Lembram quando o Jack Sparrow era genuinamente divertido – até que chegou Piratas do Caribe 3 com mil clones dele de uma só vez e mais um filme solo em seguida? Ou quando pensaram que o Joey de Friends podia segurar uma série sozinho? Minions entra no mesmo rol desses spin-offs, ao colocar as criaturinhas amarelas e atrapalhadas como protagonistas de seu próprio filme e, no caminho, acabar provando que os monstrinhos só funcionam mesmo em doses homeopáticas.

Minions é um filme obviamente voltado apenas a pegar carona no sucesso dos personagens, que caíram nas graças do público desde Meu Malvado Favorito (2010), e assim gerar todo o tipo de brinquedos e outros produtos. Isso fica refletido de cara no roteiro genérico de Brian Lynch (Gato de Botas), que vai de momentos realmente divertidos a piadas e situações previsíveis e sem graça. A história joga os personagens em 1968, quando os Minions Kevin, Bob e Stuart saem em busca de um novo chefe para sua tribo e encontram a “perigosa” vilã Scarlet Overkill (Sandra Bullock, no original; Adriana Esteves na dublagem brasileira), empenhada em seu plano de roubar a coroa da rainha da Inglaterra.

A animação tem lá seus vislumbres de originalidade e criatividade, como a sequência de abertura, que remonta a tempos pré-históricos para mostrar a origem dos Minions como organismos unicelulares que evoluíram para servir sempre a vilões, desde o T-Rex até Napoleão Bonaparte, e sempre falhando no processo – num mashup com Jurassic World, os Minions provavelmente matariam acidentalmente a Indominus Rex muito antes de Chris Pratt. Aliás, as piadas que se aproveitam das referências históricas acabam sendo as melhores do filme, como o momento em que as criaturas interrompem a travessia dos Beatles na Abbey Road.

Se o contexto histórico é o ponto alto das piadas, é uma pena que a direção de arte não invista mais na caracterização dos personagens em plena efervescência dos anos 60, embora a qualidade técnica da animação se mantenha. A ambientação fica mesmo por conta da trilha sonora, que se sobressai ao utilizar clássicos que vão desde The Doors a The Who e The Turtles.

No entanto, nada disso é capaz de superar a fraqueza da estrutura narrativa: especialmente da metade para o final, os próprios Minions saem prejudicados pelo fiapo de história que têm em mãos – e, se eles eram responsáveis por se destacar em momentos de alívio no já fraco Meu Malvado Favorito 2 (2013), aqui a presença deles vai ficando cada vez mais saturada à medida que o filme avança. A dinâmica com Scarlet Overkill não ajuda: embora o trabalho de voz de Adriana Esteves seja histérico como pede a personagem, a vilã não empolga e nem ameaça – com exceção da sequência da “historinha pra dormir”. É até curioso perceber como a ideia de uma personagem feminina proeminente é jogada no lixo com uma motivação pueril: roubar a coroa porque ela nunca foi uma princesinha na infância.

Por isso, até mesmo para quem não é fã da franquia, a aparição da versão mirim de Gru (Steve Carell) ao final é um alívio, uma vez que a sua dinâmica com os Minions flui muito mais naturalmente, e ele instantaneamente rouba a cena colocando os pequenos de volta ao papel em que eles realmente brilham, como coadjuvantes.

No mais, Minions é apenas mais um exemplar engraçadinho de animação. Acredito que um filme deva ser analisado pelo que ele é, e não pelo que poderia ser – logo, Minions é exatamente aquilo que se propõe, um passatempo puramente comercial. Mas não deixa de ser lamentável perceber a falta de ambição dos envolvidos na produção. Se uma animação como Divertida Mente perpassa várias camadas além do simples entretenimento, Minions se contenta em ser apenas uma versão animada de um filme do Adam Sandler, com muitas caras e bocas. Pelo menos garante mais risadas que o próprio Sandler.

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