Faz tempo que Adam Sandler, para os cinéfilos, é quase um palavrão. Ao deixar, em meados da década de 1990, o humorístico Saturday Night Live, o comediante era um dos mais celebrados do mundo, e seus tipos “chinelões”, boa-praça, eram tiro certo na bilheteria. Mas parece que, de uns anos pra cá, o público começou a se cansar do estilo formulaico, cheio de humor grosseiro e gags pobres, que sempre foi a marca do ex-adorável malandro.

Talvez para vencer a rejeição a seus últimos filmes – Este é o Meu Garoto (2012) e Juntos e Misturados (2014) –, Sandler agora se junta ao diretor Chris Columbus (Esqueceram de Mim, Harry Potter e a Pedra Filosofal) e pega carona na onda geek, com o filme Pixels. Pensado como uma grande homenagem – alguns diriam “oportunismo” – ao universo dos videogames, a obra aglutina referências a jogos e ícones da cultura pop dos anos 1980, tentando abarcar tanto os nostálgicos daquele período quanto a nova garotada gamer, que enxerga seu objeto de lazer cada vez mais como uma cultura, com jogos análogos a obras de arte e designers digitais que são verdadeiros auteurs, como Shigeru Miyamoto (criador de quase todas as franquias da Nintendo, como Mario, Donkey Kong e Metroid) e Hideo Kojima (da série Metal Gear).

Até aí, ótimo. Faz tempo que os jogos andam querendo ser levados a sério, e alguém precisa começar a exaltar os valores de obras-primas como Tetris, Final Fantasy 6 ou Resident Evil. O problema é que, além da excessiva reverência a esse universo – o filme não tem nada a oferecer a um não-gamer, diferente do ótimo desenho Detona Ralph (2012), da Disney, até agora o melhor produto da relação games/cinema –, Pixels se ampara num roteiro fraquíssimo, primário mesmo.

Sam Brenner (Sandler) foi um prodígio dos videogames nos anos 1980. Especialista em Pac-Man, o garoto mostrava uma inteligência incomum para antecipar padrões na mecânica dos jogos, e esse talento o levou a disputar um campeonato mundial de games em 1982. Porém, a derrota para o arrogante Eddie Plant (Peter Dinklage, de Game of Thrones) fez de Brenner um sujeito desiludido, conformado, que não consegue usar o cérebro em nada melhor do que instalar eletrônicos para uma grande loja. Seu melhor amigo, Will (Kevin James), entretanto, tornou-se presidente dos Estados Unidos, mesmo cometendo gafe atrás de gafe em suas aparições televisivas. Quando surge uma invasão alienígena envolvendo naves saídas do jogo Space Invaders, que propõem um desafio à humanidade, a única saída para Will é reunir Sam, Eddie e outro amigo dos dois, o nerdíssimo e paranoico Ludlow (Josh Gad), que parecem ser os únicos jogadores do mundo que ainda lembram desses jogos, mesmo sendo clássicos consumados. Completa o time a bela Violet van Patten (Michelle Monaghan), coronel do exército cuja função na trama é trocar flertes toscos e juvenis com Brenner. Coadjuvantes de peso, como Brian Cox (Adaptação) e Sean Bean (O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel) entram e saem sem ter quase nada a fazer.

Eis o mote para uma história de ação completamente previsível e sem riscos, onde os heróis nunca estão realmente em perigo (à exceção, talvez, da sequência envolvendo Pac-Man) e tudo existe em função do maior número de cores, barulhos e efeitos em 3D possíveis na tela. O carisma inegável do time auxiliar, sobretudo de James e Dinklage, que também se revela um cômico de mão cheia, ajudam a entornar o caldo. Mas os dois carros-chefe da trama, Sandler e os jogos, acabam saindo no prejuízo. O primeiro pela nítida falta de entusiasmo: Adam Sandler parece cada vez mais cansado de si mesmo, e esse enfado enfraquece as sequências que pedem maior empatia com o protagonista. Chego a imaginá-lo ocupando o papel de Nicolas Cage em Vivendo no Limite (1999), de Martin Scorsese, um paramédico que é a própria definição de exausto. Já os jogos, estes há muito pedem por filmes dignos, um diálogo mais respeitoso e produtivo com outras mídias, algo com que Pixels, apesar da abordagem positiva, pouco contribui.

No fim, porém, Sandler e Columbus podem comemorar. O filme vem acumulando uma bilheteria de blockbuster, e, com a onda geek à toda, Pixels certamente soube capitalizar em cima dessa força emergente. Nós, gamers, porém, estaremos melhor aguardando Detona Ralph 2.

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