A espiritualidade é um tema que permeia incontáveis obras cinematográficas. Não importa se ela se infiltra nas discussões filosóficas que vemos em filmes como os de Tarkovski e Bergman, ou se surge destituída de teor crítico em filmes menores (e põe menor nisso) como “Deus não está morto” (2014): os questionamentos sobre um plano não material de nossa existência dão o que falar no cinema desde muito tempo. Quando isso se junta à grande popularização de filmes ocidentais e, portanto, advindos de uma cultura majoritariamente cristã, não é de se estranhar que deus, anjos e demônios surjam como personagens.

A figura cabalística dos anjos, que tão repetidamente aparece em filmes, atingiu seu ápice cinematográfico com “Asas do desejo”. Wim Wenders inova ao permear a existência dessas entidades com uma delicadeza dúbia, retratando-os como protetores silenciosos próximos de Deus, mas também próximos o suficiente dos homens para ver uma beleza brutal em nossa existência.

Na trama de “Asas do desejo”, os anjos Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) vagam numa Berlim ainda polarizada pelo muro que dividia a cidade até os anos 1990. Invisíveis aos seres humanos, eles confortam suas angústias, lendo cada pensamento e observando suas ações. Tudo segue igual, até que Damiel se apaixona por uma humana, a trapezista Marion (Solveig Dommartin). Ele decide então abdicar de sua divindade e se tornar humano, o que o torna capaz de experimentar as alegrias, mas também as dores, da vida.

Em muitos momentos, a montagem de “Asas do desejo” parece beber direto do Impressionismo Francês ao associar imagens de forte conteúdo simbólico. Construções como, por exemplo, a de um plano do céu seguido do extreme close-up de um olho e da vista aérea de Berlim guiam o espectador pela existência languida dos seres celestiais. Se a impressão de sequencialidade das cenas no cinema sempre é sempre fruto de convenção visual, em “Asas do desejo” Wenders brinca de tentar quebrar os limites dessa convenção quanto mais poéticas se tornam as emendas que tentam dar sentido à montagem.

Do ponto de vista dos anjos, o mundo é cinza, uniforme e silencioso. Nele, o jogo de plongées e contre-plongées surge na tela repetidas vezes para passar ao espectador o que veriam os olhos desses seres celestiais que nos observam do alto como se fôssemos formigas, e o que surge na tela são pequenos detalhes do dia a dia: nossa pequenez individual perante a movimentação na grande cidade e os dramas pessoais, muitas vezes secretos, que contam apenas com os ouvidos dos anjos para serem compartilhados. As atuações propositadamente contidas de Ganz e Sander contribuem tanto quanto as mudanças na fotografia para mostrar as diferenças entre a existência de anjos e homens.

O roteiro, escrito pelo próprio Wenders com contribuições de Peter Handke e Richard Reitinger, abraça a delicadeza para dar ritmo à trama. Pequenos monólogos, poemas e música vão aparecendo com uma cadência extremamente natural para falar do aspecto divino que permeia a vida. Numa manobra inteligente que tanto universaliza o filme como o aprofunda em seus mistérios, as ideais sobre deus, vida e morte se explicitam através da poesia (visual ou verbal), e não em discursos doutrinadores, o que resulta num filme que toca o lado espiritual do espectador como poucos.

É apoiado nessas construções do roteiro que vários elementos com potencial para serem clichês soam totalmente originais. As jogadas impressionistas da edição, as mudanças da fotografia em preto-e-branco, retratando a existência dos anjos, para colorida, retratando as vivências humanas, e mesmo o fato de Damiel se apaixonar por uma trapezista, ou seja, por uma figura circense, sempre forasteira e aberta para a aventura da vida que ao anjo não é permitido saborear em todas as suas dores e alegrias, tudo isso bem poderia estar num filme pipoca americano (e esteve, quando “Asas do desejo” ganhou uma refilmagem gringa em 1998, “Cidade dos anjos”), mas Wenders dá seu talentoso toque a cada escolha. Claro, há de se dar o devido crédito à excepcional direção de fotografia do lendário Henri Alekan, responsável nada mais, nada menos, que pela fotografia da clássica versão de Jean Cocteau para “A bela e a fera” (1946).

“Asas do desejo” é o tipo de filme permeado por momentos mágicos, que tocam aos cinéfilos, mas também a qualquer um que já tenha pensado sobre a própria existência, independente de crenças pessoais. Cassiel acompanhando o suicida, as crianças que conseguem ver os anjos, Damiel se encontrando com outro “ex-anjo”, o belíssimo monólogo de Marion no bar e a fantástica apresentação de Nick Cave and the Bad Seeds tocando “From her to eternity” são alguns deles. Com seus pequenos e emblemáticos fragmentos, “Asas do desejo” fala mais sobre deus que muitas missas, cultos e rituais mundo afora.

Nota: 10,0

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