Hollywood, 1969. Em agosto daquele ano, Sharon Tate e seus convidados, que passavam a noite na mansão dela, foram brutalmente assassinados pelos seguidores do fanático Charles Manson. Sharon era uma jovem atriz em ascensão, a um passo de virar superestrela. Era casada com o cineasta Roman Polanski, outro que também tinha uma carreira ascendente, e quando morreu estava prestes a dar à luz ao primeiro filho do casal. Foi um crime que chocou os EUA e o mundo, estabelecendo um ponto final trágico e aterrorizante no sonho hippie de “paz e amor”.

Também em 1969, o ator Rick Dalton estava em baixa. Outrora um cowboy de sucesso na TV, naquele ano ele estava relegado a papeis de vilão da vez em seriados, enquanto avaliava se seria bom para a carreira ir à Itália filmar uns spaghetti westerns. Seu ex-dublê Cliff Booth era seu único amigo e companheiro, seu motorista e faz-tudo. E Dalton vivia na casa vizinha à dos Polanskis naquele ano fatídico…

Sharon Tate existiu de verdade. Já Rick Dalton e Cliff Booth nunca existiram, são criações do diretor/roteirista Quentin Tarantino em Era Uma Vez… Em Hollywood, no qual fatos se misturam à boa e velha fantasia do cinema. Nele, Tarantino realiza uma obra de muitas facetas: uma ode nostálgica à Hollywood de antigamente; um buddy movie (filme de parceiros) focado em uma história de amor, mesmo, entre dois caras; uma fantasia de vingança (claro). E, acima de tudo, um filme… triste, apesar de várias cenas engraçadas.

ECOS DE ‘JACKIE BROWN’

“Era uma Vez em Hollywood” é um pouco diferente do que a maioria espera de uma nova produção tarantinesca. Durante a maior parte das primeiras duas horas, o tom é melancólico – ecos de Jackie Brown (1997), o filme maduro do diretor, são sentidos aqui. Não existe realmente uma “trama”. Vemos várias cenas dos personagens apenas… vivendo. Fazendo suas tarefas. Festejando. Indo trabalhar. Vemos Dalton estudando as falas da filmagem do dia seguinte; acompanhamos Booth na solidão do seu lar e dando comida para sua cadela. Vemos Booth dirigindo pelas ruas – a oportunidade perfeita para o design de produção recriar com gosto as ruas e a paisagem urbana da Hollywood do final dos anos 1960, com pouquíssima computação gráfica. A atmosfera também é recriada com comerciais na TV, spots de rádio, imagens de antigos seriados e programas.

E num dos momentos mágicos do filme, vemos Sharon no cinema, assistindo a si mesma na aventura Arma Secreta contra Matt Helm (1968). Em outro momento curioso, Tarantino insere Leonardo DiCaprio, intérprete de Dalton, sobre o astro Steve McQueen no clássico Fugindo do Inferno (1963). Quando vemos cenas de Arma Secreta, é a verdadeira Sharon Tate quem aparece, não a sua intérprete em Era Uma Vez…em Hollywood, a atriz Margot Robbie. Tarantino trata Sharon Tate com reverência e respeito, fazendo-a aparecer quase como um raio de luz iluminando a tela, uma figura etérea trazida à vida pela presença marcante de Robbie.

A respeito dos atores, é preciso dizer que Robbie, DiCaprio e Brad Pitt como Cliff Booth realizam no filme alguns dos melhores trabalhos de suas carreiras. DiCaprio é sensacional ao retratar as inseguranças e o lado patético do seu personagem, tornando-o humano e evitando a simples caricatura. Já Pitt rouba o filme em vários momentos, retratando com facilidade – e carisma de astro, claro – o cinismo e o lado durão do seu personagem. Até a polêmica cena da sua luta com Bruce Lee (Mike Moh) pode ser vista com ambiguidade, como um momento de auto-grandeza, uma mentirinha básica que é a matéria-prima do cinema. Além deles, a jovem Margaret Qualley está eletrizante, os veteranos Bruce Dern e Al Pacino têm participações divertidas, e a menininha Julia Butters é uma revelação, atuando com DiCaprio em cenas cruciais para o filme.

MELANCOLIA E CATARSE

Era Uma Vez…em Hollywood também cria sequências antológicas: a cena tensa de Booth no rancho Spahn, cercado de seguidores de Charles Manson, é uma das mais bem dirigidas e conduzidas da carreira de Tarantino, na qual ele brinca com uma noção de anticlímax. Outro momento poderoso é a cena com Dalton sozinho no trailer, tendo um colapso. De novo, retorna a ambiguidade da narrativa: ao mesmo tempo em que celebra o cinema, possui também um olhar triste a respeito dele.  Dalton gagueja e não suporta a possibilidade de não ser mais astro. Sharon vê um filme com ela mesma no elenco, mas os donos do cinema não a reconhecem e só atrelada ao pôster ela adquire valor. É realmente um filme de “meia-idade” do seu diretor, que parece olhar para trás, para uma vida inteira dedicada ao cinema, e a vê com pitadas de melancolia.

Mesmo assim, a melancolia é ocasionalmente quebrada com letreiros indicando datas, sugerindo ao espectador – até mesmo aqueles que não sabem a respeito dos assassinatos de agosto de 1969 – que algo importante vai acontecer. E quando acontece, não acontece do jeito esperado: Acontece do jeito tarantinesco, com Era Uma Vez… Em Hollywood revelando um parentesco com Bastardos Inglórios (2009). Não é bom revelar muito, mas a meia hora final funciona como catarse, uma realização de alguém que realmente acredita que o cinema é melhor que a vida real e jamais se desculpará por isso.

Era Uma Vez… Em Hollywood celebra a fantasia do cinema, a capacidade da tela de imaginar fábulas, que é o que o título do filme sugere, e reinventar a realidade. É uma fábula com um pouco de sangue, muitos planos mostrando pés femininos, diálogos e cenas engraçadas e um tom verdadeiramente triste, um lamento de alguém que parece estar se despedindo, mas nos seus termos e agindo como um deus dentro da narrativa – Não à toa, o plano final mostra uma visão do alto, olhando para baixo para seus personagens. Easy Rider (1969) existe dentro do universo do filme, então o cinema, mesmo dentro da visão tarantinesca, iria mudar mesmo na década seguinte. Mas, durante as duas horas e meia de Era Uma Vez… Em Hollywood, 1969 revive, de uma forma muito peculiar. Como só o cinema consegue fazer.

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