A gente cresce acreditando que o tempo é capaz de apagar qualquer ferida. Na teoria, isso é bem mais eloquente do que na prática. Afinal, na realidade, há sentimentos que nem o tempo e nem a distância conseguem diminuir ou erradicar. A partir desta premissa, Pawel Pawlikowski percorre os primeiros anos da Guerra Fria para contar uma história de amor entre um músico proeminente e uma jovem cantora na Polônia.


O olhar de Pawlikowski

Desde os primeiros cinco minutos, percebe-se as razões de Pawlikowski ter levado o prêmio de Melhor Diretor na última edição do Festival de Cannes. Tendo conquistado a Academia de Hollywood e o mundo com “Ida”, o cineasta demonstra que continua seguindo sua linha autoral e cada vez mais se distanciando do padrão estabelecido pelo cinema americano.

Em “Guerra Fria”, para além de suas habilidades cinematográficas, o polonês exibe uma sensibilidade impressionante. Pawlikowski consegue tomar uma história simples e contá-la de forma poética, envolvente e arrebatadora visual e sonoramente. Mesmo que em um primeiro momento as escolhas técnicas possam causar certo incômodo, é por meio delas que as concepções projetadas na obra conseguem alargar seu espaço e levantar reflexões no público. Afinal de contas, quem nunca sofreu por um grande amor? Mais do que isso, até onde você estaria disposto a se arriscar por alguém que ama?


As Marcas da Guerra Fria

O que mais sensibiliza em relação à condução narrativa de “Guerra Fria” é como ele deixa marcas imperceptíveis no espectador. A obra inicia com a primeira troca de olhares entre Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot) enquanto, ao mesmo tempo, evidencia as diferenças entre o casal. Retraído, sedutor e com um tom paternal, ele é um músico bem-sucedido, favorável ao regime comunista, vivendo à procura de novos talentos. Impetuosa, sobrevivente e de personalidade forte, ela é uma moça de passado duvidoso, enxergando na Academia de Artes a chance para mudar de vida. Os dois se atraem e se complementam enquanto os eventos históricos se desenvolvem como pano de fundo por meio da cooptação das artes pelo regime stalinista, o impedimento de atravessar fronteiras, a dependência financeira e a ameaça de prisões.

Diferente de projetos que buscam abordar este período histórico, o roteiro se preocupa em destacar de que maneira psicológica e emocionalmente a situação a qual os personagens estão vivenciando interfere nas suas escolhas e até mesmo na concepção sobre a própria vida. Se por um lado, Wiktor foge e se torna um boêmio na França enquanto bebe das ideias de esquerda que afloraram no país, Zula está sempre consciente do status que pertencer ao grupo artístico ofereceu a sua existência miserável. E esta divergência se mostra mais tangível quando compreendemos a visão de amor que cada um deles possui e até o que seriam capazes de fazer para estarem perto das pessoas de suas vidas.


O encontro entre Shakespeare e Pawlikowski

Somos colocados diante de dois prodígios, que se atraem de imediato. E, diferente dos padrões encontrados no cinema norte-americano para servir de empecilho a uma história de amor, em “Guerra Fria” é o peso político que impede a concretude do relacionamento entre os dois artistas. O que denota à produção um tom shakesperiano, no qual o romance está sempre envolto da tragédia política. Até mesmo a metáfora utilizada por Wiktor para descrever o relacionamento deles poderia pertencer a uma métrica do bardo inglês: “o pêndulo matou o tempo”.

Como Ofélia que esperou pacientemente pela sanidade de seu amado, Wiktor e Zula procuram provar que o tempo não importa quando se está apaixonado. Assim, mesmo que o tempo e a distância provem estar contra eles, Pawlikowski usa aproximação, encontro, desencontro, trégua e choque – elementos que poderiam ser aliados do casal – para expor que, ainda que se amem, tudo conspira pela desarmonia entre eles. Não é à toa que a solução oferecida para que consigam finalmente ter seu “final feliz” é pautada nos caminhos de Shakespeare: um tom agridoce para personagens passíveis de identificação.


As imagens de Lukasz Zal

Entretanto, o que mais contribui para causar identificação no público é a fotografia. Pawlikowski conta mais uma vez com a parceira de Lukasz Zal, a qual lhe possibilita a repetição do contraste preto e branco presente em “Ida”, mas, que aqui se mostra mais próximo da tonalidade escura. A cinematografia é responsável por entregar os sentimentos dos personagens. Enquanto os diálogos são poucos, é por meio das angulações, planos e sequências que as intenções de Wiktor e Zula se revelam.

A câmera os isola e mostra sua pequenez. Os dois estão sempre menores, na parte inferior do quadro. Quando se engrandecem é porque são vistos pelos olhos de outros personagens e não pelos seus. Esta construção imagética reafirma como estão deslocados e excluídos do momento histórico que vivenciam, mas próximos ao público. Pois embora estejam distantes dos elementos que compõem a imagem, estão em primeiro plano. Soma-se a essa escolha visual, o formato do espaço de projeção. Em vez de expandir para a imensidão do widescreen, a tela é quadrada como um retrato, destacando a proximidade que essa história de amor tem com o público.


O humanismo da trilha sonora e montagem

Preferindo sempre o intimismo e a subjetividade para narrar os encontros e partidas do casal, “Guerra Fria” agrupa humanismo, história e poesia. Parte disso se constrói na montagem de Jaroslaw Kaminski e na trilha sonora de Marcin Masecki. O jovem músico polaco realiza uma viagem pela arte folclórica da Polônia e depois, conforme as mudanças provocadas na arte européia, as músicas vão se tornando mais catárticas e depressivas. Não apenas construindo o apanhado histórico da narrativa, mas dando vozes aos sentimentos dos protagonistas. A música possibilita a compreensão do que estão experimentando os personagens, tanto pela interpretação quanto pela letra, e a condução da história, que vai se moldando conforme as canções apresentadas.

Quanto ao trabalho de Kaminski, é interessantíssimo o efeito levantado a partir dos cortes bruscos após uma emoção forte ou a ausência de som depois da música ou o contra-plano do rosto de quem escuta algum diálogo triste. Mesmo que esses cortes possam parecer inconvenientes ao primeiro contato, eles transparecem a sagacidade do diretor em fornecer apenas informações imprescindíveis e permitir que a catarse e o entendimento sejam resvalados a cada espectador. E é isso que torna “Guerra Fria” um romance necessário ao indivíduo contemporâneo: mais importante que discutir as causas e efeitos de decisões emocionais o foco está na demonstração da permanência dos sentimentos em um mundo em transformação.

Mesmo que a ambientação histórica seja um fator predominante, Pawlikowski construiu um filme contemporâneo. É surpreendente pensar como a relação estabelecida no filme é palpável e dolorosa, levantando questionamentos sobre permanência, aprisionamentos e insistência. Afinal, todos correm o risco de estar andando para o futuro, mas carregando os sentimentos do passado como um trunfo, a espera de repeti-los, ainda que só causem dor e tristeza. Entretanto, isso é muito mais fácil de sentir do que de dizer, como bem apresentaram as sugestões deixadas em “Guerra Fria”. Evidenciando que quanto mais sutil, maior o efeito.

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