Falando em oportunidades perdidas: há quase uma década em diferentes estágios de produção, a versão hollywoodiana de Ghost in the Shell, o clássico mangá (e depois anime) de Masamune Shirow, com sua mistura fascinante de sci-fi, existencialismo e filosofia oriental (o precursor mais decisivo de Matrix [1999], que reinventou o cinema de ação americano) finalmente chega aos cinemas, com o nome de A Vigilante do Amanhã – e, para desalento geral, sendo uma franca vulgarização da matriz japonesa, com apenas um fino verniz da inteligência e complexidade originais.

Há muito um patrimônio dos fãs de ficção científica – e também daqueles que conhecem o valor do anime como grande cinema, com temáticas adultas e uma riqueza visual e de ideias que não raro superam seus primos em live action –, Ghost in the Shell (principalmente a versão animada de Mamoru Oshii, de 1995 [lançada no Brasil com o nome de O Fantasma do Futuro]) é talvez o filho mais ilustre de Blade Runner – O Caçador de Androides (1982), a obra-prima do diretor inglês Ridley Scott. Se aquele filme era pioneiro em combinar uma meditação ética e existencial sobre robótica (se os androides foram criados à imagem e semelhança humanas, e programados para desenvolver emoções afins, o que os diferenciaria de nós?) a uma ideia de futuro tão pessimista quanto mesmerizante (a sujeira e a superpopulação no rés-do-chão, a presença massiva da propaganda em gigantescos outdoors digitais, o panculturalismo com forte influência oriental), a obra de Shirow acrescentava ao caldo uma distinta visão japonesa, simultaneamente mais violenta e mais contemplativa, e adensada com ideias da filosofia oriental sobre natureza e alma.

Na versão atual, Mira Killian (Scarlett Johansson), conhecida como Major, é uma assassina de elite de um grupo secreto do governo empenhado em combater terroristas. Ou, ao menos, ela foi programada assim: depois de um ataque sofrido por Killian na juventude, tudo o que restou de seu corpo original foi o cérebro, transplantado para uma moldura ciborgue, com habilidades impossíveis a qualquer ser humano. Nessa Tóquio do futuro, o aperfeiçoamento digital é corriqueiro, e até incentivado, permitindo desde a implantação de fígados artificiais, que abolem o conceito de ressaca, a olhos que enxergam não apenas cores e formas, mas também calor e raios infravermelhos. Mira, porém, é o primeiro ciborgue “humano”, por assim, dizer, ou a primeira consciência humana a habitar um corpo cibernético. As implicações dessa natureza, a possibilidade de uma essência “humana” num corpo totalmente mecanizado e guiado por códigos, eram a matéria-prima no original de Shirow. Aqui, infelizmente, elas são apenas uma tentativa de dar alguma profundidade a uma narrativa mais interessada em correria, explosões e efeitos especiais elaborados.

Trata-se de uma versão americana, no pior sentido possível, confirmando a ideia de que todo enredo de ficção científica vira Transformers nas mãos de Hollywood: tudo é raso e entregue mastigadinho ao espectador, com intermináveis diálogos expositivos (contei pelo menos cinco vezes em que disseram ao personagem de Scarlett que ela é a primeira de sua espécie); todo momento que sugere alguma ideia séria, ou uma relação minimamente palpável entre os personagens (como as cenas entre Killian e a Dra. Ouelet, a cientista vivida por Juliette Binoche) é logo descartado para dar lugar a um novo tiroteio em slow motion; os personagens secundários, à exceção de Batou (o carismático Pilou Asbæk, de Game of Thrones, aqui lembrando o Kiefer Sutherland de Os Garotos Perdidos) e Ouelet, são meros rascunhos, completamente irrelevantes à trama, e isso também vale para Takeshi Kitano (o grande diretor de Hana-bi: Fogos de Artifício), que vive o chefe da divisão de assassinos, e Michael Pitt (Os Sonhadores), abertamente entediado como o ressentido Hideo Kuze; e, o pior de tudo, agora há um vilão convencional (Peter Ferdinando), que dispara frases de efeito e sai matando os personagens para não perder seus contratos com o governo.

Se há, de fato, boas ideias no filme, elas vêm todas do anime de 1995, sem tirar nem pôr: a Tóquio hipercolorida mas desoladora, cheia de anúncios monumentais e prédios idem, para abrigar os pobres; sequências inteiras, como a do motorista de caminhão “hackeado” e a luta na água, com Killian tornada invisível; e os poucos momentos mais densos da obra.

Diante de tantos problemas, a escolha de Scarlett, branca e de olhos azuis, para viver uma personagem oriental, com nome japonês, não parece tão absurda – um rosto reconhecível pelo público americano médio seria uma aposta segura da DreamWorks, o estúdio por trás do filme, além do fato de que a própria protagonista, no anime, é uma mulher branca de olhos claros –, mas a questão é pertinente, e a cobrança a Hollywood é positiva. A atriz, que já havia se saído muito bem tanto na ação (Lucy) quanto na ficção científica (Ela, Sob a Pele) é uma escolha natural, mas nem a curiosidade e destemor característicos de Scarlett conseguem dar vida a A Vigilante do Amanhã: como a outrora Motoko Kusanagi, presa no corpo da Major Killian, Johansson tem o talento e a inteligência tolhidos pelo material genérico em que se converteu a versão americana de Ghost in the Shell. Tomara que, pelo menos, mais gente descubra o anime e o mangá por causa deste filme.

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