O Cineplayers teve/tem papel importante na minha vida de cinéfilo. Acredito que foi o primeiro site que encontrei que tinha um abrangente acervo de críticas, e não apenas de lançamentos, mas críticas de filmes de todas as épocas.

O que mais me atraiu nele site foi o fato do mesmo ter um grande time de críticos, no qual cada um opina sobre os filmes conferindo notas, o que torna-se algo bem interessante, visto que determinados trabalhos são defendidos veementemente por uns, e execrados por outros, o que é ótimo para a arte.

Depois de um certo tempo acompanhando o site regularmente, apareceu um novo editor, Bernardo Brum, ou melhor, Bernardo D.I. Brum, um jovem crítico com um texto muito bom, e que tem um ótimo trabalho em nos apresentar filmes ou esquecidos pelo grande público, ou pequenas obras-primas escondidas nas filmografias de grandes diretores.

Estava com um pouco de receio de importuná-lo e pedir para que ele concedesse a entrevista, mas tudo ocorreu de forma diferente. Simples, educado e disponível, Brum se mostrou interessado em contribuir com o Cine Set, e nos concedeu uma bela entrevista.

Diego Bauer – De que maneira você começou a escrever sobre cinema, como surgiu esse interesse?

Bernardo Brum – Através de fóruns de internet, no agora morto-vivo Orkut, fiz amizade com membros que se interessavam em escrever sobre cinema. Apesar de já ter feito tentativas tímidas aqui e ali para escrever sobre filmes – antes, escrevia sobre música em blogs tentando emular revistas que lia e admirava – depois de muitos debates e discussões acabei sendo convidado por amigos que tinham recém-iniciado o blog CineCafé a integrar a equipe. Foi a primeira vez que passei a levar o ato de escrever crítica mais sério, ainda que de maneira informal. Foram três anos escrevendo lá, entre ritmo frenético e hiatos.

Diego – Como foi a sua ida para o Cineplayers? Foi através de convite, indicação, seleção?

Brum – Convite de um dos editores, com quem conversava no MSN havia algum tempo. Foi uma transição natural entre a blogosfera, de onde também muito dos editores saíram, e a plataforma de site.

Diego – O Cineplayers se caracteriza pelo fato de ter um time de críticos, o que oferece situações interessantes, de filmes que são defendidos por uns e criticados por outros. De que maneira essa constante discordância é benéfica para o site e para a arte?

Brum – Discordância é fundamental para a arte e para a crítica. Não fosse por ela, a arte mal teria progredido enquanto linguagem. Ela não deve ser vista como uma “competição” em momento algum, mas simplesmente como expressão da subjetividade. Por causa dela que conhecemos valores estéticos, experimentamos formas, nos deslocamos do que nos é cômodo. Isso é uma fonte infinita de estímulo intelectual. Diversidade jamais será algo negativo.

Logo do Cineplayers

Diego – Uma questão que sempre fica na minha cabeça é o que faz com que alguém se considere, ou seja considerado, um crítico. Lembro-me, por exemplo, do texto do “Clube da Luta”, feito pelo Silvio Pilau, em que ele fala que não se considera crítico de cinema, mas um cinéfilo que gosta de comentar sobre filmes, embora seus textos tenham um caráter analítico. Você se considera (ou é considerado) um crítico de cinema? Na sua opinião, quais são os fatores que determinam isso?

Brum – Pelo stricto sensu, crítico seria o profissional cujo trabalho é escrever sobre cinema como o do carteiro é entregar correspondência. Então, em termos práticos, é o que separa o que pratica a crítica como ofício e o que pratica puramente como prazer.

Mas bem, seria besteira dizer que alguém que posta contos e crônicas em um blog, por exemplo, sem vender seu produto, não seja um escritor, se seus escritos tenham afinal uma proposta estética e uma expressão subjetiva. Todo aquele que se debruça sobre um filme de maneira reflexiva está sendo um crítico, encare isso como um ganha pão ou não.

Diego – Suas críticas têm um caráter bastante amplo (principalmente a dos filmes que você gosta), tratando de vários questionamentos filosóficos e políticos, bem como trata muito da parte técnica. Na sua opinião, a crítica deve se focar em que aspectos do filme?

Brum – Tudo caminha junto. Nada deve ser analisado em separado. Da proposta estética se desdobrará tudo e, a partir daí, o filme deve ser analisado. Deve se refletir a criação subjetiva em contato com a própria experiência pessoal. Deve-se levar valores estéticos em consideração – para confirmar ou contestar. Se utilizando os recursos propostos, é bem sucedido nisso, não exigir que um filme seja algo que não intenta ser. Resumindo: uma crítica, puramente falando, deve se focar no filme. É necessário debruçar-se sobre a obra, comparar sua relação com o que é exterior (não apenas com outros filmes, mas com literatura, pintura, música, dramaturgia, filosofia, política), desobedecer padrões normativos de “belo” e “feio”, buscar entender e interpretar visões e concepções de mundo e a forma que as mesmas são significadas dentro desse meio específico de expressão.

