“Por que o Flávio Cavalcanti tem um suicida no telefone e eu não tenho um suicida no meu programa?”.

Com esta pergunta para lá de maluca, Chacrinha entra aos berros na sala de Boni, o todo-poderoso da Rede Globo durante as décadas de 1970 a 1990. A cena apresenta o melhor que “Chacrinha – O Velho Guerreiro” tem a oferecer: um retrato sobre as origens da televisão e da cultura pop brasileira com todos os vícios e qualidades deste sistema lucrativo e popular. Por outro lado, percebe-se apenas o intuito de celebrar em vez de analisar tudo o que, de fato, representou Abelardo Barbosa.

Saudado como o maior comunicador da história da televisão nacional ao lado de Silvio Santos, Chacrinha foi o pai do caos da TV aberta como salientava a própria célebre frase dele – “eu não vim para explicar: eu vim para confundir”. O programa de auditório de Abelardo Barbosa com mulheres seminuas dançando, distribuição de prêmios, muita música, colorido extravagante, uma plateia ensandecida abriu as portas para Gugus, Faustões, Pânicos, Sabrinas Satos, Lucianos Hucks, Rauls Gils, entre outros. Igual visto hoje, o bom gosto e o bom senso na ensandecida luta pela audiência eram deixados de lado, rendendo divertidas situações pelo absurdo como a busca por candidatos a calouros cada vez mais ridículos, concurso do cachorro mais pulguento do Brasil e a sequência já exposta do suicida.

Paralelo a este começo da televisão atual, Chacrinha abriu portas para uma série de estrelas da MPB como, por exemplo, Roberto Carlos, Raul Seixas, Secos e Molhados, Wanderléa, Clara Nunes, Sidney Magal. Todos aparecem em pequenos trechos e mostram como o “Cassino do Chacrinha” era um espaço plural e fundamental em um veículo de comunicação em pleno processo de expansão e dominação. Não à toa ter caído nas graças dos tropicalistas, seja pelo ícone que se tornou ou por puro interesse comercial, sendo homenageado na canção que encerra a cinebiografia, “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil. O Velho Guerreiro, porém, pioneiro como somente ele, também ajudou a fortalecer a cultura do jabá tanto no programa quanto nas caravanas ao redor do país.

A cinebiografia, de fato, apresenta tudo isso em maiores e menores escalas, mas, sem um olhar crítico. Partes mais comprometedoras como, por exemplo, os jabás e a falta de pagamento aos artistas surgem, mas, sem interesse em aprofundá-los. Exceto por uma divertida passagem com uma censora terminada em prisão por desacato, o momento político e social do país não encontra espaço na trama, algo estranho para uma figura tão influente, adorado por artistas das mais variadas vertentes e em contato constante com os executivos da emissora mais poderosa do Brasil.

Quanto à trajetória pessoal de Abelardo Barbosa, o roteiro de Cláudio Paiva (“Mulher Invisível” e “A Grande Família – O Filme”) segue a linha tradicional das cinebiografias do início duro – o caminho até a fama – o sucesso absoluto – os problemas pessoais e profissionais – redenção. Mesmo assim, “Chacrinha: O Velho Guerreiro” quer abraçar o mundo ao tratar de tantos assuntos que deixa pelo caminho muitos deles. A relação do apresentador com a mãe, os motivos para as constantes trocas de emissoras e o acidente do filho não possuem o desenvolvimento necessário merecido.

A mesma timidez relativa às polêmicas profissionais também se encontra ao abordar o romance com Clara Nunes, deixando as sequências superficiais. O diretor Andrucha Waddington ainda faz um salto temporal abrupto tirando de cena um surpreendente e mais comedido Eduardo Sterblitch para inserir Stepan Nercessian, muito bem ao trazer todos os trejeitos do apresentador.

Contando com um trabalho impecável de direção de arte (destaque para os cenários dos auditórios do “Cassino do Chacrinha) e os excelentes figurinos do protagonista, “Chacrinha: O Velho Guerreiro”, assim como “Bingo – O Rei das Manhãs”, consegue transportar o espectador para o início da cultura pop daquela época e da atual televisão brasileira. Porém, diferente do filme estrelado por Vladimir Brichta e semelhante a “Bohemian Rhapsody”, a produção coloca o retratado no posto de ícone e a enxerga desta forma, impedindo qualquer tipo de ousadia necessária para criar uma narrativa menos amarrada.

Como diria o próprio Chacrinha, “na televisão nada se cria, tudo se copia”.

No cinema, pelo menos, poderia se copiar melhor.

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