A primeira vez que vi Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla, fiquei com uma impressão muito ruim. O filme parecia tosco, mal feito, diferente de tudo que já tinha visto, e não de um jeito bom. Fui assistir empolgado, pois já havia lido bastante a respeito, que era um filme do mesmo nível do Bandido da Luz Vermelha. Foi necessário um tempo, não estava preparado pra entendê-lo. Foi importante obter um pouco mais de consciência política, além de adquirir outras referências de filmes, livros, vivências, para que a obra finalmente fizesse sentido, e se comprovasse como um dos grandes filmes brasileiros, realmente.

Assisti a Limite mais de uma vez, com empolgação e sem. Com certeza, existe um peso diferente no longa eleito pela Abraccine como o maior filme brasileiro de todos os tempos, a frente de Deus e o Diabo Na Terra do Sol, Cabra Marcado Para Morrer, Vidas Secas, o próprio Bandido, dentre outros clássicos. E, sem dúvida, o filme de Mário Peixoto apresenta uma direção à frente do seu tempo (foi lançado em 1931), com composições visuais inventivas, desconcertantes, criando uma narrativa conduzida por uma poesia visual, com enquadramentos que geram dúvidas até hoje sobre como foram realizados tamanho o ineditismo das técnicas utilizadas pela direção.

O que não faz com que ele seja o melhor filme feito no Brasil, ao mesmo tempo. E esse é o tipo de responsabilidade que nenhuma obra deve carregar, é lógico.

Três estranhos, duas mulheres e um homem, dividem um barco à deriva. A situação faz com que eles relembrem acontecimentos anteriores de suas vidas, e como chegaram àquela situação. Suas histórias pregressas são contadas em flashbacks que vão entrecortando a trama. Uma mulher foge da prisão, a outra de um marido bêbado e violento, e o homem sofre as consequências de ter se envolvido num relacionamento complicado com uma mulher enferma. Na condição que se encontram, vivenciam o limite entre a vida e a morte, a limitação humana perante a natureza, o tempo, e os acontecimentos que o ser humano não é capaz de controlar.

O diretor Mário Peixoto realizou o filme com apenas 22 anos. Era de família abastada na época, morava na Europa e tinha acesso às principais produções cinematográficas americanas e europeias do período. Isso explica a impressionante desenvoltura da decupagem e a ousadia dos enquadramentos. Buscando apresentar as situações através de um olhar que se interessa nos detalhes, no ambiente, numa relação que mostra o homem apequenado diante da natureza.

Ao mesmo tempo, o diretor excedeu-se na duração dos planos, fazendo com que acompanhar os 120 minutos sejam um verdadeiro exercício de paciência.

Tudo o que se vê é realmente deslumbrante, poético, eficiente como proposta cinematográfica em vários níveis. Ao mesmo tempo, se excede tanto na duração que é difícil muitas vezes ligar os pontos, pois as imagens inevitavelmente expandem seus significados, extrapolando a dramaturgia da obra, pois cada enquadramento diz uma história que se fecha em si. Essa técnica funciona em certos momentos, mas nem sempre.

E “Limite” é tão poético nos seus enquadramentos, que, muitas vezes, é difícil acompanhar os acontecimentos da história, localizar as situações, as personagens. Como os enquadramentos estão mais interessados em estabelecer uma estética lírica, poética, nem sempre fica claro o que está acontecendo. Lógico que isso nem sempre é um problema, afinal não se trata de uma história convencional. Porém, seria benéfico ao filme a utilização de mais intertítulos para que informações imprescindíveis da trama ficassem mais situadas para os espectadores.

Só que realmente Peixoto criou sequências extraordinárias, mágicas, que fazem com que “Limite” possua uma aura cinematográfica própria, característica dos filmes especiais. O raccord da roda do trem para a roda da máquina de costurar; o nível de detalhe dos objetos de costura; o movimento de câmera que começa no jornal, que revela uma informação importante, e vai para as pernas da personagem; os detalhes das telhas e folhas das árvores enquanto a mulher caminha; a reação dos rostos, mais especialmente das bocas, da plateia ao assistir a Chaplin; o pulo no mar, e a cabeça de Olga Breno fora do barco, em contra-plongée, a espera de algum movimento na água; a sequência genial acima de um morro, observando o mar abaixo, em que a câmera gira no seu eixo, fica de cabeça pra baixo, movimenta-se descoordenadamente, gerando um visual arrebatador. Há diversos outros momentos que poderiam ser citados, memoráveis.

Mas é que, ao contrário, de outros filmes brasileiros que contaram com produções adversas, em que as precariedades – por conta de equipamentos, mão de obra, momento histórico do país – cumpriram papel limitador para seus diretores, “Limite” é prejudicado por uma montagem que impõe ritmo excessivamente contemplativo, que acaba se confundindo com fastio. É inegavelmente belo, mas isso nem sempre parece ser suficiente.

É preciso cuidado para criticar filmes como Limite. Eles realmente fazem por merecer um respeito extra, maior atenção ao se estudar a obra, observar o contexto histórico e econômico envolvendo a produção. E o fato de considerá-lo imperfeito, certamente não esconde uma verdadeira admiração pela sua direção, que mesmo aos olhos de hoje surge instigante, oferecendo algo que não se vê comumente. Característica esta, aliás, marcante nos grandes filmes brasileiros, coisa que “Limite”, por tudo que representa, é.

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