2014 se aproxima do fim, e com isso começa a publicação em sites especializados com os escolhidos como melhores filmes do ano. Algumas das obras mais recorrentes das listagens já têm críticas no Cine Set, tais como Boyhood – Da Infância à Juventude, Interestelar, Amantes Eternos, Relatos Selvagens, O Grande Hotel Budapeste e Sob a Pele. Surgindo como coadjuvante do Top 10, o polonês “Ida” merece tanta atenção quanto seus companheiros mais famosos.

O tenso drama de Pawel Pawlikowski (“Meu Amor de Verão”) trata da questão da identidade judia logo após a Segunda Guerra Mundial. Chama atenção a saída do lugar-comum na abordagem do tema ao deslocar brevemente a ação no tempo para contar a história de Anna (a revelação Agata Trzebuchowska), uma noviça órfã prestes a fazer seus votos, mas que antes deve encarar seu passado a partir do contato com uma tia, Wanda Gruz (Agata Kulesza), que nunca antes tentara falar com ela. A trama possui um peso especial para o diretor, uma vez que Pawlikowski, filho de mãe católica e pai judeu, passou anos sem saber que seus avós haviam morrido em Auschwitz.

O contraste entre as duas mulheres é gritante: ao passo que a jovem Anna desconhece a vida fora do convento no qual sempre viveu, Wanda traz desde o olhar o peso de quem viveu mais experiências do que gostaria (resultadas de seu passado como promotora à serviço do governo stalinista). Uma transformação íntima acontece para ambas a partir de seu encontro, no qual Anna descobre seu verdadeiro nome, Ida, e sua origem judia. Wanda, por sua vez, vê em Anna/Ida um reencontro com o doloroso passado, no qual a morte dos pais da moça e do filho ainda bebê reacende lembranças que ela preferia esquecer usando o trabalho e a bebida como escape. Tudo isso se constrói de maneira sutil no roteiro, que entremeia pistas e algumas poucas revelações mais explícitas, prendendo a atenção do espectador com isso e com a atuação impecável da estreante Trzebuchowska e da veterana da tevê polonesa Kulesza.

Aliado ao duo de atrizes, o aspecto visual é outro item de destaque em “Ida”. A fotografia do filme pode facilmente ser eleita uma das melhores do ano, feito curioso quando pensamos na unidade atingida se lembrarmos que o diretor de fotografia Ryszard Lenczewski teve que ser substituído pouco tempo depois Lukasz Zal. O trabalho de ambos torna “Ida” ainda mais emblemático ao optar pelo pálido preto-e-branco de suaves contrastes e muitos vazios, que dá ao interior da Polônia um ar desolador e com ecos, talvez, de Carl Theodor Dreyer ou Ingmar Bergman em seus anos iniciais.

Aliado ao duo de atrizes, o aspecto visual é outro item de destaque em “Ida”.

Em vários momentos, o enquadramento cria formas curiosas, criando simbolismos tão sutis quanto o andamento do roteiro. Belo é o momento em que Ida, após descobrir com a tia que os corpos de seus pais foram enterrados num bosque e recolher os restos para sepultá-los dignamente, é posta em cena de forma a destacar apenas o corpo da jovem do pescoço para baixo, frisando o movimento de suas mãos ao fazer o sinal da cruz e rezar como católica pela alma de seus mortos judeus: um curioso encontro de identidades.

Esse encontro é o tempo todo frisado em “Ida”. Sua desolação, silêncios e angústias internas fazem com que o comecinho dos anos 1960, época na qual a trama se passa, pareça um intruso à narrativa que olha o tempo todo para trás, para as dores da guerra. Nesse sentido, surgem quase que como seres mágicos figuras como o jovem e sedutor saxofonista Lis (Dawid Ogrodnik) ou a loira e etérea cantora da banda à qual ele se junta (Joanna Kulig). Eles contrastam brutalmente com as acusações de Wanda à família que tomou a propriedade de sua irmã na época da guerra, às fotografias desbotadas que dão rosto aos pais de Ida e mesmo ao comunismo que transforma o país, num movimento alheio à vida de Ida no convento.

Trata-se de mais uma metáfora mostrando, a partir de uma representação que se constrói, acima de tudo, por uma memória afetiva, um país cujos jovens passam a viver uma realidade bem diferente de seus antecessores. E é através desse andamento mais preocupado em transparecer o espírito de uma época que explicá-la em detalhes que antissemitismo, comunismo, religião e juventude são discutidos em “Ida”.

Candidato polonês a uma vaga dentre os indicado a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2015, “Ida” é mais que um exemplar “exótico” nas listas de bons filmes desse ano. A austeridade de suas imagens recobre uma obra que, ao contrário de muitos outros concorrentes de grandes premiações, de fato toca o coração do espectador e fica ecoando na mente por um bom tempo.

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