Em abril de 2018, o cinema perdeu o diretor Milos Forman, realizador de alguns dos filmes mais questionadores e emocionantes das últimas décadas, como Os Amores de Uma Loira (1965), Um Estranho no Ninho (1975), Hair (1979), Na Época do Ragtime (1981), Amadeus (1984), O Povo Contra Larry Flynt (1996)… Todos altamente recomendados: se você nunca os viu, caro leitor, vá atrás. Forman foi realmente um dos grandes. Porém, foi um diretor de inegáveis altos e baixos, e um dos seus filmes foi um fracasso de bilheteria na época do lançamento: Valmont, Uma História de Seduções (1989), tema do nosso Advogado de Defesa de hoje.

Ninguém viu Valmont porque Forman era lento e um ano antes o público viu a mesma história em Ligações Perigosas (1988), que foi dirigido por Stephen Frears. Neste Advogado de Defesa quero comparar um pouco as duas obras e também, espero, ajudar alguém a lembrar um pouco do filme de Forman. Para se ver como o cinema é complexo, considero Valmont mais “redondo” que Ligações Perigosas, um filme mais “aprumado”. Mas é melhor? Não sei dizer. Talvez sim. Bem, no fim das contas talvez dependa do gosto do freguês, caro leitor.

Ambos são baseados na obra do autor Chordelos de Lachlos: Na corte da França do século XVIII, uma aposta erótica entre a Madame de Merteuil e o Visconde de Valmont acaba tendo consequências imprevisíveis para todos ao redor deles. O filme de Frears era baseado tanto no livro quanto na peça de teatro derivada do autor Christopher Hampton; já a versão de Forman foi roteirizada pelo próprio, em parceria com o grande Jean-Claude Carrière, escritor, filósofo do cinema e também roteirista de clássicos como A Bela da Tarde (1967) e A Insustentável Leveza do Ser (1988).

Forman sempre adorou o romance e teve planos de adaptá-lo por bastante tempo. Porém, era daqueles cineastas notórios por não se apressar quando trabalhava num projeto. Quando Valmont começou a ser preparado, Forman já sabia que estavam desenvolvendo Ligações Perigosas, mas não se importou, achou que haveria lugar para ambos na consciência do público de cinema. Ele estava errado, porque não poderia esperar que Frears iria reunir um elenco matador para o seu filme: Glenn Close, John Malkovich, Michelle Pfeiffer e Uma Thurman.

Valmont sempre me pareceu, no entanto, um filme mais “humano” que Ligações Perigosas. No filme de Frears, Merteuil e Valmont, vividos por Close e Malkovich, são praticamente alienígenas, esfinges para os quais o filme até confere humanidade, mas os mantêm cínicos, frios e à distância, mesmo assim. No filme de Forman, eles são vividos pelos mais acessíveis Annette Bening e Colin Firth, alguns anos antes de eles ficarem famosos. Ambos estão estupendos nos papéis. É mais fácil se relacionar com eles e graças a ambos a história fica um pouco mais leve, ainda sombria, mas acrescida de pitadas de humor. O público relaxa mais na presença de Annette e Colin e, me atrevo a dizer, se aproxima mais do clima de safadeza e irresponsabilidade dos personagens. Afinal, a história é em si uma sátira, uma visão sobre as hipocrisias da sociedade a respeito da sexualidade e do casamento, e Forman, que sempre foi satírico e manteve um pé na comédia em todas as suas obras, encontra nos seus dois atores principais o veículo perfeito para essa visão irônica. E convenhamos, Forman era um cineasta muito, muito superior a Frears.

O elenco de apoio de Valmont é outra grande qualidade do filme. A subestimada Meg Tilly fica com o difícil papel da Madame de Tourvel, vítima das artimanhas de Valmont, e confere uma humanidade à personagem que a torna muito vulnerável aos olhos do espectador – de novo, por mais que admire a atuação de Michelle Pfeiffer no papel em Ligações Perigosas, não consigo deixar de pensar que a atuação e presença de Tilly são mais tocantes. Completando o elenco, Fairuza Balk, Jeffrey Jones e Henry Thomas se mostram também perfeitos em seus papéis. Como se pode ver, foi um pouco arriscado fazer Valmont com esse elenco, pois à época nenhum dos atores do filme eram grandes astros – até hoje alguns deles não são tão conhecidos. Mas esse elenco contribui para a sutileza de Valmont, que é outra das suas qualidades.

Forman dirige com aquela sua técnica invisível – não há grandes movimentos de câmera ou invencionices técnicas, até a direção de arte e os figurinos, embora precisos, são mais discretos do que geralmente se espera nessas grandes produções de época, e menos luxuosos que os de Ligações Perigosas, com certeza. É um filme sutil que deixa sua história e seus personagens tomarem a dianteira, sem grandes floreios ou exageros. Talvez isso, junto com a lembrança do concorrente marcante de um ano antes, tenha selado o destino de Valmont nas bilheterias: afinal, nem sempre sutileza se traduz em dólares na arrecadação.

Ainda assim, é um filme que vale a pena ser visto, revisto ou descoberto. Realmente, comparar Valmont com Ligações Perigosas é, em muitos aspectos, injusto. É claro que a maioria do público vai preferir ver a versão “rock’n’roll” da história, com grandes astros em desempenhos explosivos e merecidamente indicados ao Oscar. Mas isso não é motivo para se desprezar a versão “música clássica” dessa mesma história, pois ela também tem suas qualidades e pode, ao final, ser um pouco mais recompensadora que a outra, até mais irônica e divertida. Ironia, diversão e sátira foram elementos que definiram a filmografia de Milos Forman, que merece ser cada vez mais apreciada. Valmont, em especial, merece um pouquinho mais de amor – o filme, não o personagem, claro.

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