Há alguns dias, Vince Gilligan, criador de Breaking Bad e co-criador de Better Call Saul, participou de um painel sobre um documentário sobre a nova era da TV – The 2000s: A Look Back at the Dawn of TV’s New Golden Age – disse algo interessante o fenômeno do anti-herói televisivo:

“Hoje nós precisamos rir. Talvez seja hora dos heróis de novo. Acho que nunca poderemos voltar aos personagens todos bons ou todos maus de antes, mas talvez possamos ver ali na esquina personagens que são falhos, que trabalham muito duro para fazer a coisa certa e querem ser bons, mesmo quando não são”.

É uma declaração interessante porque Breaking Bad levou o conceito do anti-herói da TV ao limite. Por cinco temporadas acompanhamos o protagonista Walter White (Bryan Cranston) e seus esforços para traficar drogas em nome da sua família – uma balela que a série foi demolindo pouco a pouco ao longo dos anos. Já escrevi sobre a série, sua origem e suas muitas qualidades aqui neste artigo de 2014. Mas agora em 2018, dez anos depois que vimos o trailer de Walter e Jesse (Aaron Paul) cruzar o deserto do Novo México em alta velocidade, qual o verdadeiro impacto de Breaking Bad?

Sou meio suspeito para falar porque, em minha opinião, trata-se da melhor série de TV de todos os tempos.


A Tempestade Perfeita

Foi um seriado que funcionou porque uma tempestade perfeita de elementos se reuniu para gerar um produto único: um time de roteiristas inspirados e que, incrivelmente, não sabia para onde a história iria desde o começo; um elenco em estado de graça, tanto de atores fixos quanto convidados, que nunca soou falso em nenhum momento; uma equipe de diretores e profissionais por trás das câmeras que fez de Breaking Bad a série mais visualmente interessante já feita; e a visão de um criador que soube unir humor e tensão e tornar sua criação algo maior do que a sua simples história.

Nas mãos de Vince Gilligan, Breaking Bad representou uma exploração da mentalidade masculina destrutiva e, ainda por cima, possibilitou a ele falar sobre o seu país, misturando o passado – paisagem típica de um western, temática de cinema noir – com a cultura moderna de busca desenfreada por dinheiro. Ao fazer isso, a TV atingiu uma primazia dentro da cultura mundial antes reservada apenas ao cinema. Até afirmo que, entre os anos de 2008 e 2013, quando Breaking Bad esteve em produção, nenhum filme do cinema norte-americano chegou perto do que a série representou, em termos de profundidade, comentário sobre o país e impacto. E não sei se desde então também apareceu algum.

Filhotes de “Breaking Bad”

Hoje sentimos esse impacto graças aos “filhos” da série. Uma série como Ozark da Netflix é um óbvio descendente da série de Gilligan. Já outra como Preacher, mesmo sendo adaptada de uma HQ, suga o que pode de Breaking Bad como inspiração visual e narrativa. Noah Hawley, outro genial criador da era moderna da TV, deu o máximo de si em Fargo e às vezes até conseguiu se aproximar de Breaking Bad, mas nunca igualá-la. Um American Horror Story, ou American Crime Story, ou mesmo uma True Detective, buscam aquela escalada de tensão, aliada a uma grande concepção visual, que a série de Gilligan fazia de maneira tão orgânica e fácil – aparentemente.

E há de se falar de Better Call Saul, a produção derivada que conseguiu não só enriquecer a sua predecessora – algo em que muitas prequels falham – quanto construir uma identidade própria além dela. Tal e qual Breaking Bad, a série do advogado Jimmy McGill/Saul Goodman é um milagre, algo que não deveria ter dado certo, mas deu, e como.


Mr. Chips a Scarface

Mas acima de tudo, Breaking Bad é especial para mim porque foi muito boa de ver. Divertida no início, sombria no meio e aterrorizante no final, a série sempre conseguiu mexer com as emoções dos espectadores. Porém, acima das emoções fortes, é uma boa hora para prestarmos mais atenção à fala de Vince Gilligan: ele quis que a série refletisse uma jornada, a transformação de um homem, “de Mr. Chips a Scarface”, como ele mesmo sempre afirmou. Ao fazer isso, tocou num ponto nevrálgico que a cultura mundial está discutindo hoje: homens com poder e abusando dele, e em consequência criando um grande mal ao seu redor. Ao revelar o monstro escondido dentro do homem comum, ele deu a última palavra sobre personagens masculinos autodestrutivos. Por isso mesmo, talvez por isso seja hora mesmo de pensar em outras ideias e personagens. “Breaking Good”? Eu assistiria, se Gilligan fizesse…

Em todo caso, acompanhar o cara mau foi uma jornada inesquecível – e para celebrar, já fiz minha maratona da série este ano, e se você ainda não deu uma chance a Breaking Bad, não perca tempo. Ora, talvez haja um alento a mais em ver a série nos dias de hoje. Afinal, por pior que ele se torne ao longo das temporadas, pelo menos sabemos que o Walter White é fictício e no mínimo mais relatável e empático – para não dizer interessante – que os malvados da vida real.

Você pode ler a conversa completa de Vince Gillian, junto a uma reflexão da ex-executiva da HBO, Carolyn Strauss, sobre o tema do anti-herói televisivo, e também sobre Game of Thrones, que ano que vem chegará ao fim, aqui.

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