Diego – Muito se fala sobre um elitismo da crítica, de modo geral, que muitas vezes não se preocupa em dialogar com a massa. Na sua opinião, de que maneira o crítico deve conciliar o ato da escrita voltada para um público já iniciado na arte, e ao mesmo tempo acessível para os não-cinéfilos?

Brum – Fazendo retrospecto histórico, a acusação de elitismo não procede. A crítica cinematográfica ao longo das décadas legitimou no campo teórico grandes ícones populares – para ficar em dois exemplos, Alfred Hitchcock e Charles Chaplin. Não só pela popularidade mas por conta também de serem eleitos objetos de estudo, seus nomes só cresceram na relevância do desenvolvimento do cinema enquanto meio de expressão. Incluindo para o público, que não diz apenas “vou assistir um filme”, mas “vou assistir um filme de…”. Passou a se valorizar o cinema de forma subjetiva, não apenas apreciação industrial em massa.

Portanto, a conciliação não é necessária pelo seguinte: o crítico deve assistir tudo, acompanhar tudo, analisar tudo. Blockbuster ou nicho. Quem tenta setorizar tenta legitimar uma única forma de expressão e condenar todas as outras. Então, não considero, pessoalmente, que esteja sendo crítico. A crítica escrita disposta a analisar o filme enquanto obra, não enquanto discurso, serve ao iniciado e ao não iniciado. Pode-se argumentar a importância que a bagagem tenha na compreensão de referências pontuais, mas sendo o todo apresentado, argumentado e concluído enquanto uma ideia a ser entendida e então debatida, não vejo como possa não servir de estímulo intelectual.

Ismail Xavier

Diego – Quem são os seus críticos de cinema favoritos?

Brum – André Bazin e Ismail Xavier. Pessoalmente, entrar em contato com o trabalho desses dois fez a mente “explodir” em todas as direções possíveis.

Bazin pelo pioneirismo, pela proposição de estéticas e visões de mundo que legitimavam o cinema enquanto arte, enquanto meio de expressão único, diferente de tudo que se vira até então. Ainda que grandes nomes tenham existido antes e depois, Bazin é um divisor de águas na forma de se pensar cinema. Não à toa, é um dos únicos críticos também debatidos por outros críticos em conjunto com o debate sobre os filmes.

Ismail por reunir tantas vozes e visões diferentes de cineastas e críticos e sempre conseguir costurar de forma desafiadora para quem lê os contextos (sociais e artísticos), os filmes, as propostas, as linhas de pensamento, as ideologias, sempre sem julgar, sem condenar, sem deslegitimar; com o distanciamento necessário para uma compreensão ampla e diversificada de nossa história enquanto seres expressivos.

Diego – De que forma você analisa o mercado brasileiro referente à crítica cinematográfica?

Brum – Amplo. A internet democratizou o acesso à informação e nunca se falou, leu e discutiu sobre cinema nem nunca se assistiram tantos filmes. Revistas eletrônicas são importantíssimas na discussão cinematográfica brasileira de hoje.

Diego – Que tipo de conhecimento um crítico de cinema deve ter para fazer boas análises?

Brum – Todo o conhecimento possível que possa ser angariado. Mesmo que de maneira autodidata, estudar e conhecer sobre cinema, artes plásticas, teatro, música, literatura, quadrinhos, videogames. Livros teóricos, livros técnicos, livros de entrevistas, ensaios críticos. E filosofia e história, pois cada filme é uma obra uma única, mas ao mesmo tempo, nenhum deles é uma ilha.

Diego – Que sugestões você dá para quem tem interesse em seguir a carreira de crítico?

Brum – Estudar e escrever sempre. Conhecimento só vem com estudo e experiência só vem com prática. Jamais relaxar: sempre se pode aprender.

E o maior pré-requisito de todos: assistir filmes. Sem restrições, freios ou preconceitos. E de preferência, em quantidades absurdas.

Silvino Santos

Diego – Conhece o Amazonas Film Festival? O que já viu, ou ouviu falar do cinema amazonense?

Brum – Conheço o festival de nome, mas assim como a maioria dos festivais fora do meu estado, ainda não tive a oportunidade de conhecer.

O primeiro nome que me vem à cabeça é o pioneiro Silvino Santos. Antes do cinema novo, das chanchadas, até mesmo antes de Humberto Mauro, ele estava lá chamando a atenção para o que era ignorado pelos grandes polos industriais e culturais. Da mesma forma “Iracema, Uma Transa Amazônica” é fundamental em nos apresentar o que se chama de Brasil “profundo”.

Mais recentemente, “A Floresta de Jonathas” me chamou a atenção também. É um filme interessante. Quero a oportunidade de um dia visitar os festivais e mostras do norte do país – com certeza deve ter um universo de coisas fascinantes e curiosas que dificilmente chegam ao sudeste.

Leia algumas críticas de Bernardo Brum no Cineplayers:

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