Tanto quanto contar uma história, os filmes trabalham diretamente com a criação de uma atmosfera para envolver o espectador. Nesse sentido, a escolha de cores, planos, texturas, luz e outros elementos não se dá por acaso, mas sim na tentativa de envolver quem assiste ao filme de maneiras para além do simples desenvolvimento da empatia entre o público e um protagonista.

Em “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, essa construção é levada ao extremo. O filme é um quebra-cabeça de sobras de imagens de um documentário anteriormente realizado pelos diretores Marcelo Gomes (de “Cinema, aspirinas e urubus”) e Karim Aïnouz (de “Madame Satã” e “Praia do futuro”), o média metragem “Sertão de Acrílico Azul Piscina (2004).

Mas “Viajo…” não é, ele próprio, um documentário. Os takes são amarrados pela narrativa de seu protagonista, João Renato, cuja voz apenas ouvimos em off (narração de Irandhir Santos), um geólogo que viaja pelo sertão nordestino em estudo para a construção de um canal. Nesse percurso, ele percebe as semelhanças entre a atmosfera desoladora dos lugares por onde passa e sua solidão e saudades de sua amada que o abandonou.

Curioso perceber como o off, um recurso que se apresenta como saída fácil em produções de baixo orçamento (vide vários curtas locais), surge de maneira tão original em “Viajo…”. Longe de ser usado de maneira explicativa, monótona ou redundante, o texto dá uma dimensão completamente nova às imagens que vão surgindo na tela, imagens essas que, isoladas, provavelmente não causariam impacto emocional. Nesse caso, a participação de Irandhir Santos faz toda a diferença, pois ele está longe de simplesmente ler o texto que lhe foi dado, conferindo entonações que dão conta de casar o que se ouve, o que se vê e a tal atmosfera do filme de maneira orgânica, natural.

A amarração de pedaços inicialmente tão desconexos ganha auxílio com a escolha da trilha sonora musical do filme. “Viajo…” é recheado do tipo de música que toca na rádio repetidas vezes em longas viagens pela estrada, como “Morango do nordeste”, de Laírton dos Teclados, “Sonhos”, de Peninha, ou “Esta cidade é uma selva sem você”, de Bartô Galeno, além das várias músicas de Chambaril. Todas elas ajudam a construir, lentamente, o estado de espírito de Renato, que sai, aos poucos, da voz mecânica de quem confere seus instrumentos de trabalho para a melancolia de tentar fugir de seu coração partido.

Percebe-se então que a chave para realizar um filme como “Viajo…” é a edição, ou seja, a junção e ordenação dos pedaços do quebra-cabeça de Gomes e Aïnouz. O cuidadoso exercício coube à Karen Harley, que faz um verdadeiro trabalho de costura de imagens que perpassam do super 8 ao digital para contar a fuga de Renato. Em nível de visualidade, as diferentes texturas acabam contribuindo, tanto quanto a narração que vai se intensificando, para não tornar o filme cansativo, embora ele não seja dos mais fáceis de digerir para o púbico médio. No geral, o sucesso dessa montagem é atingido, uma vez que o encaixe entre lugar e estado de espírito vai se firmando com naturalidade no desenrolar do filme, sendo apenas interrompido brevemente pela escolha de quebra da narrativa com a inserção de um depoimento de uma mulher chamada Patrícia, o que destoa da unidade vista no resto do filme.

“Viajo porque preciso, volto porque te amo” surge como o terceiro longa de Aïmouz e o segundo de Gomes, e dizer se esse filme é o melhor ou o pior da carreira de ambos é uma questão puramente subjetiva, dependendo da inclinação do espectador para produções experimentais. O que não se pode negar é como a fita surge enquanto exercício de cinema, levando um subgênero como o dos Road movies a uma nova dimensão fílmica, criando algo de original dentro do que já se mostrava pré-estabelecido. Vale a viagem.

Nota: 8,0

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