Impactante, atual e necessário. Essas são algumas palavras que definem ‘O Poço’ e toda sua repercussão ao ser distribuído internacionalmente pela Netflix. Em geral, quando uma produção faz um sucesso estrondoso no streaming, eu já duvido muito sobre sua qualidade, porém, a chegada de um terror espanhol com três indicações ao Goya me fez seguir o algoritmo da plataforma. O resultado foi o melhor possível: além de ser um filme visualmente impactante, sua amplitude de interpretações e significados o tornam mais uma produção que se renova a cada nova reprodução. 

Estreante na direção de um longa-metragem, Galder Gaztelu-Urrutia nos apresenta uma prisão distópica com 333 andares. Em cada nível, dois reclusos compartilham suas celas como em qualquer outra prisão do mundo, entretanto, o tal poço possui um diferencial: uma plataforma cheia de comida desce em todos andares uma vez por dia para alimentar seus habitantes. Indo parar nesse local sem cometer nenhum crime, o protagonista Goreng (Ivan Massagué) passa a lidar com situações extremas na luta por sua sobrevivência. 

Contando com uma fotografia claustrofóbica sempre voltada ao protagonista, Massagué cresce diante do público com o personagem complexo que interpreta. Tendo Dom Quixote como referência, Goreng chega ao poço com muita ética e persegue o idealismo de solidariedade até o desfecho. 

Logo no início do filme lidamos com os diálogos mais importantes da trama quando Goreng compartilha a cela com Trimagasi (Zorion Eguileor), um senhor totalmente inverso a personalidade do protagonista. A dinâmica entre os dois personagens é muito bem realizada em diálogos nada óbvios. 

No geral, o roteiro apresenta uma trama linear deixando algumas perguntas sem resposta óbvia e um final totalmente ambíguo. Em outras produções, essas características poderiam se tornar um grande problema, porém, em ‘O Poço’ é justamente a amplitude de interpretações que torna sua experiência mais rica e interessante aos olhos do público. 

Por que o filme funciona tão bem? 

É claro que nem todo mundo é fã de filmes que não possuem um final fechadi, porém, a forma do diretor apresentar diferentes interpretações no longa é suficiente para o espectador entender uma de suas mensagens. Aqui, a grande sacada é mostrar, ao menos, uma interpretação óbvia e latente em todo mundo: a desigualdade social. 

Partindo desse tópico, temas como meritocracia, pobreza, solidariedade e ética começam a surgir nos diálogos, deixando mais clara a visão do diretor. Desta forma, ‘O Poço’ mantém a densidade pretendida por seu roteiro sem deixar o alcance do público de lado. 

No sentido popularidade, possuir interpretações que vão desde crítica social a religião também colaboram muito na criação de teorias internet a fora. Porém, a notoriedade do filme ocorreu graças ao timing ‘perfeito’ de estreia na Netflix falando sobre desigualdade e egocentrismo durante a pandemia de Covid-19 ao redor do mundo. Desta forma, não foi nada difícil relacionar as notícias de pessoas estocando alimentos aos personagens do filme, os quais comem mais do que deveriam deixando mais da metade do poço sem comida. 

A necessidade do apelo visual 

Com um grande roteiro em mãos, ‘O Poço’ busca maximizar a experiência do espectador com um grande apelo visual que realmente faz jus à classificação indicativa de 16 anos. Extremamente gore, o longa não possui amarras quando o assunto é impactar o público com a brutalidade daquele cenário. 

Essa escolha de apelar para a violência sanguinária reforça as mensagens passadas pela produção sobre desumanidade e tantos outros problemas do poço. Apesar de eu mesma não ser fã dessa estética mais carregada, aqui é totalmente compreensível a necessidade de causar um impacto visual para além de suas interpretações, tornando a exibição do longa uma experiência completa. 

Por todos esses motivos, é possível afirmar que ‘O Poço’ é uma obra com diversas conquistas em tão pouco tempo de lançamento mundial. Além de unir perfeitamente as ideias do roteiro com o apuro estético, o filme também é capaz de fazer o público acostumado com as atrações medianas da Netflix buscar mais produções estrangeiras de qualidade. 

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