Após mostrar uma trama mediana na primeira temporada, 3% definitivamente conseguiu reparar muitos erros neste segundo momento. Antes, a trama girava em torno da realização do processo, que divide a sociedade entre o Maralto, uma sociedade tecnológica e bem estruturada, e o Continente, um lugar pobre, onde a maioria dos recursos está escasso. Na segunda temporada, considerando que o espectador já conhece todas etapas do processo e seu funcionamento, a história se limita a falar sobre os preparativos para O evento, e este é o primeiro grande acerto da temporada.

O processo, que consiste em uma sequência de provas onde apenas 3% serão selecionados, assim como seus personagens já haviam sido estabelecidos anteriormente. Assim, o principal objetivo da temporada é mostrar avanços, no caso do processo, a incógnita paira sobre a realização ou não das provas visto que um grupo denominado como ‘A Causa’ tenta impedir o processo de ocorrer.

Com essa abordagem que antecipa o que seria o principal acontecimento da série, histórias sobre o Maralto e Continente podem aparecer mais em tela, mostrando suas diferenças em paralelos bem extremos. Supreendentemente, o Maralto, sonho de consumo dos personagens e o lugar mais especulado pelos mesmos não aparece tanto quanto o Continente que, por sua vez, é demasiadamente usado para mostrar semelhanças com o cenário social do Brasil atualmente.

Os personagens que antes não se mostravam tão bem construídos ou profundos, sofrem as consequências da primeira temporada. Michelle (Bianca Comparato) ainda é uma protagonista incerta. Em comparação com os outros personagens, ela não mostra tantas tramas interessantes, soando até mesmo forçada as cenas da personagem no último episódio, onde ela volta a estar na trama principal da série, aparentemente como uma mera solução.

Quanto aos outros personagens, não apenas a grande maioria foi melhor aproveitado como também possuiu enorme destaque e relevância para a história. O melhor disso foi ver figuras da primeira temporada que não haviam tanto diálogos entre si, interagindo como antigos conhecidos. Assim, Joana (Vaneza Oliveira), Fernando (Michel Gomes), até mesmo Rafael (Rodolfo Valente), mostram suas respectivas evoluções dentro da série. O trio consegue ser bem abordado individualmente e em conjunto também, Joana que tanto se destacou na primeira temporada, reafirma que protagonismo também ocorre pela forma que um personagem se posiciona.

Quanto a Fernando, muito mais amargurado, sua construção é explorada tanto pela trama principal, quando pela sua interação com personagens novos. Lembranças como flashbacks também ilustram a história do personagem. Rafael, por sua vez, não é o personagem mais carismático e fica limitado à basicamente uma problemática durante todos episódios, sempre voltando a se repetir tanto em diálogos quanto em cenas propriamente. Ezequiel (João Miguel) e a recém-apresentada Marcela (Laila Garin), são vistos como duas figuras de grande importância, porém o trabalho entorno de suas personagens se baseia muito em plot twists, que até são bons, mas nem sempre justificáveis.

Com grande parte de sua trama direcionada para os personagens, elementos como a fotografia e design de produção parecem ter trabalhado melhor do que na primeira temporada. Muitas caracterizações do Continente ainda mostram um certo amadorismo no caso do design de produção, visto que os mesmos rasgos milimetricamente feitos nas roupas aparecem em todos episódios, com ressalva para o quase videoclipe que acontece onde muitos personagens usam instrumentos e adereços com uma aparência radicalmente diferente dos trapos. A direção de fotografia parece ter aprendido com os erros e apresenta o básico neste segundo momento, nada que ganhe tanto destaque, mas que se torna bem eficaz em momentos mais delicados.

Por apresentar uma distopia, uma ficção científica e por ser da Netflix, 3% bebe bastante da fonte Black Mirror. Coincidência ou não, algumas tecnologias são bem semelhantes às apresentadas na outra série, assim como a sensação de uma vitória pela metade, um final que não compensa, também adicionado na série brasileira, rememorando Black Mirror.

O discurso social, presente na primeira temporada, volta com tudo neste segundo momento. Talvez um dos maiores méritos da série seja conseguir abordar claramente discursos já presentes no Brasil longe do pedantismo. Isso ocorre por meio da compreensão daquela realidade e através de diversas cenas e diálogos que se tornam poderosas significações para trama na série e para seu espectador.

No geral, a história da segunda temporada se apresenta bem menos previsível do que antes. A série possui coragem de abandonar personagens seja por sua morte seja pela inconstância em seu caráter, duas coisas que nem sempre são bem aceitas pelo público. Mesmo com alguns erros, algumas decisões nada originais, 3% definitivamente evoluiu muito em sua segunda temporada. A primeira foi utilizada como um estabelecimento do universo em que a série é ambientada, já nesta segunda fase o que foi colocado antes é bem aproveitado com espaço futuro para mais continuação.

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