previsível da antipatia e do choque de gerações e cultura (ela é de origem iraniana), comumente usado na comédia e que não raro descamba para representações preconceituosas.

Novamente, é na relação de Ove com o estranho que desperta a humanidade e bondade interior que ele tão constantemente não consegue expressar, criando um laço afetivo, paternal, que posteriormente também é explicado no recurso de flashbacks. Nesse sentido, é interessante como “Um homem chamado Ove”, um filme sobre um idoso em conflito com uma realidade que não parece acompanhar, contrasta com outro filme popular europeu de alguns anos atrás, o francês “Que mal eu fiz a Deus?” (Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu?, 2014).

Enquanto que nesse último as diferenças de cultura, religião e idade eram o motor para piadas racistas, em “…Ove”, é a personalidade introspectiva e as dificuldades de comunicação do protagonista o principal responsável pelas situações cômicas. Logo, quando ele critica a comida de Parvaneh (o arroz com frango temperado com açafrão), ele o faz não por ser iraniana, mas porque ele detesta sair da rotina que estabeleceu para si; quando pergunta a Mirsad (Poyan Karimi) se ele é gay, ele literalmente quer saber apenas isso, e não julgá-lo. O roteiro de Hannes Holm e Fredrik Backman (este último o autor do livro que deu origem ao longa) não procura risos chulos, ainda que “Um homem chamado Ove” tenha uma pegada extremamente popular em formato e narrativa, o que é um mérito do filme, que consegue ser bastante simples, mas nunca simplório. No longa, o diferente assusta por ser um desafio à zona de conforto do protagonista, zona essa que ele precisa transpassar para vivenciar a felicidade novamente.

Apoio de primeira

A trama tragicômica de Ove funciona em ambas as situações: há segmentos do passado de Ove que realmente nos dá vontade de chorar tanto quanto morremos de rir de suas tentativas frustradas de suicídio. Porém, nada disso funcionaria tão bem se não fosse a trupe de personagens de apoio e o quão funcionais eles são para a trama sem isso ficar na cara. O noção de comunidade formada por eles influencia diretamente a mensagem final da comédia, além de ser a garantia da maioria das risadas no filme.

A família de Parvaneh, com as duas filhas (Nelly Jamarani e Zozan Akgün) e um terceiro bebê a caminho, é essencial para que Ove ganhe um arco transformador, ainda que o marido dela, Patrick, seja um tanto quanto mal utilizado. Tal como ele, a personagem da vizinha com o cachorrinho detestado por Ove também não diz a que veio, assim como a jornalista interpretada por Anna-Lena Brundin. Em compensação, a relação de Ove e o outro vizinho perfeccionista, Rune (Börje Lundberg) traz algumas tiradas bem engraçadas ao filme. O filho de Rune, o avoado Jimmy (Klas Wiljergård) também atua como recurso cômico sutil – e, de quebra, ainda mostra que um gordinho pode ser engraçado sem necessariamente a única piada possível é ele estar acima do peso, uma lição que muitas comédias populares precisam aprender urgentemente!

“Um homem chamado Ove” dificilmente ganhará como Melhor Filme Estrangeiro nessa edição do Oscar. Porém, isso está longe de ser um demérito. Com sua pegada de direção concisa, mensagem positiva sem ser bobinha, piadas que não apelam para o puro senso comum ou preconceito e que ainda assim são engraçadas, o filme desponta como uma excelente opção para uma sessão relax com a família, dentre risos e algumas lágrimas, aproveitando justamente aquilo que o longa mostra como maior valor na vida – a companhia uns dos outros.