Em meados dos anos 2000, o diretor Bryan Singer abandonou a franquia X-Men, da qual ele dirigiu os dois primeiros filmes, para comandar o fraquinho Superman: O Retorno (2006). Hoje em dia, colocando em perspectiva, pode-se notar como X-Men: O Filme (2000) e X-Men 2 (2003) foram importantes para o subgênero dos super-heróis no cinema. Singer estruturou um universo fantástico naqueles filmes, baseados nos personagens de sucesso dos quadrinhos Marvel, e levou esse universo a sério. Como resultado, a franquia dos heróis mutantes representou a primeira vez, em anos, em que o publico podia ver personagens das HQs na tela grande e não sentir vergonha.

Quando Singer saiu, a franquia continuou, mas patinou um pouco. O terceiro filme, X-Men: O Confronto Final (2006), dirigido por Brett Ratner, foi apenas mediano. Os dois longas do herói Wolverine em “carreira-solo” também não empolgaram muito: o primeiro foi bem ruim e o segundo conseguiu ser apenas morno. As coisas só voltaram a ficar interessantes com X-Men: Primeira Classe (2011), dirigido por Matthew Vaughn. O filme representou a primeira “volta no tempo” da série, mostrando a juventude dos personagens Charles Xavier (James McAvoy) e Erik Lensherr, o Magneto (Michael Fassbender). Vaughn, dotado de um estilo mais dinâmico, criou imagens mais incríveis do que Singer conseguiu e acabou realizando o melhor filme da série.

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x-men dias de um futuro esquecido pôster promocionalSinger, por outro lado, não fez nada digno de nota depois que deixou os X-Men. Voltar no tempo para corrigir erros do passado é um sentimento muito humano, e com certeza isso devia estar na mente do diretor ao conceber seu retorno ao universo dos mutantes. Em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, Singer volta à cadeira de diretor – ele foi produtor em Primeira Classe – para contar uma história de viagem no tempo, agora literal. A trama, aliás, é baseada numa das mais populares histórias em quadrinhos dos X-Men.

A história deste novo filme começa num futuro sombrio, que dá ao espectador a impressão de estar vendo O Exterminador do Futuro (1984). Vemos uma Nova York destruída, pessoas sofrendo e gigantescos robôs escravizando a humanidade. Até o chão está repleto de crânios – claro! Os robôs se chamam Sentinelas e foram criados pelo cientista Bolívar Trask (Peter Dinklage) para combater a ameaça dos mutantes – afinal, a primeira reação da humanidade é sempre querer destruir o que é diferente. Mas com o tempo, os Sentinelas atacaram os humanos “normais” também. Apenas um pequeno grupo de mutantes resiste, comandado pelos velhos adversários Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen).

Presos numa situação cada vez mais desesperadora, os heróis se reúnem numa velha igreja – o cenário adiciona um curioso subtexto de renascimento e expiação dos pecados à narrativa. Lá, eles concebem um plano audacioso: mandar para o passado a consciência de Wolverine (Hugh Jackman), para que ele, em 1973, tente impedir o evento que iniciou toda a ameaça dos Sentinelas, o assassinato de Trask. A morte do criador dos robôs originou uma histeria contra os mutantes, e caso Trask realmente morra, o futuro sombrio dos X-Men se tornará real. Para ajuda-lo, Wolverine só conta com as versões jovens de Xavier e Magneto, novamente interpretadas por McAvoy e Fassbender, respectivamente. Porém, Magneto pode ter outros planos…

A primeira coisa que precisa ficar clara quanto a Bryan Singer é que ele é um diretor “nerd”. Ele faz de Dias de um Futuro Esquecido um filme mais de ficção-científica do que propriamente de ação, com diversas referências a vários exemplares do gênero. Apesar da inspiração óbvia para o futuro sinistro ser o já mencionado O Exterminador do Futuro, a trama do longa segue as regras de viagem no tempo de De Volta para o Futuro (1985). Os personagens se debatem frequentemente sobre a possibilidade de mudar o futuro, e acreditam nessa possibilidade. E uma modificação no passado cria todo um novo futuro.

