Depois de seis anos do sucesso de crítica e público do seu terceiro longa-metragem, “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, que colocou a cineasta em evidência, Lynne Ramsay volta a telona com o thriller protagonizado por Joaquin Phoenix, “You Were Never Really Here”. Sem data de lançamento no Brasil, o filme estreou no Festival de Cannes do ano passado, onde levou para casa os prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Ator, confirmando a continuidade da qualidade característica da escocesa. Dona de uma filmografia concisa e sólida, durante mais de vinte anos de carreira Ramsay realizou oito trabalhos, entre direção e roteiro, quatro longas e quatro curtas-metragens, o forte estilo impresso nesses trabalhos iniciais, já deixava claro o uso poderoso da imagem na sua obra.

Suas realizações, especialmente seus curtas, concentram-se em refletir sua ideia usando expressões e gestos muito mais que diálogos, no cinema de Ramsay a composição visual tem mais peso, possibilita ao espectador um universo de interpretações e lirismos. A riqueza da carreira enxuta, mas consistente dela desde de suas primeiras experiências cinematográficas, explica porque Lynne Ramsay é um dos grandes nomes da nova geração.


SMALL DEATHS (1996)

Primeiro filme da diretora e seu trabalho de conclusão de curso na National Film and Television School do Reino, o curta venceu o prêmio do júri no Festival de Cannes. A história baseada nas memórias de infância e adolescência da própria cineasta, conta com a participação da sobrinha e outros familiares na produção para remontar três eventos obscuros em diferentes fases da vida de uma garota. Intrigante, o curta desperta a reflexão sobre a real repercussão das ações mostradas, aparentemente sem danos ou prejuízos, naqueles por quem foram vividas, as pequenas mortes ao longo da vida. Estreia eficiente de uma cineasta que já mostrava a que veio.


KILL THE DAY (1996)

Possivelmente, a principal influência para seu primeiro longa-metragem “Ratcatcher”, o curta mostra a relação do jovem James com seu vício em heroína, recém liberado da prisão após furtar uma bolsa para comprar drogas, o espectador é levado a mente de um homem solitário sempre perdido nos delírios da sua condição. A diretora entra em questões sociais sem cair no chavão, examina o círculo infinito do vício, a dificuldade de recuperação unida à solidão imposta aos indivíduos deixados às margens.


GASMAN (1997)

Vencedor de quatro prêmios de melhor filme em curta-metragem, entre os quais destacam-se o prêmio do júri de Cannes e o BAFTA Escocês. O filme narra a noite de natal de Lynne e seu irmão Steve, os dois acompanham o pai a uma celebração natalina, mas algo sai da normalidade, no caminho eles encontram uma mulher com outras duas crianças, deixadas por ela para acompanha-los até festa, contudo a menina não entende porque aquela garotinha estranha é tão próxima do seu pai. Um aspecto marcante na sua obra é sempre colocar crianças ou jovens diante de situações desafiadoras de descoberta que impactam profundamente sua percepção de mundo. Compartilhamos com a pequena Lynne seus diversos estágios de compreensão daquilo que está acontecendo. Os sons são parte essencial da narrativa além da compreensão dela, o rádio tocando “Let It Snow” juntamente com o barulho dos passos nos trilhos ajuda a ambientação do espectador e a identificar as emoções dos personagens muito mais que frases.

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SWIMMER (2012)

Último curta da cineasta, lançado após seu primeiro longa-metragem de repercussão, o trabalho foi um pedido feito a diversos diretores pela BBC e o comitê dos Jogos Olímpicos de Londres para serem exibidos durante a olimpíada. Mesmo com pouca motivação autoral, “Swimmer” é uma produção experimental resultado da parceria incrível entre Ramsay e a diretora de fotografia, Natasha Braier. Durante 14 minutos acompanhamos um jovem sozinho em sua jornada nadando pelas paisagens naturais britânicas, intercalado com divagações derivadas de referências fílmicas. Sem relação direta com as imagens, os únicos diálogos e trilha sonora presente são trechos de filmes britânicos dos anos 60 e 70, como O “Senhor das Moscas” e “A Longa Caminhada”. Belíssima obra em preto conduzida pelo imaginário poético das suas imagens, é certamente um favorito.

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