“Vento Seco” estreia no circuito comercial dos cinemas brasileiros em um mundo bem diferente de quando foi formulado inicialmente lá no longuíquo 2013. A chegada de um governo de extrema-direita ao poder e todo o preconceito contra minorias trazido por ele coloca novos ingredientes ao longa dirigido por Daniel Nolasco.

O cineasta retorna à cidade natal, Catalão, no interior de Goiás, para contar a história de Sandro (Leandro Faria Lelo), que, entre trabalho, natação e sexo anônimo, leva uma vida bastante monótona na extensão quente e árida de Goiás no Brasil. Quando Maicon, um desenhista de quadrinhos de Tom of Finland, aparece em sua pequena cidade, sua vida muda para sempre.

Nolasco conversou com o Cine Set sobre a estética do filme repleta de neon, sobre o cinema LGBTQIA+ no Brasil e também sobre as ressignificações trazidas pelo contexto político brasileiro dos últimos anos a “Vento Seco”.

Cine Set – Fale sobre as origens do projeto. Como surgiu o “Vento Seco”? 

Daniel Nolasco – Eu sou de Catalão, no interior de Goiás, e morei lá grande parte da minha vida. Aos 26 anos, me mudei para o Rio de Janeiro para fazer faculdade de cinema na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Nesta minha primeira saída para outro Estado, tive um estranhamento das pessoas praticamente considerarem impossível ter uma vivência LGBT fora de um grande centro urbano. Daí, veio a ideia de fazer um filme sobre isso. 

Além disso, desde os tempos da faculdade, eu faço pesquisas sobre a representação homoerótica ligadas à estética fetichista, principalmente, do BDSM e do Leather. Esta questão perpassa a estética do filme. 

Cine Set – A fotografia do filme, achei incrível. Pode falar um pouco sobre o trabalho do Larry Machado, o diretor de fotografia? 

Daniel Nolasco – O Larry é um parceiro meu com quem trabalho já há algum tempo: os dois documentários em longa-metragem que dirigi, por exemplo, ele era o diretor de fotografia. A tendência do nosso trabalho é a artificialismo com uma pegada mais de cores de neon e uma fotografia oitentista, ligada à estética queer que queríamos resgatar para “Vento Seco”. 

Pensamos também em como a fotografia funcionaria na narrativa, afinal, o nosso protagonista não fala muito e o filme é focado na trajetória dele. Logo, para explorar as sensações e os sentimentos que não são tão externados, acabamos trabalhando muito isso na fotografia. Logo, criamos paletas de cores que simbolizassem o Sandro. 

Por exemplo, usamos muito o rosa, a cor ligada ao personagem do Maicon (Rafael Teóphilo), o qual leva o protagonista à trajetória dele. Trabalhamos também o azul mais frio nas cenas de sonhos e noturnas. Já as sequências de sexo dentro do mundo concreto da narrativa optamos pelo dourado e as cores quentes. 

Cine Set – “Vento Seco” me parece mais interessado nas emoções dos personagens do que em compor uma narrativa, digamos, tradicional. Em alguns momentos não sabemos o que é imaginação ou realidade. Esse é um tipo de experiência que atrai você? 

Daniel Nolasco – Gosto, mas, não tenho nada contra o modelo clássico e filmes que adotam este tipo de narrativa. “Vento Seco”, entretanto, era muito sobre subjetividade, tentando traduzir as emoções dos personagens. Era mais um filme de atmosfera do que preocupado em seguir a estrutura tradicional. 

Particularmente, eu gosto de filmes que sejam prazeres visuais para a gente sentar e se deliciar em relação às imagens sem necessariamente ficar preocupado com a história que está sendo contada.  

Cine Set – O que você acha da produção atual de filmes com temática LGBTQIA+ no cinema brasileiro? Vê uma tendência, um ato de resistência nessa produção? 

Daniel Nolasco – Antes do atual governo, estávamos vendo uma produção LGBTQIA+ diversificada. Era um momento muito interessante resultado de uma descentralização da produção, saindo do clássico eixo Rio-São Paulo. Quando você começa a ver produções de outras regiões, temos perspectivas e experiências estéticas diferentes. 

No Mix Brasil 2019, por exemplo, a mostra competitiva teve de cinco a seis filmes produzidos fora do eixo Rio-São Paulo feitos em estados como Goiás, Minas Gerais, Amazonas, etc. Também havia um debate sobre representatividade sobre quem está fazendo os filmes, as cadeiras criativas, os bastidores. Infelizmente, esta discussão teve uma interrupção abrupta por tudo o que ocorreu no Brasil nos últimos três anos. 

Cine Set – Seu filme não tem um tom político em si, mas só de mostrar relacionamentos homoafetivos sem inibição no Brasil de hoje, ele já acaba adquirindo um caráter político. Como é a experiência de lançar o filme no Brasil de 2021? 

Daniel Nolasco – Engraçado como a História ressignifica determinadas coisas. O projeto de “Vento Seco” começou ainda durante o governo Dilma financiado pelo Prodecine 5, um edital de pesquisa de linguagem extinto na gestão do Michel Temer. O filme foi gravado em 2018 e está sendo lançado agora em 2021 no meio da pandemia. 

Daquela época, o roteiro não mudou nada e a proposta era ser uma pesquisa estética mais do que necessariamente um posicionamento político – apesar de que, claro, estética também é política. Porém, várias coisas que aparecem no filme soam até como provocações sobre o mundo do agronegócio, de se passar em Goiás, um estado onde o bolsonarismo é muito forte.  

Mas, o fato é que a História ressignificou, pois, as imagens já estavam programadas para serem feitas daquele jeito já há bastante tempo. Lançar “Vento Seco” nos cinemas hoje também traz esta conotação de gesto político do que se tivesse estreado em outro momento recente da história brasileira. 

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