Stanley Kubrick nunca foi de dar muitas entrevistas. O seu fascínio pelo comportamento humano, pelas suas incoerências, impulsos, paixões, medos, defeitos, pareceu sempre um objeto de estudo distanciado, algo que ele observava à distância, nos livros, filmes, em acontecimentos históricos, sem fazer parte disso, e conversar com jornalistas e críticos acerca do seu trabalho certamente não era uma exceção.

Outro ponto que afastava Kubrick das entrevistas era o fato de não gostar de falar dos seus filmes, pois o diretor acreditava que dessa maneira poderia limitar as ideias que os espectadores poderiam ter ao assistir à sua obra, apegando-se à “versão oficial” e deixando de lado as suas particularidades, as suas impressões pessoais. Filmes como “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “Dr. Fantástico”, “Laranja Mecânica”, “O Iluminado” têm uma série de coisas não ditas de forma explícita, elementos inseridos numa proposta de radicalidade que causava (ainda causa) estranhamento, e consequentemente, incompreensão na audiência, que muitas vezes rejeitava o trabalho do cineasta. E Kubrick alimentava tudo isso, pois não via sentido em fazer uma obra que fosse totalmente absorvida pelo público à primeira vista. O cinema tinha um potencial gigantesco, e se limitar a respostas pré-estabelecidas nunca fez parte dos planos do diretor, que adotou o silêncio como resposta às provocações de que o seu cinema era um embuste.

Portanto, ter a oportunidade de ler um livro que traz o olhar pessoal do diretor sobre a sua obra, sobre o cinema em geral, e outras manifestações artísticas, é uma oportunidade imperdível para os fãs deste diretor que reinventou gêneros, criou diferentes linguagens e realizou alguns dos filmes mais importantes do cinema.

Lançado pela editora Cosac Naify, Conversas com Kubrick traz, além disso, entrevistas com roteiristas, produtores, diretores de fotografia, montadores, diretores de arte, atores que trabalharam com Kubrick em seus marcantes filmes, que contam como foi a experiência de trabalhar com um cineasta genial, que além disso era extremamente rigoroso, exigente e de difícil trato, além de um belo prefácio escrito por ninguém menos que Martin Scorsese, fã declarado de Kubrick.

Escrito pelo grande crítico francês Michel Ciment, um dos poucos críticos a conseguir algumas entrevistas com o diretor, Conversas é muito mais do que um livro de entrevistas, é também um apanhado abrangente sobre a carreira do diretor, as suas referências, as suas opiniões sobre cinema e de que maneira isso reverberava no seu trabalho, além de trazer análises diferenciadas sobre a sua obra, com críticas que são verdadeiros ensaios escritos por Ciment.

Importante destacar que trata-se de um livro para iniciados. Se você ainda não pôde acompanhar todos os filmes do diretor é recomendável que assista a todos os longas que faltam para compreender com mais propriedade as ricas comparações que Ciment traça entre projetos como “2001” e “O Iluminado”, “Laranja Mecânica” e “Dr. Fantástico”, “Nascido Para Matar” e “De Olhos Bem Fechados”.

Trazendo ainda acontecimentos importantes da carreira do diretor com grande riqueza de detalhes, “Conversas com Kubrick” é um convite irrecusável àqueles que gostam de cinema e se fascinam com as ferramentas e mecanismos que fazem parte do seu processo. E nisso Stanley Kubrick era um mestre com muito a ensinar.

Conversas com Kubrick

Autor: Michel Ciment

Editora: Cosac Naify

Tradução: Eloisa Araújo Ribeiro

Páginas: 386

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