É difícil não cair no lugar comum de traçar um paralelo entre “You Were Never Really Here” e “Taxi Driver”. Assim como na obra-prima de Martin Scorsese, o filme novo de Lynne Ramsay mergulha nos demônios de um  veterano de guerra posto lado a lado com uma jovem vítima do crime. O drama protagonizado por Joaquin Phoenix, no entanto, é um estudo de personagem de densidade única com ecos do cinema de Scorsese e também de Nicolas Winding-Refn, mas com o peso de um filme que só Ramsay poderia levar às telas.

No filme, Phoenix é Joe, um homem que resgata vítimas de escravidão sexual, ao mesmo tempo em que luta contra as lembranças do tempo em que atuava para o governo.

O trabalho de Ramsay e do diretor de fotografia Thomas Townend são eficientes ao passo em que jogam o espectador dentro de uma ação cheia de idas e vindas, quase que uma extensão do que se passa na mente de Joe. Não há momento para respirar e cada um dos 99 minutos do drama são preenchidos com tensão, seja pela violência em si – tema não estranho ao trabalho de uma diretora que já entregou o pesado “Precisamos Falar Sobre o Kevin” -, seja pela confusão interna do personagem.

Aqui, há de se reconhecer Phoenix como um dos grandes intérpretes da atualidade. Ator que consegue viver Johnny Cash ou um desajustado protagonista apaixonado por um sistema de voz com a mesma entrega e intensidade, ele tem aqui um papel onde sua dedicação ao Método é palpável. A angústia, o medo e a tensão que permeiam cada minuto da existência de Joe no planeta Terra são levadas às últimas consequências por Phoenix e ainda mais evidenciadas pelos paralelos entre os flashbacks e os momentos atuais.

Como o roteiro não entrega Joe de bandeja para o espectador, é Phoenix a chave entre os segredos e nuances do personagem. A relação com as personagens femininas também é trabalhada de forma interessante no drama, e isso não se resume à jovem Ekaterina Samsonov, que interpreta Nina. A  mãe de Joe, vivida por Judith Roberts, aparece em uma cena assistindo “Psicose”, de Alfred Hitchcock, e não dá para não entender o protagonista mais como um Norman Bates do que um Travis Bickle.

Ramsay constrói “You Were Never Really Here” como um caldeirão de referências que nunca parece vazio e está sempre pronto para surpreender até o último minuto de projeção. Sob a batida pesada da trilha de Jonny Greenwood, a cineasta tem neste filme um novo ensaio sobre a violência para fazer par com “Precisamos Falar Sobre o Kevin” e lhe colocar mais uma vez como um dos nomes mais interessantes que o cinema revelou nos últimos 20 anos.

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