Hoje, mais do que nunca, a Disney se apoia na nostalgia de suas histórias para atrair diferentes públicos para as salas de cinema. Não é por acaso que franquias como ‘Os Incríveis’, ‘Aladdin’ e ‘Toy Story’ voltam a emplacar novos filmes décadas depois de suas estreias: todos possuem uma longa trajetória dentro do estúdio, prontas para serem exploradas comercialmente a qualquer momento. Essa aposta, entretanto, exige uma releitura narrativa, a qual nem sempre é bem-sucedida. No caso de ‘Toy Story 4’, um filme descrito por muitos como “desnecessário”, a reinvenção da história é seu principal benefício, apontando para uma trama tão proveitosa quanto qualquer outro longa da franquia.

Sim, tivemos um ótimo desfecho com ‘Toy Story 3’ há quase uma década atrás. Isso, entretanto, não impediu o quarto filme de apresentar uma história divertida e envolvente. Mais uma vez, acompanhamos Woody (Tom Hanks) e Buzz (Tim Allen) em suas rotinas como brinquedos. Agora, ambos pertencem à Bonnie (Madeleine McGraw), criança que Woody pretende cuidar assim como fazia com Andy, seu antigo dono. Na busca por manter a felicidade da menina e a segurança de Garfinho (Tony Hale), o xerife encara uma trajetória com antigas lembranças e questionamentos pessoais.

Este direcionamento individual dos protagonistas aponta justamente para uma grande qualidade necessária em continuações: o desenvolvimento de seus personagens. Josh Cooley (roteirista de “Divertidamente” e aqui no primeiro longa como diretor) aproveita as tramas passadas para criar sentido às novas escolhas de seus protagonistas. Assim, seja na liderança desajustada de Buzz ou na trama identitária de Woody, ambos são bem construídos por si só e avançam a cada nova oportunidade. Desta forma, a ausência da parceria entre o astronauta e xerife não é quase notada e vemos personagens que verdadeiramente evoluem de acordo com as circunstâncias.

Para contribuir com esta ideia sem deixar o fator nostálgico de lado, as temáticas antigas são relembradas a partir de novas situações. Desta forma, a proposta educacional sobre cuidados com brinquedos e consumo consciente volta com força total, assim como temas mais densos como esquecimento e alienação parental. Tudo isto somado a uma história divertidíssima potencializada pelas adaptações na dublagem brasileira feitas com excelência, que incluem desde gírias até antigos memes.

Visual de dar inveja

Em 1995, ‘Toy Story’ tornou-se o primeiro longa feito inteiramente com computação gráfica e, desde então, os avanços significativos nas técnicas de animação permitiram chegar ao resultado incrível de ‘Toy Story 4’. Toda concepção visual dos novos personagens é realmente impecável, com detalhes e caracterizações que destacam o melhor do trabalho da Pixar com a Disney.

Neste sentido, a boneca Gaby Gaby (Christina Hendricks) torna-se um ótimo exemplo da minuciosa animação, a qual possui uma atenção especial para a proporção física da personagem e interação com a iluminação e ângulos pretendidos. Outra ótima escolha é o cenário de parque de diversões, principalmente, para a sequência final, criando um momento bonito e igualmente significativo.

Mesmo com o forte concorrente ‘Frozen 2’ estreando este ano, é possível que o trabalho de ‘Toy Story 4’ seja considerado como um nome de peso ao Oscar de Melhor Animação. Afinal, o filme leva o selo da Pixar, estúdio com um histórico favorável na premiação. Por outro lado, a indefinição quanto à categoria de ‘O Rei Leão’ pode apresentar impeditivos para que o filme dos brinquedos leve a estatueta, mas, uma coisa é certa: não faltarão candidatos da Disney.

A filosofia dos brinquedos

O fato da Disney utilizar objetos inanimados para sustentar a carga dramática de seus filmes já chegou até a ser uma piada na internet, mas o lançamento de ‘Toy Story 4’ mostrou o quão a sério é levada esta proposta. Desta vez, não apenas os bonecos têm sentimentos como eles questionam tais emoções. O grande destaque neste aspecto permanece sendo Woody, o qual apresenta uma narrativa criada a partir de seu contato com outros personagens que abordam sua identidade como Betty (Annie Potts) e o Garfinho.

