Na noite de estreia de Até Que a Última Luz Se Apague, na última sexta-feira (20), no Teatro da Instalação, a equipe de produção do filme levantou uma questão interessante sobre o aparente estado de segregação que isola o teatro e o cinema locais. Embora seja verdade que se tratem de duas linguagens claramente diferentes, por que profissionais de um segmento não poderiam experimentar o outro?

De fato, há um quê de teatralidade que perpassa todo o decorrer de Até Que a Última Luz Se Apague. Isso poderia ser um problema, se o que se visse na tela fosse apenas um monólogo em vídeo, uma espécie de “teatro filmado”. Porém, talvez seja justamente esse pé evidente no teatro, aliado a uma compreensão das especificidades das duas linguagens, que fornece ao curta-metragem uma ótica diferenciada de outras produções locais.

O filme, dirigido por Williams Ferry e com roteiro de Arnaldo Barreto, é protagonizado por Leka, artista transformista homossexual que, em seu quarto, lida sozinha com a angústia e a paranoia diante do surgimento da AIDS nos anos 80. Nesse sentido, o grande mérito da produção é ser capaz de contextualizar o conflito interno da personagem confiando sempre no poder da imagem e dos elementos à sua disposição, ainda que haja apenas um fiapo de roteiro para guiar o filme.

Tais elementos são, por exemplo, a direção de arte de Wallace Abreu e a cenografia de Rosa Malagueta, responsáveis por inserir a personagem não só num período específico de tempo, através do uso de vinis ou mesmo de fotos de antigos galãs da Rede Globo, mas também por sugerir aspectos de sua personalidade, como a santinha que revela sua religiosidade – e quem sabe até uma ponta da culpa cristã envolvida em sua situação. Já a fotografia ruidosa lembra uma fita VHS dos anos 80 perdida no tempo, e até mesmo os eventuais problemas de iluminação curiosamente funcionam, já que ambientam o clima claustrofóbico e solitário em que Leka se encontra.

O principal destaque, porém, vai mesmo para a atuação de Arnaldo Barreto, num grande trabalho de entrega emocional e corporal em cena. O ator, premiado no Festival Guarnicê de 2014, é definitivamente a alma do curta. Barreto transmite a aflição e a solidão da personagem de uma maneira que sugere todo um universo por trás da história de Leka. Em alguns momentos, o trabalho até parece que vai beirar o exagero, mas consegue se conter. A cena da dança, com direito a adornos dignos de Ney Matogrosso, e a cena da maquiagem são dois momentos que ilustram bem a bela atuação de Barreto.

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Assim como o recente O Que Não Te Disse, que também dependia da força de sua protagonista, Até Que a Última Luz Se Apague não se preocupa em facilitar o trabalho do espectador e acaba sendo muito mais uma obra sensorial e sugestiva do que uma narrativa convencional. Até mesmo o uso de um programa de rádio em uma determinada cena, a fim de contextualizar o caos instaurado pela AIDS na época, permanece apenas por tempo suficiente para não atingir o didatismo. O resultado é uma obra corajosa e sincera, que abre espaço para que os profissionais do teatro local também comecem suas experimentações no campo do audiovisual.

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