Atenção: O texto contém spoilers.

Inclusion Rider.

A expressão de apenas duas palavras proferidas por Frances McDormand ao final de seu discurso no Oscar é, apesar de sua importância óbvia, reveladora acerca do cinema e da televisão. Ela afirma que existe uma necessidade de garantir a participação feminina de forma efetiva na indústria, assim como de outras minorias.

Isso demonstra um efeito dominó muito comum neste meio: produções sem diversidade em sua equipe reproduzindo conteúdos com pouco ou nenhum engajamento social ou representatividade. Enquanto muitos estúdios estão engatinhando neste novo boom de representação, outros já se beneficiam como precursores do movimento e àqueles a serem copiados.

Esta demanda por um diálogo mais direto e próximo do espectador surge como substancial para a produção televisiva, exigindo que seu público acompanhe a programação a longo prazo. Tudo isto somado à ascensão dos mais variados serviços de streaming se apresentam como uma afirmação de poucas variáveis: não se pode errar na tentativa de agradar o público.

Surge então, a necessidade de tornar a representatividade e o protagonismo feminino efetivo em uma parcela das produções na televisão, efeito visto em “The Handmaid’s Tale”, “Game of Thrones”, “How to Get Away With a Murder”, “The Crown” e tantas outras. Entretanto, o discurso muda quando falamos de séries históricas. Ao retratar épocas com diferentes níveis de conhecimento e costumes, é comum encontrar personagens femininas reduzidas à donzelas e donas de casa, ou pior, vítimas constantes de violência justificada por seu gênero. É aí que chegamos até Vikings.

Com a proposta de reproduzir as aventuras épicas do fazendeiro que se tornou rei, Ragnar Lothbrock (Travis Fimmel), a série também aborda a cultura nórdica e sua religião em comparação com a presença cristã da época. Independente do cenário retratado, as poucas mulheres presentes na trama gradativamente ganham espaço apresentando fortes motivações ligadas a sua presença e afirmação em meio aos estigmas decorrentes na época. No meio viking, além de fazendeiras e mulheres de condes, a figura feminina também aparece atrelada às escudeiras (shieldmaidens), mulheres que realizavam saques e lutavam por parte do exército viking.

O grande mérito na abordagem deste grupo é o próprio fato da série naturalizar sua representação, sendo vista por meio de cenas e frames de mulheres lutando ao lado de homens sem a necessidade de um discurso explicativo. Além disso, a não aceitação da violência contra mulher também se torna uma narrativa decorrente em meios às temporadas, muito disto apresentado por uma única personagem.


Escudeira e Rainha

No início da série, Ragnar é casado com Lagertha (Katheryn Winnick), que, assim como seu marido, sempre demonstrou interesse por invadir terras e lutar junto com seu povo. Apresentada inicialmente como também uma simples fazendeira, esta personagem se torna o centro do protagonismo feminino em Vikings, tanto por sua postura e escolhas quanto pelo discurso que assume.

Restrita à história de Ragnar na primeira temporada, Lagertha alcança outros objetivos no decorrer da série. Assim, ela não se limita apenas a ser companheira do protagonista, assumindo decisões que contrariam os clichês sobre a fragilidade propriamente feminina (como amor pelos filhos e marido). Na busca por sua autonomia, a personagem permeia conflitos e situações relacionadas a autoafirmação de sua posição em um cenário repleto de homens.

Mesmo sabendo lutar de forma exímia, Lagertha se torna alvo da violência doméstica mais de uma vez, enfrentando também diferentes personagens que constantemente questionam sua autoridade. Ambos casos são retratos comuns da mulher em diferentes épocas, a forma que a personagem lida com todos estes fatores, entretanto, é o que se traz o empoderamento para sua jornada. Assim, a figura feminina aqui retratada em uma realidade tão distante é, ao mesmo tempo, relacionável com os problemas enfrentados pelas mulheres mesmo no século XXI.

Em muitos momentos a audiência chega a se perguntar por que Lagertha não reage e de que forma ela consegue se manter refém de maus tratos. O ponto de virada, porém, apresenta a personagem não apenas livre da antiga realidade como também em busca de uma posição em que possa se certificar que isso não mais ocorra. E a sororidade vislumbrada logo na primeira temporada, retorna ao passo que Lagertha oferece armas e treinamento para outras mulheres, criando um exército de escudeiras.

Durante sua caminhada de superação, a escudeira passa por diferentes títulos até assumir o reinado de seu antigo marido, Ragnar. A lendária frase proferida pelo heroi “Quem quer ser rei?” nunca foi efetivamente respondida na série, permanecendo sem resposta, afinal, nenhum outro rei assume após Ragnar, e sim uma rainha. Apesar dos problemas de roteiro em certas atitudes nas temporadas mais recentes, suas decisões refletem questões atuais e inserem um protagonismo feminino de fato representativo. Assim, que novas Lagerthas sejam retratadas e respeitadas na ficção e na realidade.

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