Quando exibido no Festival de Cannes, “Anora” teve lá suas comparações com “Uma Linda Mulher”, e também assumo a culpa. Afinal, é a história de uma jovem stripper que se casa com um herdeiro. Mas, a despeito de talvez representar uma virada de chave na carreira de Mikey Madison (assim como o filme de Garry Marshall o foi com Julia Roberts), não sobra muito para colocar dois títulos tão diferentes em uma mesma frase.

“Anora” preserva o caráter do cinema de Sean Baker, um realizador apaixonado pelas histórias de pessoas em posições consideradas “à margem”. Ao se envolver com Vanya (Mark Eydelshtein), a personagem-título entra na mira da máfia russa. Suave. O que poderia ser uma comédia de erros que se perde na ânsia de mostrar 30 situações (absurdas e hilárias) ao mesmo tempo, na verdade se revela um filme sensível, sobre uma jovem que busca a sobrevivência e o que é seu por direito.

É esse encantamento por quem protagoniza seus filmes (pense em ‘Tangerina’, ‘Red Rocket’ e, principalmente, ‘Projeto Flórida’) que Baker conduz o nosso passeio por um filme noturno e com ritmo que conversa com a trilha sonora (que viagem no tempo foi ouvir a “All The Things She Said”, do duo t.A.T.u.!). E o elenco masculino vai além dos estereótipos de máfia, mas é Mikey Madison que realmente carrega as cenas com um magnetismo que me remeteu a uma Marisa Tomei no início da carreira.

Nesse sentido, “Anora” é mais “Meu Primo Vinny” e “Depois de Horas” do que o conto de fadas com Julia Roberts e Richard Gere. É um filme que dá espaço para que a gente se apegue não apenas a protagonista, mas a quem se alia inesperadamente a ela. Ainda que traga aqui ambições maiores, Baker segue como um contador de histórias capaz de fazer um diálogo simples sobre um significado de nome revelar muito sobre diferenças culturais e, principalmente, sobre a confiança que se deposita no outro.