Por um lado, Garfinho questiona a todos e a si mesmo sobre que o torna um brinquedo e não apenas lixo e, com dificuldade, passa a aceitar sua nova função. Da mesma forma, Betty ressignifica o termo ‘boneco sem dono’ em sua trajetória de independência. A jornada da personagem, inclusive, mostra para Woody e para o público uma alterativa, na qual o desfecho não é a volta para a normalidade e sim a criação de uma nova perspectiva.

Em se tratando de uma continuação, ‘Toy Story 4’ apresenta um desempenho surpreendentemente positivo. Porém, mesmo com todas suas qualidades, não deixa de preocupar até onde vai o fôlego para novos filmes. Portanto, é necessário saber exatamente a hora de parar e, com este desfecho, a franquia Toy Story está pronta para ser encerrada com louvor (mais uma vez).

‘O Caminho de Volta’: Ben Affleck se destaca em filme médio

Ben Affleck é um caso interessante. Seu início de carreira como ator em filmes como Procura-se Amy (1997), Armageddon (1998), Dogma (1999) o indicavam como um rosto bonito eficiente – sem ofensa – para estrelar blockbusters sem muito a dizer, mas com enorme alcance de...

‘Wendy’: no limbo da indecisão entre o infantil e o adulto

Quando falamos de diferentes produções sobre uma história no cinema sempre buscamos uma versão definitiva, a mais completa ou melhor idealizada. Assim, um personagem tão famoso como Peter Pan logo ganhou destaque em diferentes filmes e, desta vez, o...

‘Capone’: a esquisitice brilhante de Tom Hardy vale o filme

Alguma coisa está acontecendo com Tom Hardy. Sempre foi um bom ator – daqueles discípulos do método Stanislavski, se imerge no personagem e não sai dele – e especializado em tipos intensos, às vezes atormentados, às vezes até vilanescos. Mas aí em 2018 o cara fez o...

‘Emma’: adaptação irritante com Anya Taylor-Joy robótica

Jane Austen construiu um dos romances mais reais, plausíveis e icônicos de todos os tempos. Afinal de contas, quem não admira a história de amor de “Orgulho e Preconceito”? É de sua autoria também, no entanto, uma das protagonistas mais fúteis e egoístas da...

‘Ilha da Fantasia’: candidato a episódio dos piores de ‘Lost’

“O avião! O avião!”. Essa fala e o anão Tattoo são os elementos mais lembrados do seriado da TV Ilha da Fantasia dos anos 1970. Esses elementos são suficientes para garantir a produção de uma nova versão, destinada ao grande público de cinema de hoje? Bem, alguém...

‘Sete Dias Sem Fim’: filme certo para relaxar na quarentena

 Sete Dias Sem Fim é o típico filme que você passa diversas vezes por ele no catálogo da Netflix, lê a sinopse sem dá qualquer bola para ela e decide escolher outra produção para ver no final das contas. É verdade que o resumo disponibilizado pela plataforma não ajuda...

‘Never Rarely Sometimes Always’: sororidade na angústia do aborto

Particularmente assistir produções que tenham como temáticas ou subtextos o aborto é emocionalmente desgastante. Mesmo quando elas têm um tom mais leve como “Aprendendo com a Vovó”, por exemplo, a carga emocional e unilateral que esse tipo de jornada narra me deixam...

‘A Assistente’: o retrato dos abusos na indústria do cinema

Como todo grande acontecimento no mundo hollywoodiano, o movimento #MeToo não demorou muito para se tornar uma fonte de inspiração para muitas produções no cinema. Seguindo essa proposta, a diretora e roteirista Kitty Green (‘Quem é JonBenet?’) apresenta ‘A...

‘Devorar’: senhoras e senhores, conheçam Haley Bennet

O título nacional do filme Devorar é impreciso e sensacionalista, como muitas vezes acontece. O original em inglês é “Swallow”, que significa literalmente “engolir”, e esse é o drama na vida na protagonista da história. É um filme que combina um olhar sobre um...

‘Os Miseráveis’: reacionário, inconsequente ou apenas ingênuo?

Dos 23 jogadores convocados pela seleção da França para a Copa do Mundo de 2018, 19 poderiam atuar por outras seleções que não a francesa. Apenas quatro não eram nascidos em outro país, ou não tinham os pais e/ou familiares de outro lugar – majoritariamente de algum...