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Outra grande inspiração é o clássico episódio de Jornada nas Estrelas, “A Cidade à Beira da Eternidade”, que também envolvia viagem no tempo e a morte de um personagem como evento catalisador de um futuro terrível. Para deixar a conexão mais óbvia, Singer mostra um episódio antigo de Jornada passando numa TV – ele é um conhecido fã da série. Até a introdução de Patrick Stewart no filme é idêntica à abertura de Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato (1996), que também mostrava uma… viagem no tempo! O filme é cheio dessas referências, e também mistura fatos históricos com a mais pura fantasia: a explicação para o assassinato do presidente John Kennedy, no universo dos X-Men, faz o espectador dar umas risadas…

Mas, acima de tudo, é um filme que reflete sobre os 14 anos de X-Men nas telas e sobre os 6 longas anteriores, e se dedica a consertar alguns  furos na cronologia da franquia que já estavam começando a se acumular. O roteiro de Simon Kinberg consegue explicar como Xavier volta a andar depois de Primeira Classe, retoma alguns pontos nebulosos da história de Wolverine, e traz de volta personagens (e atores) marcantes da história da franquia, até alguns já mortos – é a mágica da viagem no tempo. Claro, o roteiro não consegue arrumar tudo, mas as soluções encontradas são todas elegantes e às vezes até bem humoradas, e é sempre bom quando um filme desse tipo consegue rir de si mesmo.

O roteiro também faz dos personagens e suas interações a verdadeira força do filme, deixando os efeitos e as cenas de ação em segundo plano. Hugh Jackman, apesar de ser o primeiro nome nos créditos, é apenas a “cola” que une os elementos do roteiro, pois os atores de maior destaque no filme são McAvoy, Fassbender e Jennifer Lawrence como Mística – afinal, a agora vencedora do Oscar teria que ter uma participação maior.

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No entanto, por mais que esses atores estejam ótimos, quem rouba a cena quando aparece é o personagem Mercúrio vivido por Evan Peters. Jovial e engraçado, o mutante ultra-veloz protagoniza a cena mais incrível do filme, do ponto de vista dos efeitos, quando um tiroteio numa cozinha dá ao personagem a chance de se mover mais rápido que qualquer coisa ao seu redor. E quando o filme se concentra nos efeitos e na ação, ele é sempre superlativo: a luta contra os Sentinelas no início e o plano de Magneto no final impressionam o espectador pela grandiosidade e pela dramaticidade.

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Apesar do humor, a história toca em alguns temas bem sérios, como é de praxe na série. O plano de Trask representa o medo da humanidade elevado à última potência, mas suas atitudes não são compreensíveis? Afinal ele quer se proteger, e aos demais seres humanos, e até demonstra uma admiração pelos mutantes. Do outro lado, o jovem Magneto adota uma visão igualmente extrema, e no fundo esses dois pontos de vista só causam a destruição. É Xavier que precisa apontar outro caminho e mostrar que há chance de entendimento. Ele é o verdadeiro protagonista de Dias de um Futuro Esquecido, e o melhor momento da projeção ocorre quando os dois Xaviers se encontram. “O maior poder humano é a esperança”, diz o velho Xavier para iluminar o caminho da sua versão mais nova, e essa é a grande mensagem do personagem e do filme, algo importante nos tempos que vivemos.

Por isso mesmo, não deixa de ser curioso o fato de Bryan Singer fazer de Dias de um Futuro Esquecido seu melhor trabalho em anos. Aqui, ele reflete sobre toda a cinessérie dos X-Men, ao final cria um novo caminho pelo qual a franquia pode seguir, e de certa forma também volta no tempo, a uma época na qual ele era um cineasta muito interessante. Os erros do passado não são tão facilmente apagados como na ficção, mas pelo menos quanto às suas qualidades como cineasta, agora podemos voltar a ter esperança em Singer.

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