Arnaldo Barreto trouxe uma grande notícia para o cinema amazonense em 2014 ao ganhar o prêmio de Melhor Ator em curtas-metragens no Festival Guarnicê, realizado no Maranhão. O público amazonense poderá ver o premiado trabalho na noite desta sexta-feira (20), na estreia de “Até que a Última Luz se Apague”. Sessão será realizada no Teatro da Instalação a partir das 19h30, no Centro de Manaus.

Em rápida conversa com o Cine Set, Arnaldo Barreto conta sobre a composição e os desafios trazidos pela personagem, além das inspirações desse trabalho vencedor.

Cine Set – Sobre o que se trata “Até que a Última Luz se Apague? O que vocês pretendiam abordar no filme?

Arnaldo Barreto – A proposta cinematográfica é desenhar, através de emoções de maneira micro, as transformações comportamentais da sociedade diante do caos instaurado na década de 80, dando destaque ao Brasil, simbolicamente pela figura de um artista apresentado no decorrer do drama. A loucura vivida pelo alastramento do vírus HIV é representado pela personagem Leka, distanciando de fatos e verossimilhanças a uma interpretação simbólica, ao mesmo tempo em que personifica a consciência, o medo, a loucura e a fragilidade da humanidade em meio à caótica doutrina da mídia que contribuía para o alarde do vírus.

Cine Set – Quais os desafios e de que forma você se preparou para fazer “Até que a Última Luz se Apague”?

Barreto – O principal desafio na interpretação foi distanciar ao máximo de uma interpretação preconceituosa ou frágil, dada a atuações que descrevem o HIV cheio de estereótipos. Para tanto, estudei por três meses o “Pensamento de um paciente ao receber um exame, dado reagente a sorologia” e, a partir desse contexto, direcionei à criação e consequentemente ao set de gravação. Formatei a personagem num quarto escuro, assombrado, delirante e decadente delineado principalmente na cenografia e na atuação. Comecei a descobrir fragilidades de Leka, que era de uma geração que viveu o caos da chega do HIV.

Cine Set – Teve algum filme, peça, atuação que você se inspirou ou te ajudou para fazer a Leka?

Barreto – O ponto de partida foi a encenação da peça de teatro “A Dama da Noite”, de Caio Fernando Abreu; numa cena curta a personagem personificava o vírus do HIV, e era algo muito forte no texto, daí surgiu a ideia do roteiro. A principal ideia era mostrar o impacto da chegada do vírus. Para não reproduzir o avanço de forma repetitiva que a mídia já realiza sempre, mergulhamos noutro universo, mais próximo da linguagem sensorial, ou seja, decidimos personificar toda a loucura de uma geração que viveu o terror da propagação do vírus no corpo de uma única personagem: a Leka.

Cine Set – O filme trata sobre a Aids nos anos 80. Como você acha que o curta dialoga com os dias atuais?

Barreto – O filme não apresenta o discurso do infectado se manifestando; é outro olhar, são os sintomas de uma década do medo, ou seja, após a década da liberdade nos anos 70, expomos a década do receio de se relacionar para não ser a próxima vitima. O medo não estava apenas no relacionar-se, estava exatamente em tudo. Pouco se sabia do vírus, e desta forma, o mundo se viu refém da morte.

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